Educação História por Voltaire Schilling Século XX
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História - Século XX
SÉCULO XX

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É neste contexto que se insere não só a "Lei Seca", 18ª emenda aprovada em 1919, que proibiu a produção e consumo de bebidas alcoólicas, como a emergência do movimento cristão fundamentalista, liderado por William Jennings Bryan (1860-1925), cuja preocupação era extirpar o demônio - sinônimo de idéias modernas - da sociedade americana.
O acelerado crescimento industrial que se verificou no pós-guerra, terminou por absorver ilimitadas quantidades de mão-de-obra composta agora pelos veteranos desmobilizados que, depois de usufruírem das delicias da vida urbana, não desejavam retornar aos rincões nativos. Durante todo o decênio republicano, a América viveu numa contradição latente, que somente seria superada pela crise de 1929. Se por um lado seus cidadãos eram possuidores da mais inventiva tecnologia do momento, por outro, no plano das idéias eram provincianos, egoisticamente individualistas, antiintelectualistas, racistas e, conseqüentemente, intolerantes.

Símbolo deste comportamento contraditório era o magnata Henry Ford (1863-1947), um ex-engenheiro da empresa de Thomas Edison, que ao mesmo tempo em que liderava uma revolução na produção em massa de automóveis ( com a abertura da sua grande fábrica de Highland Park, Michigan, em 1910, ele mudou a paisagem social do pais), mandou construir numa das suas propriedades uma cidadezinha dos tempos coloniais na qual os seus convidados deviam comparecer sempre com roupas antigas.

O governo de Harding, em termos de respeitabilidade, foi catastrófico. Mesmo não se envolvendo diretamente em nenhum caso de corrupção, seus auxiliares - batizados pela imprensa de "a quadrilha de Ohio" - não deixaram por menos. Escândalos espoucaram numa intensidade que só encontrou paralelo na administração de Ulisses Grandt (1869-1877), coincidentemente natural do mesmo Estado.

Os casos de corrupção giraram em torno do petróleo, da venda de terras governamentais e das propriedades de estrangeiros confiscadas durante a guerra. O presidente, pessoalmente honesto, sucumbiu um ano antes de cumprir seu mandato, sendo acompanhado à tumba por um rumoroso caso de adultério.

O seu substituto, o vice-presidente Calvin Coolidge terminou, nas eleições de 1924, por obter significativa maioria sobre seus dois concorrentes: o democrata-conservador John W. Davis e o progressista La Follette. Votando no situacionismo, o povo americano dava sua preferência pela bonomia republicana, baseado no principio de que pelos menos os conservadores não atrapalhavam a prosperidade do país.

A política deles, como a de qualquer dirigente republicano, favorecia o processo de concentração de renda, pois era um dogma do partido a não-intervenção estatal. O grande capital, livre de qualquer interferência, não se fez de rogado naqueles anos de progresso e alto consumo, agindo sob as vistas complacentes e mesmo incentivadoras de um Poder Legislativo conservador e duma presidência omissa. (*)

(*) Os dados da concentração são indicativos disso: de 1918 a 1926, 3.744 companhias de serviços públicos desapareceram atrás de fusões. Uma grande corporação dominava os telefones, outra o sistema telegráfico. Em quinze anos, o número de bancos diminuiu pela metade. Das trezentas e noventa mil empresas existentes no país, apenas quinhentas e noventa e quatro detinham cinqüenta e três por cento de toda riqueza nacional, exercendo um controle quase que total sobre seus recursos naturais.

A geração perdida

No comportamento da intelectualidade, todos os paradoxos da sociedade americana acham-se presentes. Num evidente desprezo à materialidade e concupiscência em que viviam seus concidadãos, muitos mudaram-se para Paris. Cidade que se tornou a capital da "geração perdida" americana. T. 5. Eliot, em seu poema "The Wast Land"(A Terra Devastada, de 1922) definiu-os como "Estrutura sem forma, espaço sem cor/Força paralisada, gesto sem movimento".

Eles haviam se escandalizado com o Caso Scopes (1925), processo movido por um professor que, em pleno século XX, teimava em ensinar aos alunos a teoria da evolução de Darwin, contrariando a lei educacional do Tennessee, o Butler Act, imposta pelos criacionistas, que somente admitia a versão bíblica. No tribunal, naquela ocasião, se enfrentaram o famoso casuístico Clarence Darow, representando os valores modernos e urbanos e o porta-voz do fundamentalismo rural, o congressista e advogado William Jennings Bryan.

As causas gerais do " big Crash"

Herbert Hoover, presidente durante o Crash
Coube ao infeliz Herbert Hoover, eleito presidente dos Estados Unidos em 1928, conviver com a danação provocada pela crise de 1929. Sucedendo a Calvin Coolidge - o Honesto - ele derrotou facilmente o seu concorrente, Al Smith (um democrata-liberal de Nova York), por uma larga diferença de votos. Sob o ponto de vista estritamente técnico, ele foi o mais capacitado e qualificado candidato republicano a assumir a chefia do executivo na moderna história americana: a primeira cabeça eminentemente técnica a assumir o executivo nacional. Sua folha de serviços era invejável. Dotado de fortuna pessoal, era urna autoridade internacionalmente reconhecida em sua profissão (engenheiro de minas). Desempenhando com brilho as funções de Secretário do Comércio nas duas administrações anteriores (1920-1928), sua candidatura à presidência fora seqüência natural.

Com todas essas virtudes, ele foi, no entanto, um dos mais inoperantes presidentes americanos. A força dos acontecimentos, engendrada pela violência da crise econômica, desatada a partir de outubro de 1929, nos primeiros meses do seu mandato, envolveu-o e o imobilizou de tal forma que a simples lembrança de seu nome liga-se quase que imediatamente ao da Grande Depressão.

Ainda por ocasião do seu Inaugural Adress, o discurso de posse, proferido em 4 de março de 1929, Herbert C. Hoover, eleito esmagadoramente por mais de 21 milhões de votos populares e 444 votos eleitorais, prometia expurgar a pobreza do solo americano em termos definitivos. A nação mais rica e poderosa do globo, acentuou ele, não podia permitir que milhares de seus filhos vivessem à margem da estimulante sociedade de consumo cuja expansão e o bem-estar geral pareciam não ter fim. Concluindo, disse " em nenhum nação as instituições do progresso estão mais avançadas. Em nenhuma outra nação os frutos da realização estão mais seguros. Em nenhuma outra nação o governo é mais digno e respeitado. E nenhuma nação é mais amada pelo seu povo. Eu tenho uma fé inabalável na sua capacidade, integridade e elevação de propósitos. Eu não tenho nenhum medo sobre o futuro do nosso país. Ele brilha com esperança."

Quatro anos depois, no final do mandato dele, tais palavras soavam como uma amarga ironia, parecendo que a Providência, através de seus insondáveis caminhos, houvesse pregado uma peça, cujo alfa e ômega materializou-se na pessoa do Presidente.

A crise agrária

Os sinais da crise já se revelavam desde 1926, quando a média de falências bancárias atingia dois estabelecimentos por dia. A situação agrária era ainda mais grave e pode-se toma-la como o ponto de partida para a Grande Depressão. Os produtores rurais, desde o fim da Primeira Guerra Mundial, sentiam os efeitos da baixa geral dos preços agricolãs: o algodão baixara de U$ 0,35 a libra para 0,52; o milho reduziu seu preço de U$ 1,50 para 0,52; a lã, de U$ o,60 a libra para 0,20.

Com a convocação militar, provocada pela participação dos Estados Unidos no conflito mundial (a partir de novembro de 1917), a mão-de-obra tornou-se escassa, obrigando os produtores a acelerar o processo de mecanização das lavouras, dinamizando os setores industriais responsáveis por sua produção. A intensa demanda por produtos agrícolas, que toda guerra provoca, levou os farmers a expandirem sua produção por meio de compra de novas terras e de outros endividamentos, visando a atender ao faminto mercado europeu.

Na aquisição das novas propriedades, assumiram vultosas dividas bancárias, dando seus bens em hipoteca na expectativa de que os preços agrícolas continuassem ascendendo.

Ross Robertson, historiador econômico, atribui ao endividamento, mais do que à queda de preços, a origem da tragédia que se abateu sobre o campo americano. De fato, a dívida agrária era assustadora, atingiu o montante de 16 bilhões e meio de dólares, em 1926(*).

(*) Para ter-se uma idéia do volume e das dificuldades em saldá-la, basta indicar que, se as rendas da lavoura em 1920 eram de 15 bilhões e meio, elas haviam se reduzido para 5 bilhões e meio de dólares doze anos depois.

Com a paulatina redução dos lucros, causada indiretamente pela recuperação das economias e pela reativação da produção rural européia com a volta à normalidade dos tempos de paz, os fazendeiros deixaram de quitar seus compromissos. Nos primeiros anos da década de 1920, eles estavam afogados pelos seus excedentes e pelas dívidas, fazendo com que os bancos começassem a executar as hipotecas (num estado do Meio-Oeste um só banco apropriou-se de 115 mil propriedades).

Os efeitos sociais disso logo foram evidentes. Aos bancos coube uma vitória de Pirro, pois para executarem as hipotecas era necessário desalojar os proprietários e, conseqüentemente, a força de trabalho responsável pela produção das carnes e dos grãos. Um constrangedor silêncio então se fez sobre os outrora ativos campos americanos.

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