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História - Século XX
SÉCULO XX

O Plano Lewis de balcanização do Oriente Médio

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Bernard Lewis, um cruzado no Iraque
O Plano Lewis de balcanização do Oriente Médio
 
De certo modo, ainda que não confessada de público, o Departamento de Estado, durante a administração Bush filho, orienta-se pelo Plano Lewis para o Oriente Médio, cujo primeiro esboço foi apresentado por ele no Encontro de Bilderberg, em Baden, na Áustria, em 27-29 de abril de 1979. O ponto de partida teórico aposta na necessidade de implodir com a atual formação dos estados-nacionais da região através do estímulo dos serviços de inteligência anglo-saxões e israelenses em apoio a que ocorram rebeliões étnicas separatistas, visando à destruição do sistema político lá existente.

O Iraque, por exemplo, seria dividido em dois estados, um sunita e o outro xiita; o Irã daria abrigo a três (Turcomenistão ao norte, Pérsia ao centro e Arabistão ao sul); o mesmo se dando com o Afeganistão (dividido entre o Beluquistão e o Puchtunistão). Todo o mapa do Oriente Médio seria pois redesenhado, provocando a balcanização (fracionamento dos territórios) e sua libanização (todos eles envolvidos em guerras civis internas nas quais os grupos étnicos disputariam o poder uns contra os outros).

Em síntese, o plano tem por objetivo geral:

1 - Retomar a ancestral política do Império Romano que exercia sua autoridade sobre amplos territórios fracionados, controlados por grupos "romanizados" favoráveis ao controle externo.

2 - A atomização do Oriente Médio é possível devido o fracasso do pan-arabismo impulsionado por Gamel Nasser nos anos 50 e 60 do século XX, surgindo no seu vácuo uma miríade de pequenos estados, dilacerados internamente por conflitos étnicos- religiosos e hegemonizados pelas potencias anglo-saxãs.

3 - Fazer desaparecer o Líbano, partilhado por uma Grande Síria e por um Grande Israel.

4 - Impedir que algum estado-nacional do Oriente Médio, totalmente "desconstruído", fosse forte o suficiente para impor uma política petrolífera que ameaçasse os interesses dos consumidores ocidentais e das companhias que os abastecem. O desenvolvimento econômicos deles, com o fim da independência, estaria inteiramente nas mãos das potências externas (isto é, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha), formando uma "comunidade de princípios".

Em busca de um novo Kemal

O grande plano neocolonialista de Bernard Lewis para o Oriente Médio
Falta-lhes, pois, um novo Kemal para conduzi-los à modernidade ainda que a cabresto e aos empurrões. Quando ocorreu o ataque suicida às Torres Gêmeas de Nova York e ao Pentágono em Washington, em 11 de setembro de 2001, Lewis sentiu que a ocasião favorecia uma política de guerra aberta contra os bolsões antiocidentais do Oriente Médio: particularmente contra Saddam Hussein.

Viu no desastre a oportunidade de aplicar no Iraque uma “modernização kemalista”, cujo instrumento operacional seria a estratégia do Shock and Awe, o Choque e Pavor, proposto por Donald Rumsfeld, o secretário da defesa do governo republicano e chefe do Pentágono, sendo que o lugar do grande reformador seria preenchido pelo presidente George Bush, alçado por ele à honrosa posição de agente da tão necessária ocidentalização democrática do Oriente Médio.

De certo modo, isso é que explica a disposição norte-americana, aliada à britânica, em seguida à invasão e ocupação, em agir como se fossem deus ex-machina, “redesenhando” inteiramente o país árabe, depondo-lhe o governo, impondo-lhe uma nova moeda, abolindo com seu exército e sua bandeira nacional, arranjando-lhe eleições, bem como lhe redigindo uma nova constituição, ao tempo em que o dotou de uma direção política colaboracionista tendo à frente o ex-banqueiro Ahmed Chalabi, um escroque e homem ligado a Lewis, configurando-se assim na maior operação colonialista que o mundo assistiu desde o término da Segunda Guerra Mundial. Tudo isso amparado por votações nacionais organizadas por John Negroponte, o diplomata norte-americano perito em fabricar urnas favoráveis aos interesses norte-americanos e que foi sucessor do procônsul Paul Bremer em Bagdá, entre 2004 e 2005.

O fracasso de Lewis, para algum dos seus críticos, materizalizado na explosão incontida de violência por quase todo o Iraque e no atoleiro em que se encontram as forças armadas dos Estados Unidos e seus coligados, deve-se à visão equivocada que ele tinha originalmente do panorama histórico do Oriente Médio. Lewis viu lá o conflito entre uma civilização que se encontra no seu zênite, a Ocidental, presente na área pelos Estados Unidos e seu aliado, o Estado de Israel, em aberto confronto com uma civilização estagnada, presa ao fanatismo religioso e ao atraso: a muçulmana.

Por conseguinte, como se fora um cruzado acadêmico, não viu mal algum em estimular a conquista militar de alguns países muçulmanos, ou a subversão deles, para que os padrões ocidentais do progresso e da democracia penetrassem em meio aquele solo teimoso dominado pelos mulás ignorantes e pelas tiranias locais, quando na verdade o conflito central ocorre, e isso desde o século 19, entre o colonialismo ocidental e o real, legítimo e profundo desejo de autonomia e independência dos povos daquela parte do mundo.

Bernard Lewis, recorrendo-se à terminologia de Gramsci, é um intelectual orgânico do império anglo-saxão. Poder a quem por primeiro ele serviu na Inteligência Militar Britânica e no British Foreign Office, e, depois, nos Estados Unidos, como agregado ao Departamento de Estado. Ideologicamente ele é um anacronismo, uma lembrança ainda viva do liberalismo dos tempos de Gladstone, condescendente com a expansão imperial e inabalável na sua crença no papel civilizador e humanitário do Ocidente e fé na missão do homem branco em regenerar as demais raças da terra: um cruzado acadêmico enfim.

(*) O maior opositor de Lewis no meio acadêmico, o palestino-americano Edward Said, falecido em setembro de 2003,. argumentou no seu “Orientalismo”, aparecido em 1978, que praticamente todos os modernos estudos sobre o Islã feitos no Ocidente não passam de ferramentas para o exercício da dominação imperialista e que a tão afanosa procura por conhecimento nada mais é senão que a procura do poder. O Orientalismo é um tipo de racismo, um estereótipo que tende a ver o Islã como algo estático, imune à racionalidade e em permanente mobilização contra o Ocidente (ver Michael Hirsh – Bernard Lewis revisited, in Washington Monthly, nov. 2005, e também em E.Said – Cultura e Imperialismo, pág.324-5). Afirmação que se aplica pelo menos no caso de Napoleão Bonaparte que inspirou sua campanha de conquista do Egito, de 1798-1801, na obra do conde de Volney, Voyage en Egypte et en Syrie, 2 v. editados em 1787. E, anterior a todos, o impacto que o relato de Xenofonte "Anábasis", a retirada dos mercenários gregos de dentro do Império Persa, causou na imaginação do jovem príncipe Alexandre da Macedônia.

A polêmica Said-Lewis, travada nas páginas do The New York Review of Books, entre junho-agosto de 1982, de certa forma trazia para dentro do circuito universitário norte-americana os desacertos entre os palestinos e Israel.

Principais livros de Bernard Lewis

"Os árabes na História". Lisboa: Editora Estampa, 1999.

"Os assassinos" – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003

"A crise do Islã – Guerra Santa e terror profano". Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

"The emergence of modern Turkey". Oxford-USA, 2001.

"O Oriente Médio". Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

"O que deu errado no Oriente Médio". Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

"A Middle East Mosaic". Nova York. Random House, 2000.

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