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Cuba, a revolução cinqüentenária (Parte I)
Na festa do Ano Novo, no final do Réveillon o ditador cubano Fulgêncio Batista saudou os presentes com um brinde e desejou um feliz ano de 1959 para aqueles que ficavam em Havana. Ele, por sua vez, logo que sacara 300 milhões de dólares do tesouro nacional, embarcou com seus sequazes num avião que o governo norte-americano colocara à disposição para voar para o exílio dourado. Escapava de um destino que certamente acabaria frente a um pelotão de fuzilamento. A partir de então, acontecimentos espetaculares passaram a dominar o cotidiano das Américas.
Um dia depois, no alto de num tanque de guerra, Fidel Castro e seus guerrilheiros da Serra Maestra entravam triunfantes na capital estremecida sob intenso júbilo popular. Concluiu-se naquele momento a articulação vitoriosa entre a guerra rural e uma generalizada revolta urbana que pôs fim ao regime de Batista.
Começava ali o segundo ato da Revolução Cubana que se iniciara cinco anos antes, em 26 de julho de 1953, com o improvisado ataque liderado por Fidel Castro ao quartel de Moncada, em Santiago de Cuba, no sul da ilha, em protesto contra a ditadura.
A vitória dos rebeldes em 1º de janeiro de 1959 provocou então uma comoção na América inteira, inclusive nos Estados Unidos. A parte latina continente, constantemente dominada por ditadores de todos os tipos, civis ou militares, parecia ter encontrado seu vingador e justiceiro. O jovem ‘cavaleiro andante’ Fidel Castro revelou-se um dos raros lideres populares da história do Novo Mundo a ter sucesso numa empreitada em por abaixo uma tirania corrupta como era a de Batista.
O cenário mundial a época da revolução
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Entrada triunfal em Havana ( 1/1/1959)
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A Revolução Cubana de 1959 resultou do processo de descolonização iniciado nas áreas do Terceiro Mundo a partir da Segunda Guerra Mundial. Os povos de cor da Ásia e da África estavam em luta para livrar-se do domínio colonial, situação que alguns conheciam desde o século XVI ou XVIII, como era o caso da Índia de Gandhi.
No pós-1945, por toda a parte surgiram movimentos de ‘libertação nacional’ (Egito, Argélia, Gana, Quênia, Rodésia, Angola, Moçambique, Vietnã, Indonésia, África do Sul, etc..), sendo que muitos deles recorreram à guerrilha visando alcançar seus objetivos. Seus líderes tiveram seus nomes conhecidos em larga parte do mundo: Gamal Nasser, Ben Bella, Sekou Toure, Jomo Keniata, Robert Mugabe, Agostinho Neto, Samora Machel, Ho Chi-min, Sukarno, Nelson Mandela, etc...
Em termos shakespereanos fora como se Caliban, o pobre índio deformado da peça ‘A Tempestade’ (de 1616), habitante nativo de uma ilha caribenha, oprimido por Próspero, o duque poderoso e cheio de truques vindo da Europa, conseguisse se libertar da histórica submissão em que se encontrava.
Entre 1950 e 1975 (data da descolonização portuguesa da África), mais de 50 paises outrora dominados por alguma das potencias colonialistas européias, conseguiram alcançar o estatuto de nações independentes. Este era o cenário internacional, ainda emoldurado pelas tensões da Guerra Fria, que serviu de fundo à revolução fidelista de 1959.
O que a diferenciava das demais mobilizações pela independência era que o poder dominante em Cuba não era nenhum enfraquecido império do Velho Mundo mas sim os Estados Unidos da América.
Por conseguinte, a dinâmica dos acontecimentos que se sucederam está toda ela centrada nas relações entre a modesta ilha e a super-potência sua vizinha. Repetia-se no Caribe o lendário confronto entre Davi e Golias travado no cenário do enfretamento mundial entre os grandes poderes do mundo: o capitalismo e comunismo.
As relações com os Estados Unidos: a Iª fase: de 1803 a 1898
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T.Roosevelt em Cuba ( 1898)
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Distante apenas 180 km da Flórida, a ilha de Cuba colônia espanhola desde o século XVI, sempre mereceu uma atenção especial por parte dos Estados Unidos. Por muito tempo ela foi fruto da cobiça dos norte-americanos. Em 1803 o presidente Thomas Jefferson enviara sem sucesso um delegado seu para comprá-la do governador-geral espanhol. A estratégica ilha caribenha era para ele "era mais interessante adição que poderia haver ao nosso sistema de estados" , pois seu controle permitiria a vigilância direta sobre o Golfo do México e toda a América Central.
Pela metade do século XIX foi a vez de vários lideres do Sul escravista, como os Cavaleiros da Camélia Branca, elaborarem projetos para anexá-la pois viam-na como um simples prolongamento geográfico da Flórida (comprada da Espanha em 1819) e irmã siamesa do seu próprio modo de produção (monocultura, latifúndio e trabalho escravo). Mas os sucessivos governos do decadente império espanhol sempre negaram qualquer tipo de negociação.
A oportunidade dos norte-americanos se adonarem do destino de Cuba finalmente chegou no final do século XIX quando os patriotas liderados por José Martí iniciaram uma fracassada rebelião anticolonial para obter a independência, em 1895.
Alegando prestar ajuda aos insurgentes em perigo, Theodor Roosevelt, ativíssimo líder norte-americano, desembarcou com seus comandados, os Rough Riders, e mais 45 mil homens em abril de 1898 em Santiago de Cuba e, depois de vencidas as curtas batalhas de Cienfuegos, San Juan Hill, Las Guasimas e a naval de Manzanillo, submeteu com facilidade os espanhóis na desde então chamada Guerra Hispano-americana. A ilha por inteiro ficou em mãos norte-americanas.
Cuba, protetorado americano
Durante os três anos seguintes ao tratado de Paris, de 10 de dezembro de 1898, no qual a Espanha derrotada reconheceu a soberania dos Estados Unidos sobre Cuba , Porto Rico e as Ilhas Filipinas, além de receber dos cubanos uma área 117 Km2 na baía de Guantanamo (ainda hoje base norte-americana), Havana viveu sob um governo militar de ocupação.
Confirmara-se assim a previsão do secretário de estado John Quincy Adams que certa vez escrevera, comentando a possibilidade de anexação da ilha: "Existem leis na política tanto quanto na física gravitacional: se uma maçã for jogada longe da sua árvore nativa por uma tempestade ela não escolhe o chão em que irá cair, Cuba, certamente, rompida sua conexão pouco natural com a Espanha, incapaz de manter-se, forçosamente gravitará ao redor dos da União Norte-americana....”
Para desarmar os soldados cubanos que lutaram inutilmente pela independência abortada, o governo de ocupação ofereceu U$ 75 a cada fuzil entregue às autoridades.
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