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História - Século XX
Século XX

A morte de Che Guevara

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» Che: sua vida e sua morte
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Morto a tiros nos fundões da Bolívia no dia 9 de outubro de 1967, o argentino Ernesto "Che" Guevara tombou como um mártir da causa da revolução latino-americana.

O seu nome, que atingiu proporções mitológicas universais, está intimamente ligado aos levantes anticolonialistas das décadas de cinqüenta e sessenta do século XX que se espalharam pela África, Ásia e América Latina.

Herança infeliz

Che durante seu momento mais glorioso
O resultado dessa luta, entretanto, foi trágico, visto que, os que, na América Latina, escolheram o caminho da transformação pela luta guerrilheira amargaram um triste final, pois os novos regimes implantados, no caso de Cuba e da Nicarágua, não conseguiram superar a pobreza e as dificuldades materiais que os seus países herdaram de tempos remotos.

Esse fracasso, todavia, não ensombrou a imagem de Che Guevara que, para todos os efeitos, restou intacta, sendo reproduzida em pôsteres, camisas, boinas, bottoms e até como marca de cerveja. Virou grife da sociedade de consumo contra quem ele também moveu guerra.

A morte de Guevara

"Para os revolucionários não há descanso no túmulo"
Saint-Just, 1793

Num antigo poema grego Aquiles, o herói da Guerra de Tróia, considerava que, de certo modo, fora bom ele ter morrido ainda guapo, em pleno ardor da batalha, porque o valente não se imaginava alcançando a velhice, enrugado e cercado de netos, andando meio tonto pela casa como se fora um traste que ninguém sabe onde colocar.

Ernesto Guevara, o "Che", talvez tenha também pensado assim nos segundos que antecederam sua execução por ordem do governo boliviano no dia 9 de outubro de 1967, em La Higuera, um remoto fundão boliviano onde ele havia sido capturado ferido.

Da mesma forma que todo o jovem grego idealizou Aquiles, nele se inspirando, milhares de rapazes latino-americanos idolatravam Guevara, cuja imagem em pôster – lembrando um Cristo rebelde – fazia parte da decoração de quarto de estudante naqueles anos que chumbo e sangue.

E, até nos dias de hoje, nos lugares mais diversos, especialmente nos ambientes universitários, vê-se ainda jovens com a imagem de Che estampada nas camisetas ou fixada nas paredes dos corredores.

Guevara era um tipo estranho, um aventureiro que entrou na revolução cubana assim que como por acaso. Verdade que desde os tempos de jovem acadêmico ele viajava pela América Latina e, crescentemente, se indignava com a miséria, a injustiça e a brutalidade que via instalada por toda a parte.

Aventurando-se pela América Latina

O corpo de Che Guevara na Bolívia
Formado em medicina chegou a ter a idéia, quando estava de passagem pelo Peru, de ir tratar os hanseáticos confinados na ilha da Páscoa.

Revelava um sentimento de afeto pelos seus vizinhos latino-americanos rara num argentino, povo que, em sua maioria, acreditam viverem num recanto europeu à beira do Rio da Prata, um exclusivo nicho civilizado encravado num continente cercado por bugres e bárbaros.

Quando Fidel Castro, exilado no México em 1956, organizava sua expedição de revolucionários para retornar a Cuba, para dar início a uma guerra contra a ditadura de Fulgêncio Batista, alguém lhe sugeriu o nome do Doutor Guevara.

Os cubanos precisavam de um médico e o "Che" concordou em participar da aventura. A sua última ocupação na capital mexicana era no mínimo prosaica: vendia coleções de livros - viam-no sentado nos bancos das praças lendo-os ao invés de negociá-los. Era um excêntrico!



Na Sierra Maestra

Partido do México, feita a travessia a bordo do superlotado iate "Granma", os revolucionários quase foram dizimados nos dias seguintes ao desembarque no oriente da ilha, ocorrido em 2 de dezembro de 1956. Na verdade o barco não ancorou na praia, ele simplesmente afundou. De uma partida inicial de 82 rebeldes, emboscados pelos soldados do ditador Batista, eles viram-se reduzidos a apenas 18 sobreviventes armados no alto da Sierra Maestra.

O doutor, premido pelo tiroteio, entre seus apetrechos de socorro e uma arma, teve que deixar de lado as ataduras e pegar num rifle. Eis que em pouco tempo revelou-se mais destro com ele do que com o bisturi. Trata-se de um fenômeno psicológico intrigante explicar como um ser educado como Ernesto Guevara (formado numa faculdade de medicina portenha e pertencente a uma família tradicional) transformou-se num astuto e incansável líder de guerrilhas.

Apesar de ser estrangeiro, um argentino, em pouco tempo conseguiu a admiração dos seus companheiros cubanos. A tal ponto chegou o seu prestígio junto ao grupo que Fidel Castro entregou-lhe, na etapa derradeira, o comando de uma coluna revolucionária, a que tomou Santa Clara de assalto. Episódio que pôs a correr do palácio o ditador Fulgêncio Batista.

Quando por fim os guerrilheiros chegaram ao poder no Ano Novo de 1959, nomearam-no ministro da revolução. Che assumiu a presidência do Banco Nacional, chegando a imprimir um peso com sua assinatura. Mas aí já era tarde. Guevara não se adaptou mais ao trabalho em tempo de paz. Viver do cheiro da pólvora já fazia parte do seu sangue.


Na busca da revolução universal

O seu olhar, em pouco tempo, deu para contemplar outros horizontes, outras batalhas. Seu ódio aos norte-americanos fez com que imaginasse transformar a America Latina numa "imensa Sierra Maestra", local de onde legiões de guerrilheiros poderiam ameaçar o colossal império dos ianques. "Um não, mas vinte Vietnãs!", como disse por aquela época.

Converteu-se então num peregrino da Revolução Mundial convicto de que sua "teoria do foquismo" - segundo a qual um pequeno grupo de gente decidida, de armas na mão, independente das condições objetivas, dava início a uma insurgência - poderia ser aplicada em qualquer canto do Terceiro Mundo. A essência do pensamento revolucionário dele concentrava-se na crença não-marxista de que a força da vontade era auto-suficiente como promotora das mudanças sociais necessárias.

No seu desprezo pela classe média, minimizou a importância social e cultural dela. Assim ele considerava positivo que os revolucionários pusessem para fora de Cuba os "pequeno-burgueses", não se dando conta que com isso, ao mandá-los para o exílio na Flórida, retirava da revolução os seus elementos mais empreendedores, capazes e instruídos. Gente qualificada que foi enriquecer a economia daquele estado, visto que a comunidade cubana tornou-se a mais próspera de todas.

Cuba virou uma ilha de pobres, governada por um estado que manifesta pavor a qualquer iniciativa individual que esteja fora do seu controle. Desde então, o empreendedor por lá foi percebido como um anti-social, uma semente da contra-revolução, um potencial inimigo do regime.

Em março de 1965, depois de trotar pelo globo como o arauto da revolução, ele abandonou a importante posição no alto comando da revolução embrenhando-se no Congo e, a seguir, na selva boliviana. Montou sua base em Ñancahuazú, um fundão de mundo situado nas beiradas da mata amazônica, onde ele terminou seus dias.

Ao invés do apoio esperado, deparou-se com a gélida indiferença dos camponeses descendentes de índios. Aqueles rostos pétreos cor de cobre, de olhares inexpressivos, assinalaram a proximidade do seu fim, como se fossem prenúncios da lápide da sua futura sepultura. Na época, sabedor das andanças dele pela região, o governo local colocou sua cabeça a prêmio por U$ 4.200.


O fim em La Higuera

Denunciado por uma camponesa, cercado pelos rangers bolivianos sob o comando do capitão Gary Prado num lugar acidentado chamado de Quebrada Del Yuro, depois de um tiroteio, Guevara levemente ferido foi aprisionado na escolinha de La Higuera. Quando se vira perdido Che disse aos soldados que o cercavam: “Não disparem. Sou Che Guevara, e valho mais vivo do que morto.” Mas de nada lhe serviu.

No dia seguinte, após uma ordem expedida de La Paz, foi metralhado pelo tenente Mário Terán. Segundo os militares presentes suas últimas palavras foram: "Digam a Fidel que esse fracasso não significa o fim da revolução, que ela triunfará em qualquer outra parte. Digam a Aleida que esqueça tudo isso, que volte a casar, que seja feliz e cuide para que os meninos continuem estudando. Peçam aos soldados que façam boa pontaria."

A foto do seu cadáver, posto sobre uma maca na lavandeira do Hospital Nuestro Señor de Malta, no lugarejo Vallegrande, para onde ele fora removido de helicóptero, foi mostrado ao mundo.

Havia um quê de místico naquele corpo emagrecido e perfurado de balas, estirado sozinho naquele lugar singelo. Imagem que lembra muito os santos martirizados das épocas primeiras do cristianismo Soube-se que, para fins de rigorosa identificação, os soldados bolivianos o mutilaram cortando-lhe as mãos que foram guardadas em formol.

Transcorridos trinta anos da sua morte, achados por fim os seus despojos enterrados secretamente nos arredores de Vallegrande, os cubanos, recambiando-lhe os ossos, deram-lhe um enterro decente num memorial erguido em Santa Clara (cidade que ele tomou antes de chegar a Havana), onde ele continua sendo um ícone nacional.

Por outro lado talvez ele não gostasse de estar vivo hoje para ter que testemunhar como tudo acabou num trágico, triste e melancólico fracasso. Analisando-se em retrospecto os descaminhos da revolução, presenciando-se o isolamento de Cuba e as crescentes dificuldades do regime de Fidel Castro, foi bem melhor para Guevara ter morrido moço.


Bibliografia

  • Anderson, Jon Lee - Che Guevara, Uma Biografia (Editora Objetiva, Rio de Janeiro,1997)

  • Castañeda, Jorge. C. - Che Guevara, uma vida em vermelho (Editora Companhia. das Letras, São Paulo, 1997)

  • Karol, K.S. - Los guerrilleros en el poder (Editora Seix Barral, Barcelona, 1972)

  • Rojo, Ricardo - Meu amigo Che (Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1968)

        
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