Educação História por Voltaire Schilling Século XX
Boletim
Receba as novidades no seu e-mail!
Fale conosco
. Envie releases
. Mande críticas, dúvidas e sugestões
EducaRede
Entre no portal da escola pública
História - Século XX
SÉCULO XX

Operários e Camponeses na era da alta tecnologia

Leia mais
 
As mais radicais revoluções políticas do século XX, a russa de 1917 e a chinesa de 1949, foram feitas em nome do operariado industrial e dos camponeses. Todavia, nos países ocidentais capitalistas, estas duas classes identificadas como o setor mais oprimido da sociedade tiveram um destino diferente. Viram-se derrotadas pelo avanço da tecnologia e pelo predomínio das classes médias.

Efeitos da diminuição dos camponeses

Solidariedade de classes (poster soviético de B. Soloviev, 1962)
"Vivemos uma mutação fundamental e irreversível que invalida os paradigmas da teoria econômica dominante..."

André Gorz, Le Monde, 6/01/1997


Arthur Imhof, um dedicado historiador da demografia européia, observou que a população camponesa, cuja evolução da natalidade ele acompanhou desde os registros de 1719, começou proporcionalmente a diminuir no Ocidente conforme progredia a Revolução Industrial.

Concentrando-se na aldeia alemã de Höringhause, nas proximidades de uma cidade que crescia aceleradamente depois da unificação de 1871, verificou que as mulheres dos pequenos proprietários rurais tiveram que fazer uma séria opção: ou tinham muitos filhos ou dedicavam-se a aumentar a renda da família trabalhando na horta para abastecer o mercado.

Em quase todos os casos, verificados por ele, constatou que elas motivaram-se a adotar meios contraceptivos visto que não podiam manter a numerosa prole e, simultaneamente, atender a pressão da demanda.

O gradativo encolhimento da população camponesa e o constante crescimento da população urbana, fizeram com que todo um mundo alterasse a sua face. A própria avalanche de idéias e teorias agnósticas e anti-religiosas, que fascinaram as gentes cultas das cidades, resultou da acelerada urbanização.

A vitória dos "ismos"

A industria moderna ( mural de Diego Rivera, 1933)
O sucesso do spencerismo, do positivismo, do darwinismo, do marxismo, do freudismo, e os demais "ismos" do século 19, mostraram o quanto a metrópole moderna dava a seus habitantes uma sensação de segurança, de superioridade, de onipotência, dando condições ao citadino de sentir-se independente do campo, entregue à ignorância e à crendice dos lavradores e dos pobres rurais de uma maneira geral.

O ridículo a que os homens de letras do iluminismo no século 18 submeteram os milagres e as aparições não foi senão a trombeteira celebração da emancipação do homem urbano, cosmopolita, racionalista e esclarecido, frente à "idiotia rural", expressão criada por Marx para definir o dia-a-dia rotineiro e sem sabor que cercava o camponês.

A era moderna não só consagrou a proeminência da cidade sobre o campo como também representou um triunfo existencial-metafísico: a afirmação do ceticismo sobre a crendice, do cientista sobre o sacerdote, do arranha-céu sobre a igrejinha interiorana.



No início do século XIX e nos começos do século XX, 80% da população ainda vivia nas áreas rurais. Na segunda metade do século XX a proporção se inverteu. O trator e a colheitadeira produzidos em série e em quantidades espantosas fizeram da foice e da enxada ferramentas superadas, liberando a mão de obra rural rumo às cidades. Todavia, não foi somente a classe camponesa quem se viu social e numericamente esvaziada.

Resulta que a revolução tecnológica também atingiu a sua própria base de atuação do proletariado industrial: as fábricas. Se, como observou o professor Imhof, a redução do até então elevado número de filhos entre as famílias camponesas (de 6 ou 7 nascidos, para 2 ou 3) foi um dos sinais premonitores da desimportância do próprio campesinato como uma classe de peso na sociedade contemporânea. A atual e acelerada supressão dos pontos de empregos fabris indica o mesmo destino para a classe operária.

E, com ele, com o encolhimento proporcional do número dos trabalhadores fabris, também recuam as instituições e as ideologias que, até bem pouco, previam o ser o proletariado "o redentor da humanidade inteira", como pregavam os socialistas.

Classes na defensiva

IMPROMPTUS IN ETERNALS , um “pegador de vento” (obra de Meryl Tatadash, escultor;Joe Welch, engenheiro ambiental ; e Wayne LaPierre, fabricante)
Os sindicatos e os programas partidários socialistas travam há tempos batalhas defensivas, obrigados a refazerem ou a moderarem suas reivindicações mais contundentes e radicais, bem como fazer calar os seus militantes mais extremados, expulsando-os de suas organizações. Já em 1980, um livro do socialista francês André Gorz, intitulado de Adieux au Prolétariat ("Adeus ao Proletariado"), prenunciava tal tendência como algo universal. A situação pós-fordista tornou o operário fabril imensamente mais produtivo ao tempo em que reduziu seu número dentro das fábricas.

O súbito esfumar do marxismo - que durante mais de século e meio embalou as lideranças mais preparadas dos partidos operários no ocidente - , é de certo modo demonstrativo disto. Marx tinha certeza que a tecnologia era um novo Prometeu, o titã ressurgido na forma da máquina a vapor, trazendo aos homens a possibilidade deles se livrarem do rameirão do trabalho braçal e da medíocre produção.

Certamente que não supôs que a robotização, aliada à revolução microeletrônica, impulsionada pelo capitalismo industrial, iria não só desempregar continuamente os trabalhadores mas fazê-los desaparecer ou pelo menos diminuir proporcionalmente em importância em relação ao total da sociedade. Operários e camponeses, universalmente superados pela robotização e pelo agronegócio, irmanizam-se assim como classes historicamente declinantes, condenadas que estão a serem ofuscadas ou pelo gigantismo das super-cidades ou pelo vigor sem-fim da tecnologia.



Bibliografia



Gorz, André - Crítica da divisão do trabalho. São Paulo: Martins Fontes, 2001.



Gorz, André - Adeus ao Proletariado. Lisboa:Forense Universitária, 1987.





Imhof, Arthur E. - Historical Demography as Social History: Possibilities in Germany. Journal of Family History, Vol. 2, No. 4, 305-332 (1977). DOI: 10.1177/036319907700200403. © 1977 SAGE Publications.

    
Veja todos os artigos | Voltar
 
 » Conheça o Terra em outros países Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2007,Terra Networks, S.A Proibida sua reprodução total ou parcial
  Anuncie  | Assine | Central do Assinante | Clube Terra | Fale com o Terra | Aviso Legal | Política de Privacidade