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A Grande Depressão de 1929 (Parte II)
A troca da guarda Na cerimônia de transmissão da presidência da República, realizada em março de 1920, houve mais do que uma simples troca de chefes de Estado. Deu-se sim a mudança de toda uma mentalidade. Woodrow Wilson, o presidente que deixava a Casa Branca era um democrata-liberal, com dotes intelectuais, alguém que fora reitor da Universidade de Princeton, cuja visão internacionalista e cosmopolita manifestara-se nos "14 pontos" que prepara para por fim a guerra e no projeto da formação da Liga das Nações, para garantir a paz no mundo. O seu sucessor, Warren G. Harding, um antigo senador republicano, ao contrário, era proprietário e redator de um jornal provinciano de Ohio. Intelectualmente medíocre, politicamente conservador e ferrenho isolacionista, elegera-se com maioria de seis milhões de votos. Poucas vezes na história americana personalidades e visões políticas tão díspares se alternavam na Casa Branca.
Os anos loucos da Era do Jazz
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O novelista S.Fitzgerald e sua mulher Zelda
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Com Woodrow Wilson encerrava-se o período que os historiadores denominaram como "a Era Progressista". Com Harding, iniciavam-se "os anos loucos da era do jazz", onde as contradições da vida americana apareceram de forma mais aguda, caracterizados pela procura desenfreada de divertimentos e por uma irresponsabilidade crescente no que tocava à especulação financeira. Em parte, eles se encontravam dominados pelo novo deus da sociedade de consumo: o automóvel.
Se no começo do século, em 1900, circulavam apenas 400 veículos a motor, todos eles propriedade de ricaços, em 1929 havia 26 milhões de automóveis dirigidos por cidadãos comuns (a Fábrica Ford a cada dez segundos produzia um Modelo-T).
A origem daquela prosperidade estava na participação americana na Primeira Guerra (1914-18). Se em 1914 os Estados Unidos eram devedores de U$ 4 bilhões de dólares para a Europa, quatro anos depois a situação se invertera. Desta feita, era o Velho Mundo, destruído e faminto, quem devia em torno de U$ 12 a 14 bilhões de dólares aos norte-americanos.
A trepidante juventude ianque, por sua vez, despreocupada da vida, entregava-se à dança do charleston e ao arrebatamento das bandas de jazz compostas por músicos negros vindos do Sul. Euforia fartamente narrada pelo mais brilhante novelista daqueles anos: Scott Fitzgerald ('Este lado do Paraíso', 'Contos da Era do Jazz', ' o Grande Gatsby', etc,). Ele e sua mulher Zelda, com seus divertimentos desatinados, foram o mais autênticos paradigma da geração de 1920.
O renascimento da Ku Klux Klan
Se por um lado o povo era carregado na crista da onda da prosperidade e na euforia pelo enriquecimento fácil, por outro, numa rara atitude chauvinista, manifestava severa desconfiança para tudo aquilo que não fosse "genuinamente americano", ou seja, o que não se identificasse com o protestantismo, com a raça branca e com a origem anglo-saxã.
Os católicos, os judeus, os negros, os imigrantes contestadores em geral, foram sistematicamente marginalizados ou perseguidos como poucas vezes ocorrera no passado. Exemplo disto foi a expansão da organização racista Ku Klux Klan que, refundada na Geórgia em 1915, chegou a ter 5 milhões de militantes. Alastrando-se para outros estados, de Indiana ao Oregon, surgiu como expressão máxima dos sentimentos nativistas, hostis a maré montante da imigração européia (italianos, gregos, poloneses, eslovacos,húngaros, judeus) do após Primeira Guerra Mundial. Em 1930, 10% da população americana, que era de 123 milhões de pessoas, havia nascido no exterior. A tal ponto foi a pressão que a Klan exerceu sobre o Congresso que, em 1924, os legisladores tiveram que por um fim na vinda de estrangeiros ao país, mandando fechar a Ilha Elis, portal de entrada dos imigrante em Nova York.
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Gary Cooper no papel do caipira-herói ( filme de 1941)
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O Presidente Woodrow Wilson inaugurou no século XX o costume de ser um democrata quem leva seu país às grandes guerras. Apesar do sentimento isolacionista predominante na população em geral, ele compreendia que não poderia deixar os Estados Unidos fora do conflito, e, conseqüentemente, ausente dos negócios mundiais. Já nesta época a nação americana era a maior potência econômica do globo e a sua ausência na Guerra Mundial parecia uma contradição intolerável.
Em grande parte foi a participação na guerra que gerou comportamentos açodados da parte dos americanos nos anos vinte parte. Ela sempre faz brotar um patrioteirismo irracional que facilmente se transforma em truculência política, em arma da reação e da intolerância. A tomada do poder pelos bolcheviques na Rússia em 1917, igualmente teve seus reflexos negativos nas atitudes assustadiças da classe média americana. Localizando-se aí a concordância passiva dela às desumanas razias lideradas pelo procurador-geral, M. Palmer, que em 1920 devastou os bairros de imigrantes da Costa Leste, prendendo gente inocente a rodo. Assim como a condenação de dois anarquistas italianos - Sacco e Vanzetti - e sua execução na forca, apesar do clamor mundial, em 1927.
Foi pois na guerra e na ameaça de uma possível convulsão social, que era mais aparente do que real, é que se encontra a gênese da intolerância daqueles anos. Mas quais os estratos sociais que impuseram seus valores sobre esta sociedade? Como os progressistas valores do cosmopolitismo urbano foram sufocados pela avalanche do fundamentalismo rural? A provável explicação talvez se encontre na militarização da sociedade provocada pela entrada na guerra.
Milhões de interioranos, saindo pela primeira vez de seus condados, foram convocados a prestar serviço militar e despachados para o fronte na Europa. Deles, milhares conheceram Nova York (local de embarque das tropas que iam combater no além-mar). Outros tantos, ao término do conflito, encontravam-se em Paris.
O choque cultural, bem se pode imaginar, foi violento. Eram pobres pastores, ingênuos e puros, perdidos em Sodoma ou Sibaris. Uma música "country", surgida pós-Primeira Guerra, refletia justamente tal situação. O titulo dela era: "Como vamos manter nossos rapazes em casa quando eles conheceram Paris?". Os matutos, enfim ( dos quais a figura do inesquecível "Sargento York", personagem de um filme interpretado por Gary Cooper, em 1941), ao término do conflito chegavam às mais cosmopolitas cidades americanas.
Compreende-se, pois, que se no esforço para vencer a guerra haviam recorrido a eles, após a vitória eles formariam uma " massa crítica" para impor os seus valores e padrões morais à massa da população urbana (é necessário observar que a diferença populacional entre a área urbana e a área rural naquela época era insignificante (em 1920 os moradores urbanos chegavam a 54.157.973 enquanto a gente do campo somava 51.552.647).
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