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História - Século XX
SÉCULO XX

Stalin, o czar vermelho

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Não existe personalidade mais complexa e paradoxal do século XX do que Joseph Vissarionovitch Djugashvili, celebrizado, temido e odiado pelo codinome Stalin, o "homem-de-aço", ditador da União Soviética. Originado da aldeia de Gori, na Geórgia, então província do império russo, onde nasceu em 21 de dezembro de 1879, exerceu por quase 30 anos, de 1924 a 1953, um poder de vida e morte sobre milhões de homens e mulheres.

Suprema autoridade que ultrapassou a de qualquer outro personagem histórico conhecido e cujo controle não se limitou às vastíssimas extensões do território russo, visto que a mão-de-ferro dele alcançou as demais nações e continentes, controlando a maior parte dos partidos comunistas espalhados pelo mundo.

Um pouco de cada um

Stalin, ente tantas coisas, foi um composto de personagens históricas nacionais, revolucionárias, e mesmo religiosas da história russa e da história universal. Como Ivan o Terrível, a quem ele admirava, governou pelo terror, esmagando aqueles que considerava um impedimento à revolução social decretada de cima para baixo.

Imitou Pedro, o Grande, que abominava o atraso russo, lançando mão da coerção impiedosa para equipar a Rússia asiática ao Ocidente desenvolvido. Como Alexandre I fez com Napoleão, ele repeliu a invasão da Rússia e levou suas tropas para o coração da Europa.

Tal Robespierre durante o Terror, liquidou sem contemplação seus próprios camaradas de partido na época dos Grandes Expurgos em nome da segurança do Estado Soviético e da necessidade de "construir o socialismo", submetendo-os às barras do tribunal popular e à execução a tiros. Como Napoleão, ele sufocou os anseios de igualitarismo da massa ao tempo em que forjou um império, o maior que a Rússia possuiu em toda a sua história.

Como Cromwell, teve a sepultura profanada e o seu nome jogado no esquecimento. Tal como os monarcas bizantinos, de Justiniano aos Comnenos, batizou cidades, ruas e praças com seu nome ou o dos seus favoritos, ao tempo em que foi uma espécie de Maomé inspirando um fervor místico em milhões de indivíduos, homens e mulheres que viam em Moscou a nova Meca na época em que o movimento comunista aparecia como a redenção da humanidade.

Impessoalidade e crítica

Stalin
Todavia, superou a todos eles na sua impessoalidade. Ivan o Terrível sofria crises de consciência acompanhadas de um estado depressivo catatônico por ter torturado ou mandado executar os boiardos, seus inimigos.

Os tiranos shakespereanos, como foi o caso de Macbeth, viam surgir à sua vista os espectros daqueles a quem mandavam assassinar. Tratando-se de Stalin, até os nossos dias não se encontrou nenhum registro de pesar, de arrefecimento ou contrição pelos atos atrozes que cometeu.

O paroxismo aumenta quando observamos a visão de seus críticos e opositores. Para os conservadores, liberais e fascistas, Stalin representava o centro permanente da conspiração contra a hierarquia, a propriedade, a família, e a nacionalidade.

Para a esquerda ocidental das mais variadas tendências, era o responsável direto pelo fracasso da Revolução; quer no plano interno, com aumento da desigualdade e a sufocação da liberdade, quer no externo, quando atrelou o movimento comunista internacional aos desígnios diplomáticos e estratégicos da União Soviética desmoralizando-o em razão das suas reviravoltas ideológicas. Para esses críticos dele, Stalin seria uma singular simbiose de Lúcifer com Judas Iscariotes.

Lenin e Stálin em foto de 1922
Nascido na minúscula aldeia de Gori, na Osétia, subprovincia da Geórgia, em 21 de dezembro de 1879, Stálin foi filho único de um casamento de curta duração entre um sapateiro georgiano e de uma camponesa analfabeta. ex-serva como o marido. Abandonado pelo pai, de quem sofria impiedosa surras, encontrou na mãe, Ekaterina Gheladze, apelidada de Keké, a força e o estoicismo dos rústicos. Lavando roupa e fazendo pequenas tarefas domésticas, ela conseguiu matricular o filho no Seminário Teológico de Tíflís.

Como mulher pobre mas piedosa ambicionava que o seu "Soselo", diminutivo georgiano de Jozeph, se tornasse monge. Entretanto, o seminário que deveria adestrá-lo no pietismo, transformou-o num ativista clandestino da revolução, ainda que ele fosse menino do coro e adorasse canções religiosas, tal como o hino litúrgico ortodoxo Mnogaia leta.

A escola clerical de Tíflis, administrada pela Igreja Ortodoxa, era um instrumento da política de russificação do Império Czarista. Os alunos, todos georgianos, mantinham por sua vez, uma permanente resistência na defesa da nacionalidade, tornando-a um ninho de dissabores para as autoridades locais. Contaminado pelo ambiente nacionalista e anti-russo, ele ingressou na organização clandestina da Messame Dassy e posteriormente nas fileiras dos primeiros grupos da social-democracia russa, fundada por Lenin e outros intelectuais em 1898.

Durante algum tempo a roupeta de seminarista serviu-lhe de disfarce para a atividade clandestina, mas a vigilância dos padres flagrou-o em sua atividade dúplice. Não era possível servir a Deus e ao Czar e também à revolução. Terminou sendo expulso.

Na entrada do século XX, "Koba", seu primeiro codinome, tornara-se um militante calejado e diligente. Seu aspecto físico de homem comum e seu temperamento reservado, fizeram-no um excelente agitador para atura nas sombras. Mesmo assim, a pesada e sempre alerta mão da Okrana, a policia secreta czarista, submeteu-o às agruras da prisão e deportação, destino comum aos que pregavam a subversão do regime.

A vida dele até a Revolução de 1917 foi uma sucessão de prisões, fugas, curtas viagens ao exterior e novos desterros. Lenin, vivendo na diáspora, tomando conhecimento da existência daquele ativo caucasiano resolveu dar-lhe um polimento. Aproveitando-se do fato de Stalin pertencer a uma minora étnica – era da Osétia, uma sub-região da Geórgia - encarregou-o de elaborar um documento que contestasse as teses do austro-marxista Otto Bauer sobre a questão das nacionalidades, tema de grande preocupação entre os revolucionários austríacos e russos, visto que tanto o império dos Habsburgo como o dos Romanovs compunham-se de um conglomerado de distintas nacionalidades, raças e religiões.O desafio dos teóricos da esquerda era encontrar um denominador que mantivesse a integridade da organização política que herdariam frente as exigências de autonomia ou mesmo de total independência de parte das minorias.

Apesar da pouca elasticidade teórica do ensaio "O Marxismo e a Questão Nacional", Lenin considerou o trabalho razoável, o suficiente para indicar o georgiano para integrar o Comitê Central do Partido Bolchevique em 1912. Stalin considerou a promoção uma decorrência lógica da sua fidelidade aos princípios leninistas desde o fracionamento da social-democracia russa entre bolcheviques e mencheviques ocorrida nove anos antes, em 1903.

Desde o inicio ele sentira-se atraído peIa concepção de Lenin do partido revolucionário, pois se casava com sua prática e com o seu temperamento pouco democrático. Em geral, abominava aquelas discussões teóricas, um tanto bizantinas, que se estendiam pelas noites a dentro e que tanto gosto faziam aos intelectuais exilados, admirando isto sim o chamamento à disciplina e ao comando exigido pelo líder do partido.

Entrementes, o império dos Romanov cambaleava. Já em 1905, após a Guarda Imperial cossaca ter massacrado uma pacifica manifestação operária em São Petersburgo – o célebre episódio do Domingo Sangrento - a autocracia viu-se perigosamente abalada. Somente com muito custo o czar manteve-se no leme do governo. Não por muito mais tempo.

O dobre de finados da dinastia acelerou-se a partir do envolvimento da despreparada Rússia no conflito mundial que eclodiu em agosto de 1914. Bastou pouco mais de dois anos de combate nas trincheiras para que o exército czarista fosse posto em frangalhos. A insatisfação social, tantas vezes sufocada e reprimida, entrou então em ebulição numa intensidade inaudita. Em fevereiro de 1917(março pelo calendário atual) milhares de trabalhadores rebelados invadiram as ruas da capital e, numa jornada de oito dias, depuseram o último dos Romanov.

A revolução encontrou Stalin desterrado em Ienissei, rincão perdido da Sibéria, onde cumpria pena por agitação contra a guerra. Dali escreveu uma das poucas cartas pessoais, não-política, de que temos conhecimento. Lastimava o isolamento e a sensaboria da paisagem, ao tempo em que agradecia àquela que seria sua futura sogra, Olga Alliluieva, os alimentos que enviara.

Eclodido o levante de março de 1917, deposto o czar, retornando à efervescente Petrogrado berço da Revolução, ele assumiu temporariamente a chefia do partido enquanto Lenin, exilado na Suíça, entrava em contato com as autoridades alemãs para obter um salvo-conduto e retornar à Rússia.
A chegada de Lênin, desembarcado na Estação Finlândia vindo num trem lacrado que passar por território alemão, empurrou os bolcheviques para uma "segunda Revolução", que ocorreu em outubro de 1917.

Com exceção de alguns artigos de Trotski, divulgados anteriormente, ninguém ousava defender a tese de que a atrasada Rússia poderia saltar a "etapa capitalista" e atingir o socialismo. Os bolcheviques, por seu lado, aferravam-se a uma concepção internacionalista, acreditando que o que se passava na Rússia era apenas o prenúncio de uma revolução proletária que se faria em escala mundial. Era de certa forma, um elemento tático dentro da estratégia internacional do socialismo, visto que Lênin acreditava que a Guerra Mundial provocaria por si mesmo as condições para uma Revolução Mundial.

Recém-acertada a paz de Brest-Litovsk, acertada por Lenin com o Império Alemão, acordo que retirou a Rússia da guerra, uma tragédia ainda maior avolumou-se no horizonte: a guerra civil. Terrível embate que colocou as forças da revolução e da contra-revolução em choque aberto. Durante os anos de 1918 a 1921, os Exércitos Vermelhos travaram uma feroz luta contra os Brancos apoiados pelas forças ocidentais. Foi a primeira experiência de comando que Stalin exerceu e fonte dos conflitos dele com Leon Trotski, o chefe supremo das forças armadas da revolução.

A vitória dos bolcheviques, finalmente conseguida em 1921, deu-se sobre uma nação social e economicamente arrasada, as classes sociais pulverizadas e a agricultura destroçada. A fome, vinda do campo, flagelava as grandes cidades. O poeta Alexander Block, autor dos "Os Doze", simpático à revolução, morreu em Petrogrado de inanição. Como ele, milhares de outros se foram devastados pela falta de alimentos e pelo tifo.

Depois de sufocar a rebelião dos marinheiros do Kronstadt, ocorrida em 1921, Lenin resolveu abandonar a política das requisições forçadas, denominada "comunismo de guerra" e lançar a NEP (Nova Política Econômica), que compreendia a restauração de práticas capitalistas. Autorizou a restituição das pequenas empresas a seus antigos proprietários, permitiu-se o surgimento de uma economia agrícola de mercado e de um amplo setor de comercialização privatizado. Era um visível recuo nas propostas socialistas. Gramsci comentou: "Lênin passou da guerra ofensiva à guerra de posições".

Se o país conseguiu uma pausa para respirar, não quer dizer que a situação fosse invejável. Mais de quatro milhões de pessoas haviam perecido na guerra mundial e na guerra civil que se seguiu. Os quadros administrativos e técnicos haviam emigrado em massa, seja pela identificação com o czarismo, seja como fruto do Terror Vermelho. A classe operária, sustentáculo do novo regime, havia parcialmente perecido ou sido absorvida nas funções político-administrativas e grande parte da massa rural confinou-se a uma economia de subsistência.

Sob ponto de vista dos bolchevistas internacionalistas a situação externa era visivelmente decepcionante visto o refluxo da maré revolucionária. As noticias vindas de fora eram todas negativas. Os fracassos ocorridos em Berlim, na Baviera (1918/9) e na Hungria (1919), confirmavam o isolamento da Rússia Soviética.

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