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A Grande Depressão de 1929 (Parte IV)
Os Okies Os desalojados, por sua vez, apelidados de Okies, perdendo suas propriedades e terras para sempre, iniciaram longas peregrinações internas, fugindo como pássaros de arribação - exemplo disto foi o triste destino da família de Tom Joad narrado por John Steinbeck, no seu best-seller The Grapes of Wrath, 'As vinhas da ira', de 1939 -, procurando encontrar na Califórnia um oásis que os abrigasse do cataclismo.
Somente do estado do Oklahoma , registrou David M. Kennedy (in Freedom from Fear, NY, 1999), partiram mais de 300 mil lavradores, outros tantos milhares foram-se do Texas, Kansas e do Colorado, pondo-se na estrada não mais como seus antepassados pioneiros, mas como refugiados, como os desamparados órfãos da morte do sonho americano.
A fotografa Dorothea Lange e seu marido Paul Taylor captaram muitos daqueles rostos daquelas famílias devastadas pela miséria e pelo desespero, reproduzindo-os num livro que causou muito impacto: An American Exodus: a Record os Human Erosion, um clássico da fotografia publicado em 1939.
É fácil, pois, localizar-se a origem do banditismo endêmico que assolará a América na década dos anos trinta, assim como suas principais vítimas -os bancos. Momento estranho que fez com que John Dillinger, um gangster famoso, quase se tornasse um herói nacional, tendo milhares de pessoas acompanhado o enterro dele quando foi baleado pelo FBI em Chicago, em julho de 1934.
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Milhares foram erguer barracas (Dorothea Lange, 1936)
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Uma crise agrária sempre lança seus reflexos sobre o setor industrial. De imediato, o mais atingido foi o da produção de materiais agrícolas (ceifadeiras, colheitadeiras, arados mecânicos, tratores, etc.), seguido dos demais. Obrigados, pela queda na demanda, a suspender a produção, encaminharam milhares de operários para a triste estrada do desemprego (mesmo nos bons tempos da economia americana o número oscilou de um milhão e meio a quatro milhões de desempregados). Mas qual a origem da queda dos preços agrícolas? Como puderam ser tão reduzidos? Hoover enfatizara, em seus discursos, que as causas eram "externas", exógenas à economia do pais. Em parte, não estava afastado de toda a razão.A guerra levara à internacionalização mais acelerada da economia americana, pelo menos muito mais intensa do que no período precedente a 1914. O seu mercado chegava às planícies da França e às Ilhas Britânicas, pois os lavradores e fazendeiros europeus estavam lutando nas trincheiras. Com o término do conflito, a endividada Europa reduziu suas importações (agrícolas e industriais).
Além disso, novos produtores lançaram-se no mercado (principalmente o Canadá, a Argentina e a Austrália) que, concorrendo com os principais produtos americanos (trigo, milho, aveia e algodão), levaram-no a uma queda vertical de preços. Mas as "forças externas", tão invocadas por Hoover, não assumem solitárias a responsabilidade pela crise. É na própria estrutura da economia americana que encontramos a gênese da depressão.
Quando se refere à crise de 1929, vem-nos logo à memória o colapso da bolsa de Nova York e a história um tanto lendária dos suicídios de corretores que não podiam tolerar os desesperados olhares de seus clientes que haviam perdido tudo (John Kenneth Galbraith, que investigou o que ocorreu naquele período, atribui mais ao folclore do que à realidade tais atitudes desesperadas). Mas a simples crença de que os suicídios pudessem ter ocorrido, revela a situação de pânico que predominou na sociedade americana naquele momento gravíssimo. Para milhares de especuladores e pequenos investidores o Crash da bolsa de valores foi um mergulho num pesadelo, após as delícias de um decênio de inebriantes ambições, quando o "enriquecimento batia à porta dos espertos".
Deve-se atentar para o fato de que uma forte baixa na bolsa de valores não leva uma economia ao total colapso, nem pode ser responsável pela depressão. No passado, no século XIX, crises violentas haviam abalado as bolsas mas jamais jogado o sistema por inteiro no chão.
A crise arrasa as fábricas
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Os desempregados recorreram às rezas
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Na indústria, fortemente atingida, foi onde mais profundamente manifestou-se a crise. Primeiramente, foi a produção americana que estagnou. Em seguida, a crise alcançou a Europa, terminando por envolver todas as áreas periféricas, suas dependentes.
Durante os anos vinte, a produtividade do operariado americano havia aumentado em torno de 43%, mas os salários e preços mantinham-se estáveis. Com a baixa dos custos industriais e a constância dos preços, as conseqüências foram a alta dos lucros. Uma enorme poupança concentrou-se nas mãos dos grandes grupos industriais que, canalizada para o setor financeiro, terminou por gerar um clima favorável à especulação. Em pouco tempo, tornou-se mais lucrativo comprar ações e especular com elas, do que fazer novos investimentos. Os bancos, seriamente envolvidos em negociatas, atuavam às claras. Os atrasos nos pagamentos do crédito agrícola eram compensados com os exorbitantes lucros auferidos pela generosa bolsa de valores.
Os preços do cobre, ferro fundido e do aço, entraram em baixa (era um prenúncio do recesso na demanda de bens duráveis). Os lucros das indústrias automobilísticas, em queda desde o segundo trimestre de 1929, desceram consideravelmente no curso do terceiro. Com a queda nas vendas, ocorreu a recessão dos estoques. O mercado interno americano denunciava nitidamente seu esgotamento e a má distribuição da renda acentuou o problema (apenas 5% da população detinha uma renda pessoal equivalente a um terço da global). O mercado americano era visivelmente menor que sua produção. Poderia haver esperanças numa intensificação das exportações, mas o Presidente, influenciado pela grande indústria, havia-se incompatibilizado de maneira irremediável com o mercado externo.Os europeus, durante muito tempo, haviam saldado suas dívidas em ouro (em 1928 encontravam-se, nos cofres americanos, 4 bilhões e meio de dólares em ouro - equivalentes à metade do que se encontrava em circulação no mundo inteiro) mas, doravante, parcialmente recuperados dos desastres da guerra, desejavam ressarci-las com produtos industriais. A resposta republicana foi a tarifa Hawley-Smoot, cujo cunho protecionista praticamente vetou a entrada no mercado americano de bens duráveis europeus. Em conseqüência aqueles partiram para a retaliação. Em represália, uma enorme "muralha protecionista" ergueu-se nas costas da Europa fechando-as aos produtos norte-americanos.
Com o esgotamento de seu mercado interno e sem perspectiva para a colocação de seus produtos no exterior, a debilitada economia americana colocou seu pescoço no cepo, à espera da inevitável guilhotina.
Os dias 28 e 29 de outubro de 1929 (uma quinta e urna sexta-feira), ficaram na história dos Estados Unidos como dias amaldiçoados. Numa sucessão incrível, milhões de títulos foram postos à venda por corretores em completo pânico sem que ninguém mostrasse ânimo em adquiri-los. Na quinta-feira atingiram eles eram 13 milhões, no dia seguinte chegaram ao total de 16 milhões. Os índices das ações industriais desceram de 469 para 220 (três anos depois, limitaram-se a 58 pontos). O sonho da prosperidade crescente, definitivamente, acabara.
Numa histórica foto, tirada no interior da bolsa de Nova York, vemos dois serventes varrendo calmamente aquele mar de papéis ali deixados. Um pouco tempo antes valiam milhões de dólares mas naquele momento nada mais eram senão que papel velho e amarrotado.
O fim do capitalismo "laissez- faire" e o "New Deal"
A total incapacitação da administração republicana em evitar ou atenuar a crise não pode ser atribuída à incompetência de seus principais dirigentes. A dramática figura de Hoover, pronunciando discursos otimistas em meio ao descalabro econômico, tornou-se patética.
O presidente, não se dando por vencido, acreditava que a "prosperidade estava ali na esquina", não podia admitir que justamente sobre ele desabassem as ruínas do capitalismo laissez-faire que até então tanta prosperidade trouxera à América. Os economistas clássicos, de Adam Smith a J. 5. Mill, acreditavam que a livre empresa, afastada das intromissões estatais, por si só traria o progresso e a abundância à civilização como um todo.
Tinha-se, pois, como dogma a crença de que todo aquele que procurasse seu bem-estar ( atrás de lucros ou de melhores salários) estava - por uma reação em cadeia - auxiliando o desenvolvimento geral da coletividade. Para eles qualquer intervenção vinda de fora das leis do mercado representava um retrocesso, admitindo unicamente que as funções do Estado se concentrassem na proteção e na garantia do usufruto da propriedade - isto é, limitado à função de "vigilante noturno", na feliz expressão do socialista Ferdinand Lassalle.
Esta exacerbação do individualismo, desejoso em livrar-se do poder regulador do estado monárquico, vista na ótica do século XVIII, foi verdadeiramente revolucionária, pois então o capitalismo industrial dava seus primeiros passos. Um estado possessivo como era o caso do absolutismo, dominado por uma aristocracia fossilizada e por uma burocracia retrógrada, terminaria sufocava as iniciativas e inibia os empreendimentos. Porém, os tempos eram outros, e muitas transformações e revoluções haviam ocorrido desde a época em que Adam Smith escrevera a "Riqueza das nações", em 1776.
Os governos do "Big Old Party", como era denominado o Partido Republicano, durante seus doze anos de poder (1920-1932), apoiavam-se ideologicamente numa filosofia política que possuía o aval dos principais economistas clássicos. Harding, Coolidge ou Hoover, todos eles eram ortodoxos na questão da não-intervenção estatal nos assuntos econômicos. O Estado, para eles, além das naturais funções de protetor da propriedade, era um gerador de facilidades.
Auxiliando o fluxo do grande capital esperavam melhorar a vida da massa assalariada, aplicando, inconscientemente, a máxima de Malthus que "os pobres vivem do esbanjamento dos ricos". É compreensível pois, que fossem acometidos de uma paralisia quando a crise ocorreu. Estavam ideológica e psicologicamente desarmados para enfrentá-la. Pelo menos na dimensão com que ela assumiu.
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