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Bolívia, a utopia arcaica
Nos países sul-americanos marcadamente indígenas, com larga presença de antigas nações de descendência inca, trava-se uma luta que atravessa os séculos desde a época da Conquista. O desejo das lideranças nativas, manifestado em diversas rebeliões, é retornar à época dos antigos incas quando predominava o coletivismo tribal, enquanto que os descendentes dos conquistadores, os criollos, procuram articular-se com o mundo moderno, capitalista e liberal.
O surgimento da questão indígena
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O Inca e seu séqüito
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A reaparição dos indígenas com reivindicações próprias no cenário político latino-americano do século XX deu-se com a Revolução mexicana de 1910. Espoliados e desprezados por séculos, num repente vieram à tona atrás da bandeira de Emiliano Zapata, um nativo do estado de Morelos. Queriam os ejidos, as terras comunais de volta. Que os chapettones, os grandes fazendeiros de descendência espanhola, fossem desapropriados, e tudo voltasse aos tempos de antes da Conquista Ibérica.
Centro e trinta anos antes, o mesmo ocorrera nos Andes durante a revolta de Tupac Amaru II, o cacique que pôs a região em pé de guerra contra o Vice-Reino do Peru e que morreu esquartejado em Cuzco, em 1781. Autoproclamado José I, Tupac queria restabelecer o Tahuantinsuyo, o Reino Inca das Quatro Partes, de quem se considerava sucessor.
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Evo Morales e Hugo Chaves
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“Eu não sou comunista. E jamais o serei. Escuto somente a tradição. O valor de um homem se faz pela memória que ele tem dos seus ancestrais e não pelos mecanismos modernos”
J.M. Argüedas - Los Zorros de Arriba y Los Zorros de Abajo.” (1971)
A questão indigenista, desde os anos de 1920, tornou-se então o grande desafio dos intelectuais latino-americanos, particularmente de peruanos e bolivianos. Durante um certo tempo, os de filiação comunista fixaram-se no dogma da revolução proletária, tendo em mente apenas a insurgência dos mineiros e dos trabalhadores urbanos das grandes cidades de Lima, Piura, La Paz ou Potosi, majoritariamente mestiços. O ser indígena, o puro, era-lhes indecifrável.
Os quíchuas e os aimarás, caras de pedra antiga e cor de bronze, permaneciam os grandes silenciosos. Não se embalavam pelo discurso da modernidade, mas sim pela volta ao ayllu,a antiga comunidade clânica e pela restauração do Tahuantinsuyo. A dita República dos Runas, formada por eles, era uma esfinge, muda frente às indagações do liberalismo, do positivismo, do marxismo, ou de qualquer outra corrente sociológica ou doutrinária. Exasperado com a impassibilidade dos indígenas, Alcides Arguedas chamou-os de Pueblo Enfermo (Povo Doente, 1909).
José Carlos Mariátegui, o marxista peruano, esforçou-se num dos capítulos dos Siete Ensayos de Interpretación de la Realidad Peruana (Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana, de 1928), por colocá-los no centro das preocupações nacionais, acreditando que a redenção daquela raça vencida somente se faria pelo socialismo (mais tarde, numa outra ocasião, Mário Vargas Llosa denominou o projeto de um socialismo indígena como “a utopia arcaica”). O liberalismo moderno, com seu individualismo e seus cuidados com a propriedade privada nada dizia aqueles tibetanos da América Latina. (*)
(*) Para Mariátegui, a literatura indigenista não pode nos dar uma versão rigorosamente verdadeira do índio. Tem que idealizá-lo e estilizá-lo. Tampouco pode nos dar sua própria alma. É, todavia, uma literatura de mestiços. Por isso se chama indigenista e não indígena. Esta vir, virá com o tempo. Quando os próprios índios estarão aptos a produzi-la” ( “Siete ensayos, 1958, p.252)
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Mapa do Império Inca
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Além disso, quase todos os paises andinos estão geográfica e culturalmente fraturados. As "raposas de baixo", como o novelista José Maria Argüedas denominou as populações costeiras ou das planícies, filhas dos colonizadores ligam-se ao mundo. Assimilaram o ideário do progresso e da ascensão pessoal. Entre as "raposas de cima", os andinos herdeiros de Mama-Allpa, a matriz cósmica, em permanente penúria, perdura uma tradição presa a remotíssimos mitos. Fechada em si mesmo, vive isolada nas alturas, numa solidão sem nenhuma poesia. É coletivista e hostil ou indiferente à tecnologia moderna.
Estes dois mundos, tão distantes e diferentes entre si como a Terra de Marte, convivem no mesmo estado-nacional em atrito perpétuo, quando não em guerra aberta, como agora se encontra a Meia-Lua boliviana (o colar de departamentos que, partindo de Tarija, passando por Santa Cruz de la Sierra, alcança até Pando), capitalista e liberal, satelitizada pelo Brasil próspero, rebelada contra a restauração do Reino de Túpac Katari (o inca aliado de Túpac Amaru II) promovida pelo aimará Evo Morales. Bibliografia
- Abramson, Pierre-Luc - Las utopias sociales em América Latina em el sigo XIX. México: Fondo de Cultura Econômica, 1999.
- Arguedas, Alcides - Pueblo enfermo. La Paz: Gisbert, 1979.
- Arguedas, Alcides - Raza de bronce. Unesco: Colección Archivos, 1988.
- Arguedas, José Maria - El Zorro de Arriba y el Zorro de Abajo . Colecion Archivos. - Arguedas, José Maria - Los rios profundos. Buenos Aires, Losada, 2008. - Cornejo Polar, Antonio. Literatura y sociedad en el Perú: la novela indigenista. Lima: Lasontay, 1980.
- Chonchol, Jacques - Sistemas agrários em América Latina. Santiago de Chile; Fondo de Cultura Económica, 1994.
- Finot, Enrique - Nueva Historia de Bolívia: de Tiwanaku al Siglo XX. La Paz, Gilbert & Cia Libreros Editores, 1980
- Llosa Mario Vargas -La utopía arcaica. José María Arguedas y las ficciones del indigenismo México, Fondo de Cultura Económica, 1996.
- Mariátegui, José Carlos - Siete ensayos sobre la realidad peruana. Montevideo, Ediciones Marcha, 1966.
- Mariátegui, José Carlos - Por um socialismo indo-americano. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2005.
- Miles, Fernando - La rebelión permanente. Las revoluciones sociales en América Latina. México: Siglo XXXI editores, 1988.
- Vega, Inca Gracilaso de la - Comentarios Reales de los Incas. México. Fondo de Cultura Económica, 1995.
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