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História - Século XX
SÉCULO XX

Espanha 1936, o crucifixo e o fuzil

Leia mais
» Espanha 1936, o crucifixo e o fuzil (parte I)
» Espanha 1936, o crucifixo e o fuzil (parte II)
 
O arcebispo de Pamplona, capital da província espanhola de Navarra, monsenhor Fernando Sebástian, reclamou de um parecer do parlamento local, aprovado em 2006, que implicou a Igreja Católica numa série de fuzilamentos cometidos contra "los rojos" - republicanos, anarquistas e comunistas - durante a Guerra Civil de 1936-1939. É sabido que a alta hierarquia católica e também os padres de paróquia atuaram intensamente ao lado dos nacionalistas liderados pelo general Franco, mas não que sacerdotes participassem diretamente na grande purga. Pamplona e suas cercanias, por ocasião do levante militar de Dezoito de Julho, foi palco de inúmeras ocorrências vingativas, todas brutais, cometidas pelos direitistas contra os presos políticos identificados com o odiado regime republicano-esquerdista vigente então na Espanha.

O levante militar e o acerto de contas

Capelão militar abençoa os voluntários carlistas (1936)
O pronunciamento do Dezoito de Julho do general Franco contra a Republica da Frente Popular, que conduziu a Espanha a uma pavorosa guerra civil, que se estendeu por dois anos e três meses, de 1936 a 1939, provocando a morte de meio milhão de espanhóis, serviu também para que diversos grupos ou facções praticassem um "acerto de contas" por todos os cantos da península Ibérica. Caso exemplar de vingança ocorreu na província de Navarra, região fronteira ao País Basco, um dos mais exemplares berços do tradicionalismo católico e do reacionarismo político. Quando a notícia do levante militar chegou às montanhas daquela região, milhares de simpatizantes do partido monarquista-carlista, desceram dos cimos para virem se somar às forças nacionalistas e fascistas para darem um fim ao regime republicano-socialista.

Naquelas alturas da vida espanhola, os carlistas eram uma verdadeira relíquia política. Uma sombra do passado que, num repente, insuflada pela sublevação militar, voltava a adquirir forma e vida. Eles descendiam daqueles que, ao longo do século XIX, haviam lutado nas três guerras civis travadas contra o governo monárquico-constitucional de Madri: as chamadas Guerras Carlistas.

Os Carlistas

Tinham essa denominação, de "carlistas", porque, pelo Levante de 1833, liderado pelo general Ladrón de Cegama, haviam defendido a sucessão do trono favorável ao príncipe Carlos e não à princesa Isabel (filha do rei Fernando VII, falecido em 1833). Por detrás do conflito dinástico onde o tio (apoiado pelos "Carlistas") e a sobrinha (apoiada pelos "Cristinos") disputavam o Reino da Espanha, albergava-se uma série de interesses e desavenças outras. De um lado se alinharam as forças do partido Ultra-Absolutista, seguidor de um catolicismo ortodoxo, representando por don Carlos, do outro a Monarquia Liberal. "Carlistas" e "Cristinos" aqueles fortemente ativos nas províncias da Navarra e Catalunha, se enfrentaram em armas em 1834-39, 1846-49 e, ainda, entre 1872 e 1876, quando encerrou-se o confronto. Poucos poderiam supor que exatamente sessenta anos depois da derrota dos carlistas eles ainda pudessem ter fôlego para voltar à liça ao lado da contra-revolução desencadeada pelo general Franco.

Não só isso, como também estavam dispostos a reproduzir em 1936 os fuzilamentos que seus antepassados haviam promovido um século antes, em 1834, ocasião em que o comandante dos Reais Exércitos, o general carlista Tomás de Zumalacárregui (1788-1835), popularmente conhecido como "Tio Tomás", passara pelas armas 100 prisioneiros do partido rival, jogando os seus cadáveres nas "cavernas dos Cristinos", na Sierra de Urbasa, em Navarra mesmo, no lamentável episódio conhecido como os "Fuzilamentos de Herédia".

Atendendo ao chamado mortífero da guerra civil, como se fossem espectros vindos de um passado sangrento, lá estavam de volta os requetés carlistas, (os voluntários carlistas), com suas boinas vermelhas, vindo fuzilar gente em meio às preces a Deus, a Jesus e à Santa Madre Igreja. Somaram-se, pois, à Cruzada, como os franquistas denominaram o levante de Dezoito de Julho, para extirpar do solo da Espanha as heresias modernas que apavoravam os tradicionalistas.

Os fuzilamentos

O historiador Gabriel Jackson (La Republica española y la guerra civil, 1967) apontou os generais nacionalistas sublevados como os principais responsáveis pelos fuzilamentos em massa que ocorreram então. Para ele, os altos oficiais espanhóis agiram na ocasião como os militares franceses o fariam mais tarde na Indochina e na Argélia (entre 1945-1961), passando pelas armas todos aqueles a quem considerassem perigosos á dominação colonial. Em geral, escreveu ele, as atrocidades cometidas pelos requetés carlistas ou pelos jovens falangistas (o movimento fascista espanhol) nas áreas insurgentes, tiveram reduzida dimensão em comparação aos ativos pelotões de fuzilamento "oficiais", comandados pela gente do general Franco.

Todavia merece o registro o sinistro ocorrido em Pamplona um mês depois de decorrido o levante, em 15 de agosto de 1936, ocasião em que à população saiu às ruas para participar da procissão da Virgem Sagrada. Como Navarra aderira à revolta contra-revolucionária, a maioria dos representantes republicanos (funcionários e sindicalistas) fora encarcerada. Não se sabe de quem coube a iniciativa de acabar com eles de uma vez só. A prisão local foi invadida por um piquete de requetés e dos seus parceiros, a rapaziada falangista, decididos a enviar todos eles para o inferno à bala.

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