Educação História por Voltaire Schilling Século XX
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História - Século XX
SÉCULO XX

Cuba, a revolução cinqüentenária (Parte II)

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O governo de ocupação


De 1899 a 1902, o general John A. Brooke exerceu uma ditadura militar sobre a ilha. Ainda que contasse com ministros cubanos para administrar a burocracia e fossem cubanos os governadores das províncias, os comandantes militares regionais norte-americanos eram quem de fato exerciam a autoridade. Esta situação prolongou-se até a eleição do presidente Tomás Estrada Palma, em 1902, cujo poder fora encolhido pela imposição da Emenda Platt, exigência do secretário-da-guerra Elihu Root incluída na Constituição Cubana, redigida em 1901, dando o direito dos Estados Unidos continuar intervindo nos assuntos internos da ilha.


Fuzileiros navais norte-americanos desembarcaram por duas outras vezes na ilha, em 1906 e em 1912, para reprimir protestos contra o governo colaboracionista. Numa delas para sufocar uma revolta dos negros contra medidas racistas.


Ainda que alguns membros da elite local, geralmente os donos dos campos de cana-de-açúcar e de tabaco, desejassem abertamente a anexação aos Estados Unidos. A oligarquia crioula demonstrava com isto que jamais tivera um projeto de independência nacional ou que tivessem isto em mente, merecendo ter sido chamada pelos senhores espanhóis 'como a mais fiel de todas'.


Mas tal proposta não foi cogitada pelo Congresso americano pois Cuba não era 'suficientemente branca' para merecer ser aceita pelos demais integrantes da União. E assim, nem independente nem anexada, Cuba seguiu seu destino como protetorado dos Estados Unidos.

Sob hegemonia norte-americana: a IIª fase: de 1898 a 1959

Turista americano em Cuba
Cuba tornou-se ao longo dos anos no Paraíso Tropical dos norte-americanos. Tudo que era reprimido nos diferentes estados dos Estados Unidos (jogo, prostituição e bebida alcoólica) tinha plena franquia em Cuba, sendo que Al Capone foi um dos primeiros quadrilheiros a fazer investimentos por lá. Quase sempre os presidentes ou os ditadores (Gerardo Machado e depois Fulgêncio Batistas) eram sócios das redes de jogatina e do comercio de luxuria implantado nos cassinos e grandes cabarés de Havana.

Cidadãos norte-americanos, reprimidos nas suas cidades por impedimentos moralistas como a Lei Seca, em vigor entre 1920 e 1933, ou restrições aos jogos de azar, desembarcavam aos magotes na ilha para gozarem de todos os pecados possíveis e inimagináveis naqueles ares tropicais. Hotéis confortáveis, muitos de primeira linha como o Havana Hilton e o Hotel Rivera, brotavam na capital e entre as mais de 130 praias espalhadas pela ilha como se fossem cogumelos depois da chuva. Bailarinas e cantores famosos se alternavam nos espetáculos e shows que pareciam não ter fim.

A boa vida em Cuba

As Noites de Havana (cartaz)
Charutos fantásticos, 'los puros' como os das marcas La Flor de Cano, Bolívar ou Cabañas, e uma série de drinques a base de rum (Cuba-libre, daiquiri, mojitos, etc..), sorvidos nos embalos das habaneras, rumbas, mambos, cha-cha-chás, salsas, congas e boleros, tocados pelas orquestras de Cachao López , La Sonora Matancera e de Pérez Prado, no famoso cabaré Tropicana, fundado em 1931, despertavam a sensualidade e a libido de qualquer turista, fazendo com que as noites de Havana abrigassem a maior concentração de prostitutas da América Latina inteira. Toda aquela alegria de viver, circunscrita a rede turística, não era o suficiente para esconder as péssimas condições de vida, particularmente da população rural.



O que a ocupação norte-americana trouxe de positivo foi a política sanitarista de prevenção às doenças tropicais, pois muitos cidadãos ianques eram vitimados pela febre amarela e outras doenças típicas das áreas equatoriais. Por igual, tomaram enérgicas medidas gerais de higienização e melhoria da água corrente para evitar contaminação.


Não descuraram da educação, providenciando a que se abrissem diversas escolas primárias voltadas para a população nativa. Todavia, permanecia a situação desconfortável de Cuba não ser realmente um país independente, vivendo sempre a sombra do seu vizinho gigante. Os norte-americanos eram os proprietários da maioria dos engenhos de açúcar, das empresas comerciais e bancárias e das poucas indústrias existentes na ilha, enquanto o tráfico libidinoso e a jogatina eram administrados por quadrilha de mafiosos, com a de Meyer Lansky e 'Lucky' Luciano. Tudo isto contribuiu para que chamassem Havana de 'o grande bordel americano do Caribe'.


Esta subordinação de fato não impediu que, no transcorrer do século XX, Cuba se tornasse num dos mais expressivos centros literários da América Latina. Era lá que se editava a 'Bohemia', revista fundada por Quevedo Pérez, em 1908 e que veio a ser uma das maiores manifestações da expressão cultural latino-americana em todos os tempos, conseguindo uma tiragem de mais de 300 mil exemplares às vésperas da Revolução.


Poetas como Lezama Lima, Virgilio Piñedo e Nicolas Guillén, rivalizavam com romancistas do porte de Alejo Carpentier e de Cabrera Infante, considerados como magníficos inovadores da rima e da prosa espanhola.


Até Ernest Hemingway, notório freqüentador do bar La Bodeguita onde sugava incontáveis mojitos, se sentiu motivado pelo ambiente e pela afeição dos nativos, escolhendo a ilha para morar entre 1939 e 1961. Além das suas pescarias conseguiu escrever uma pequena obra-prima sobre o pescador Santiago, personagem do 'O velho e o mar', o que lhe valeu o premio Nobel de Literatura de 1954.


Foi então que a vitória de Fidel Castro, depois de estar por apenas dois anos na Sierra Maestra mantendo uma intensa atividade de guerrilhas, entre 1956 e 1958, conseguiu uma inesperada vitória sobre o exército de Batista amparado pelos Estados Unidos.

Caliban insurge-se contra o domínio de Próspero: a IIIª fase ( de 1959 até nossos dias)

Rapidamente a revolução de 1959 que começou como uma revolta com objetivos políticos (por fim a ditadura de Batista) se radicalizou numa revolução social (exigindo reforma agrária e expropriação das propriedades estrangeiras). A Cuba de 1959 um tanto que repetia o roteiro da Revolução Mexicana de 1910 que havia seguido pelo mesmo caminho (o colapso da ditadura de Dom Porfírio transformara-se num clamor por terras, exigência que teve no mestiço Emiliano Zapata seu principal expoente).


O desentendimento com os Estados Unidos assumiu ares cada vez mais dramáticos, visto que se vivia numa camisa de força que abarcava boa parte do mundo: quem não se afilava com Washington era imediatamente colocado na lista dos inimigos.


Fidel Castro que nunca fora comunista foi denunciado pelo Departamento de Estado do governo do general Eisenhower como ‘simpático a Moscou’. Logo se seguiu a querela das indenizações exigidas pelas empresas norte-americanas estatizadas pela revolução ou cujas terras tinham sido expropriadas para fim de reforma agrária. Castro negou o montante e seguiu-se então o bloqueio ao crédito e tudo o mais. Caliban definitivamente entrara em guerra contra Próspero. As relações diplomáticas finalmente foram rompidas em janeiro de 1961.


Em abril de 1961, desta feita no governo de J.F.Kennedy, a CIA desencadeou uma operação de desembarque em Cuba que visava a derrubada do regime revolucionário. Deu tudo errado. Os contra-revolucionários foram todos aprisionados. Fidel fortaleceu-se ainda mais. No ano seguinte, o mundo tremeu com a Crise dos Mísseis de outubro de 1962.


Fidel Castro, num ato de temeridade para proteger a revolução ameaçada, aceitara que a União Soviética instasse foguetes na ilha cujo alcance poderia facilmente atingir a costa norte-americana. Na prática, autorizou a que Cuba se transformasse num porta-aviões soviético, equipado com 60 mísseis táticos nucleares, ancorado a poucos quilômetros da Flórida.


Kennedy, evidentemente, fez um escândalo exigindo que o chefe de governo soviético Nikita Krouschev os removesse sem tardar sob pena de desencadear uma guerra nuclear entre as duas potências. Em discurso o presidente norte-americano impôs "o imediato desmonte e a retirada de todas as armas ofensivas instaladas em Cuba e sob controle de observadores das Nações Unidas."


O líder soviético, concordando, negociou então um acordo direto com o presidente norte-americano obtendo garantias dele que Cuba não seria mais invadida. A humanidade então respirou aliviada pois uma guerra atômica fora evitada.

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