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O último encontro dos reis: o funeral de Edward VII
Poucas vezes o mundo assistiu visualmente tamanha concentração de poder. Seguindo o féretro que acompanhava o caixão do rei Edward VII da Grã-Bretanha na cerimônia funerária realizada em 20 de maio de 1910, encontrava-se toda a realeza da Europa. Até um representante do imperador da China se fazia presente naquele magnífico sepultamento que percorria, solene, as ruas de uma Londres apinhada de gente.Todavia, alguns anos depois, como resultado da Guerra de 1914-1918, quase nenhuma das personalidades coroadas que lá estiveram presentes conseguiu manter o trono. Quando muito mantiveram a roupa do corpo e a cabeça ainda presa a ele.
Um rei bon vivant
Filho mais velho da rainha Vitória, Edward, nascido no Palácio de Buckingham, em 1841, foi mantido pela mãe bem longe de qualquer compromisso com o poder. A velha rainha concentrava tudo em suas mãos e desde que ainda jovem ficara viúva, não permitiu que nenhum outro homem viesse a lhe fazer sombra. Assim sendo, o primogênito Edward, o Príncipe de Gales herdeiro do trono, concentrou-se em levar a vida hedonista de um bon vivant. Dedicou-se às caçadas e à infindável conquista de mulheres, fossem atrizes ou fidalgas (Lily Langtry, Alice Kepple, Lady Brooke, Princesa de Mouchy e Princesa de Sagan), sendo responsável por inúmeros casos de divórcio que aconteceram na corte dos Saxe-Coburg-Gotha (mais tarde Windsor). Evidentemente que, como os demais membros da nobreza, adorava corridas de cavalos e saltos de obstáculos. Bem como introduziu o jogo de golfo nos parques do palácio real de Buckingham.
Nada desta vida de futilidades empanou a simpatia do povo inglês para com ele, sempre cultivando a imagem de príncipe tolerante e bonachão. Alto, um tanto roliço, de barba grisalha bem aparada, charmoso e simpático, sempre se mostrava sorrindo na maioria das fotos e mesmo nas ocasiões solenes que era obrigado a participar. Aliás, praticamente foi ele quem inaugurou o costume de haver sempre alguém da família real presente nas grandes ocasiões - inaugurações, festejos, datas nacionais, comemorações locais - como uma espécie de relações públicas da monarquia. De muito bom gosto, seu modo de vestir, o estilo edwardiano, influenciou a moda masculina a época.
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Edward VII (1841-1910)
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Quando aos 59 anos, em 9 de agosto de 1902, recebeu a Coroa na abadia de Westminster depois da morte da mãe dominadora, o Império Britânico estava no seu auge. Nada se fazia nos mares ou nas terras sem o implícito ou explicito consentimento de alguma autoridade inglesa espalhada pelo mundo. Ainda que sendo rei de uma ilha de modestas proporções (244.110 km²), o Império Edwardiano se estendia sobre extensões de terra simplesmente inacreditáveis: eram 50 as colônias controladas pelos britânicos, entre elas países extensíssimos como o Canadá (9.970.610 km²), a Índia (3.287.590 km²), a Austrália (7.682.300 km²), o Egito-Sudão (3.501.663 km²) e a metade da África Negra. Habitavam-no milhões de súditos de todas as raças, de todas as nações e de todas as religiões, compondo um cenário humano no qual ‘ a cabeça britânica conduzia os braços nativos’. Para controlar isto tudo era preciso imperar sobre os oceanos. A Royal Navy, a Marinha de Sua Majestade Britânica (18 modernos couraçados pesados, 10 cruzadores de batalha, 20 cruzadores leves, 15 cruzadores de escolta, 200 destróiers, 29 couraçados médios e 150 cruzadores leves: um tanto mais do que 400 naves de guerra), policiava os mares e os continentes com a atenção de um guarda de quarteirão, sempre vigilante e atento a qualquer tumulto que viesse empanar a longa Pax Britânica.
Mal ele se acomodara no Palácio de Westminster e mais uma jóia lhe caíra nas mãos. Os bôeres, descendentes de holandeses que habitavam a África do Sul desde o século XVII haviam concordado no ano da ascensão dele em por fim a resistência guerrilheira que moviam contra as tropas inglesas desde 1899. Toda a área diamantífera e aurífera do outrora Estados Livre de Orange passou para o controle dos funcionários de Edward VII. Fortuna que, somada aos 300 mil acres de terras e aos quatro palácios que lhe pertenciam e que estavam no interior do país, fez dele um dos monarcas mais ricos do mundo.
Chamado de ‘tio da Europa’, devido ao extenso número de parentes seus espalhados pelas cortes (Alemanha, Rússia, Saxe-Coburgo, Hesse, Noruega, Dinamarca, Suécia, Romênia, Grécia, Espanha, etc..), Edward VII morreu de um ataque cardíaco como conseqüência de uma bronquite mal curada em 5 de maio de 1910. Amado pelo povo, foi um dos reis mais populares da história inglesa.
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George V, o novo rei, o imperador Guilherme II e o Duque de Connaugh
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Exatamente pela enorme rede de parentesco, unido ao poder colossal que o Império Britânico então exercia sobre o mundo, é que o funeral de Edward VII assumiu proporções inauditas. Todos os soberanos importantes se fizeram presentes. Inclusive os de menor linhagem. Seguramente desde o encerramento do Congresso de Viena de 1815 nunca se viu junto tantas cabeças coroadas e tanto sangue azul participando coletivamente de uma cerimônia. No dia 20 de maio, parecia que o mundo todo viera para Londres assistir a inumação do velho rei.Logo atrás acompanhado o caixão, conduzido pela guarda dos granadeiros reais em direção a estação ferroviária e dali para a cripta da capela de S.George, no Palácio de Windsor, vinha seu herdeiro o rei George V, ao lado do sobrinho do morto, o kaiser alemão Guilherme II que cavalgava ao lado do Duque de Connaught. Seguiam-nos a distancia comedida o Rei da Grécia, o Rei de Portugal, o Rei da Espanha, o Rei da Bulgária, o Rei da Bélgica, o herdeiro do império Austro-húngaro, o Duque de Esparta e o Grão-Duque da Rússia, representando o seu irmão o czar Nicolau II, e o príncipe Tsai Tao da China. Os dois únicos plebeus em meio aquele rio humano de fidalgos, eram os republicanos Theodor Roosevelt, representante dos Estados Unidos e Pichon, o ministro da França. Nas ruas se aglomeravam dois milhões de súditos vindos dos quatro cantos do império.
Em sã consciência , com exceção dos extremistas de sempre e das previsões alucinadas de um Nietzsche, quem poderia sequer supor que aquele pomposo e marcial sepultamento iria, por igual, assinalar o fim de boa parte daqueles que estavam ali presentes?. Quem poderia prever que aquele desfile olímpico de monarcas seria o derradeiro em toda a terra? A espetacular afirmação de poder da nobreza e das dinastias européias seria reduzida a pó num par de anos. Nunca uma classe social cometera tamanho equivoco na avaliação das suas possibilidades de sobrevivência. A historiadora Bárbara Tuchman registrou que aquela cerimônia “foi a maior assembléia da realeza em todos os tempos, e, no gênero, a última” (‘Os canhões de agosto’)
O primeiro deles a perder a coroa, ainda antes da hecatombe de 1914-1918, foi o rei Manoel II de Portugal, posto a baixo em Lisboa pelo levante republicano de outubro de 1910. O mesmo deu-se com o legado chinês logo depois de ter retornado a Pequim. Em junho de 1914, foi à vez de Francisco Ferdinando, arquiduque da Áustria e herdeiro do trono, cair vítima de um atentado em Sarajevo. O kaiser Guilherme II perdeu a guerra de 1914 e o trono, vivendo no exílio desde 1918. Destino pior tiveram os irmãos Romanov: o príncipe Miguel Alexandrovich e o czar Nicolau II, com toda a sua família foram, executados pelos bolcheviques em 1918. Outros, soberanos menores, foram destituídos ou caíram sob as balas de anarquistas. Tratou-se de uma autêntica e real ‘queda dos deuses’. Tudo aconteceu como se cumprissem a Götterdämmerung de Richard Wagner, quando num final apocalíptico todo o palco da ópera se vê incendiado e destruído pela fúria do deus.
Bibliografia
James, Lawrence – The Rise and Fall of the Britsh Empire. Londres:Abacus, 1995. Mayer, Arno – A Força da Tradição. São Paulo: Cia. das Letras, 1987.
Tuchman, Barbara – A Torre do Orgulho. Rio de Janeiro.: Paz e Terra, 1990.
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