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História - Século XX
SÉCULO XX

Hitler e suas leituras

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Ainda que privado de uma educação formal, nada além do que ultrapassasse os anos de ginásio em Linz, na Áustria, Adolf Hitler, no transcorrer da sua vida adulta, se transformou num leitor compulsivo. Uma parte considerável dos volumes que pertenciam a sua coleção particular, encontrados depois da vitória aliada em 1945, foi parar nas bibliotecas da América do Norte ou soviéticas o que serviu para uma a realização de uma interessante pesquisa feita pelo historiador americano Timothy W. Ryback sobre os principais títulos que agiram sobre a mente do Führer alemão.


Leituras nas trincheiras


Durante a Primeira Guerra Mundial Hitler serviu a perigosa missão de ser mensageiro, em alemão era um Meldegänger. Sua função requeria que ele estive sempre atento para levar ordens de uma trincheira à outra, passando assim por vários momentos de altíssimo risco, pois, a descoberto, via-se alvo dos tiros e bombas dos inimigos. Foi ferido em duas oportunidades, sendo que na vez derradeira, no final do conflito, inalou gás venenoso. Todavia, a atividade, ainda que perigosa, permitia pausas nas quais ele, em descanso na retaguarda, se dedicava à leitura. Além do pensador Schopenhauer, de quem ele leu Die Welt als Wille und Vorstellung, ‘O Mundo como Vontade e Representação’, de 1818, um livro enorme se bem que de razoável entendimento em se tratando de prosa filosófica alemã, interessou-se pelo ensaio de um arquiteto chamado Max Osborn dedicado aos prédios de Berlim. Era um aporte crítico, xenófobo e profundamente hostil a estilos que não fossem ‘genuinamente alemães’.

Pode-se dizer que as observações de Osborn marcaram para sempre a posição de Hitler contra tudo o que não fosse virklich deutsch, verdadeiramente germânico, em arte ou estética.

Quando ele deambulava pelas ruas de Viena, pintor ocasional, um tanto como artista-da-fome, época que ele denominou ‘ os cinco anos mais tristes da minha vida’, sentiu-se atraído pela revista ‘Ostara’, publicação profundamente antissemita editada por um monge católico chamado Lanz von Liebenfels, o que definitivamente o alinhou aos que eram fóbicos aos judeus. Hitler minimizou a importância de Nietzsche na sua formação, pois, comparando-o com Schopenhauer, achou o recluso de Weimar excessivamente ‘artista’, sem ser um pensador rigoroso, e que pouco o ajudou na construção ideológica do nazismo (*)


Soldados, colegas dele, nas folgas, sempre o viam com os olhos metidos em livros buscando conhecimento com sofreguidão. Ao término da matança, em novembro de 1918, era um veterano fortemente identificado com os valores gerais e os mitos da direita alemã (a perda da guerra resultou da Dolchstoss, a ‘punhalada nas costas’, aplicada por judeus e comunistas contra o esforço bélico nacional, não restando a Reichwehr senão que sugerir a capitulação frente aos aliados).

(*) Hitler nos começos dos anos 30 visitou o Nietzsche-Archiv, mantido por Elizabeth Förster-Nietzsche, a irmã do filósofo, em Weimar. Esta era uma franca admiradora do nazismo a tal ponto que presenteou o Führer com a bengala preferida do irmão, o que lhe rendeu, quase em seguida, apoio do regime para a preservação da documentação. Muito do jargão nazista foi desde então, retirado das obras de Nietzsche (Wille zur Macht, por exemplo, ‘vontade de poder’, foi uma das tantas expressões do autor de Zaratustra que foi incorporada na ocasião.

A politização

Hitler, fascinado por projetos arquitetônicos
Foi em meio ao caos político que se sucedeu a queda do II º Reich na Alemanha que Hitler ingressou como militante na pequena agremiação intitulada de Partido dos Trabalhadores Alemães. Logo, assumindo-lhe a liderança e introduzindo a cruz suástica como símbolo oficial, alterou-lhe o nome para NSDAP (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei, ‘Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães’) acentuando-lhe a conotação racista e anticomunista. O seu programa geral, os famosos 25-Punkte-Programm, os 25 pontos, insistia na retomada da bandeira da total unidade alemã entre o ‘sangue, cidadania e o estado’, e na anulação dos efeitos nocivos do Tratado de Versalhes (acordo assinado pelos políticos da República de Weimar com os aliados vencedores de 1918 que ferira profundamente a dignidade nacional do país).


Quem assumiu sua tutela naquela ocasião em Munique foi um homem de letras chamado Dietrich Eckart, tradutor de Ibsen e encenador profissional, que passou a orientar o ex-soldado nos caminhos da leitura programática e nas habilidades da escrita. Eckart logo descobriu virtudes excepcionais naquele militante até então obscuro, tratando de apresentá-lo nas rodas dos conservadores bávaros. E por ser ligado ao teatro, burilou-lhe as expressões, melhorando seus exercícios de oratória.


O fato de Hitler ter vindo direto das trincheiras era um ponto fortemente favorável, pois alguém com aquela experiência, um homem que se expunha diariamente ao risco não temeria enfrentar os conflitos de rua entre revolucionários e contra-revolucionários que se espalhavam pela Alemanha inteira. ‘Precisamos’, disse o mentor dele, ‘de alguém para nos liderar que esteja acostumado ao som de uma metralhadora’.

Certamente foi a leitura que ele fez de uma brochura divulgada por Anton Drexter, o verdadeiro fundador do partido nazista, intitulada Mein Politiches Erwachen, ‘Meu Despertar Político’, Munique 1919, que o fez pensar uns anos mais tarde, quando estava preso na Fortaleza de Landsberg (em razão do fracasso do putsch de 1923, liderado por ele e pelo general Luddendorf), em igualmente deixar o seu depoimento sobre como se transformou de um homem comum, um sujeito anônimo, um dos tantos que fizera a guerra, num líder de um movimento que pretendia empolgar e conquistar a Alemanha: o Mein Kampf (‘Minha Luta’, 1924-6).


Chegou inclusive - provavelmente pelas leituras que ele fez dos diversos relatos guerreiros de Ernst Jünger tais como Stahlgewittern, Der Kampf als inneres Erlebnis e Feuer und Blud, respectivamente ‘ Tempestade de aço’, ‘ A luta como experiência interna’, e ‘Fogo e sangue’, aparecidos entre 1920 e 1925, um dos poucos ex-combatentes alemães que exultou em ter participado da carnificina de 1914-1918 - a cogitar em deixar uma memória sobre a sua atuação no fronte da Grande Guerra.


Racismo e antissemitismo

Além de ter se abastecido por toda literatura antissemita barata que circulava livremente entre Viena, Munique e Berlim, dois livros em particular despertaram a atenção dele para ‘ o problema judaico’: o primeiro foi o famoso ensaio publicado por ninguém menos do que Henry Ford ( Der Internationale Jude, ‘ O judeu internacional’), o outro foi do advogado nova-iorquino e ambientalista Madison Grant (na tradução alemã Der Unterganag der Grossen Rasse, 'O declínio das grandes raças’ 1925). Ambos obcecados pelas questões da influencia do semitismo na sociedade ocidental. Foram obras que apenas reforçaram mais seus pendores xenófobos e germanistas visto que o seu verdadeiro patrono neste assunto tinha sido Houston Stuart Chamberlain, um inglês germanizado que escrevera o bem sucedido Grundlagen des neunzehnten Jahrhunderts, ‘Os Fundamentos do Século XIX’, de 1899, exaltando os alemães como os mais autênticos herdeiros da mítica raça superior dos arianos.


Vibrou igualmente com os quatro volumes que conseguiu da Deutsche Köpfe nordischer Rasse, a ‘Tipologia racial do povo alemão’, de 1927, pesquisa de um antropólogo da universidade de Jena chamado Hans F.K. Günther, apelidado de Rassenpapst, ‘ o papa do racismo’, que pretendeu ser uma ampla coletânea dos ‘tipos germânicos’ mais significativos espalhados pelo país, assim como as diversas facetas dos judeus alemães (que ele considerou um ‘corpo asiático’ incrustado no organismo social alemão). Mais tarde, com Hitler no poder, ele foi considerado ‘ orgulho do NSDAP’.

A divisão da biblioteca de Hitler

Dietrich Eckart, mentor intelectual de Hitler ( 1868-1923)
Num levantamento feito em 1942, constatou-se que a biblioteca particular de Hitler, agora imensa, devido às novas aquisições e incontáveis presentes trazidos pelos admiradores, com mais de 16 mil exemplares, subdividia-se em três grandes áreas de interesse:


1ª) seção militar: ( com 7 mil exemplares) na qual despontavam os livros de Von Clauzewitz, a biografia do estrategista Von Schliffen, e incontáveis registros de campanhas militares de reis alemães, particularmente de Frederico, o Grande, e as de Napoleão. Além disto, contava com farta bibliografia de temas técnicos de guerra (aviões, tanques, armamento leve e pesado, etc.), pelo qual ele manteve crescente interesse conforme a Segunda Guerra Mundial se ampliava. Também comportava um numero elevado de biografias de estadistas e personagens históricos famosos (de César, de Frederico, o Grande, de Von Büllow, etc.). Havendo ainda um tanto de ficção popular ( Hitler, como tantos alemães do seu tempo, era admirador do popularíssimo Karl May, escritor de livros juvenis de aventuras que centrava suas histórias no Velho Oeste americano sem nunca ter posto os pés por lá), que oscilava entre 800 a mil volumes.


2ª) seção de temas artísticos: ( 1,5 mil títulos) ,com livros de arquitetura, teatro, pintura, escultura e fotografia (em especial a edição de ‘Olympia’ que lhe foi presenteada pela cineasta Leny Riefensthal, em 1936). A paixão dele pela arquitetura explica por igual a infinidade de autores daquela área.


3ª) seção dedicada ao ocultismo, à astrologia e ao espiritualismo, todos conhecidos talismãs intelectuais da extrema-direita. Livros de alquimia e de ciências ocultas, como o manual Geheime Wissenschften, misturavam-se a álbuns com fotos de constelações estrelares ( uns 6 mil volumes). Comportava ainda o livro ‘Lei do Mundo’ de Max Riedel, o “Corpo, espírito e razão viva’ de Dicaearchos Carneades, um antigo filosofo grego ligado às adivinhações e ao processo que envolve o homem em sua tomada de decisões, e um volume de Die Grandlagen des Nationalsozialismus, ‘Os Fundamentos do nacional-socialismo’, de 1936, do bispo Alois Hudal, um integrante do alto clero austro-alemão que propôs uma frente católico-fascista para deter a ameaça do comunismo, bem como o semi-ilegível livro do ideólogo nazista Alfred Rosemberg, intitulado Der Mithus des 20 Jarhunderts, ‘O Mito do Século XX’, numa edição de 1940, obra que Hitler detestava por ser impenetrável.


O fim da biblioteca


Distribuída entre a Chancelaria do Reich, o bunker em Berlim e sua propriedade alpina em Obersalsberg, a biblioteca privada de Hitler foi inteiramente pilhada pelos soldados aliados, americanos e soviéticos, logo em seguida da ocupação da Alemanha em 1945. Muito do material foi parar em academias norte-americanas (Brown University) ou na Biblioteca do Congresso, onde ganhou um setor especial. A parte levada pelos russos para Moscou ficou longamente abandonada até que recentemente terminou dissolvida, pulverizada entre outras estantes moscovitas.

O site recomenda

Timothy W.Ryback – A biblioteca esquecida de Hitler. São Paulo: Cia das Letras, 2009

    
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