Educação História por Voltaire Schilling Século XX
Boletim
Receba as novidades no seu e-mail!
Fale conosco
. Envie releases
. Mande críticas, dúvidas e sugestões
EducaRede
Entre no portal da escola pública
História - Século XX

Os instrumentos do Estado Exterminador

Leia mais
» Argentina, Ditadura e Terror (2ª parte)
» Os instrumento do Estado Exterminador
» Bibliografia
 
"Videla governa, eu mato!"
General Mário Menendez

Os dispositivos militares foram acionados a partir da divisão das quatro Zonas de Defesa, formadas pelo I Corpo de Buenos Aires; o II Corpo de Rosário; o III Corpo de Córdoba, e o IV corpo de Bahia blanca. Sendo que a cada comandante de zona coube a responsabilidade por executar a repressão na sua respectiva área.

Dada a sua localização, ironicamente situada na Avenida do Libertador, no bairro de Nùñez, na área central da cidade de Buenos Aires, a Escola de Mecânica da Armada, a famosa ESMA, sob o controle direto do almirante Emilio Massera, tornou-se a principal instalação do Estado Exterminador. Para lá foram levados aos magotes os subversivos suspeitos onde eram submetidos a uma liturgia de horrores aplicados pelos "Los Gustavos". O suplício era justificado, inclusive pelos capelães militares, como um instrumento válido para arrancar informações o mais rápido possível.
Quanto menor o tempo de resistência do preso maiores as possibilidades de se capturarem outros e de se impedir a continuidade dos atentados.

A ESMA, todavia, era apenas o centro de detenção mais notório, visto que existiam ainda uns 240 outros espalhados pelo país. Entre eles a La Casila (no Campo de Maio), a La Casona (Na base aérea de El Palomar), e inúmeros quartéis, bases navais e aéreas, comissárias policias, casas e sótãos clandestinos, prisões militares, etc...

Decisão tomada, os presos selecionados para o "translado" recebiam injeções ou comprimidos tranqüilizantes e eram depois levados para o Aeroparque de Buenos Aires de onde eram embarcados nos "vôos da morte". Aviões de transporte ou mesmo helicópteros foram utilizados na operação de jogar os subversivos lá do alto, tanto no rio da Prata como no Riachuelo, e, por vezes, no alto mar. Os que se encontravam na periferia de Buenos Aires ou nas casas clandestina do interior do país, foram mortos a tiros e depois inumados nas áreas reservadas aos indigentes N.N. nos cemitérios locais.

Como muitos dos capturados tinham filhos pequenos ou suas companheiras estavam grávidas, tomou-se como costume entregar as crianças e os recém-nascidos, mais de 500, aos cuidados de famílias de militares para que assim os criassem como bons católicos, imunes à "sífilis da revolução".

Nem mesmo políticos e militares estrangeiros que estavam exilados na Argentina escaparam da fúria vingativa dos comandantes argentinos em conluio com seus colegas vizinhos, como foi o caso do ex-senador uruguaio Zelmar Michelini e do seu colega Héctor G.Ruiz, dos generais Juan José Torres, ex-presidente da Bolívia, e Carlos Prats, ex-chefe supremo do exército do Chile, todos eles mortos no moedor de carnes montado a partir de março de 1976.

Um testemunho do horror

Os supliciados da ESMA (León Ferrari)
"A cúpula militar que havia promovido o golpe decidiu usar a desculpa do extermínio da guerrilha para impor um terror poucas vezes visto até então.

A Argentina foi devastada por prisões arbitrárias, violações de domicílios e execuções nas ruas. Foram instituídos locais de tortura e assassinatos secretos. Milhares de pessoas começaram a desaparecer. A violação das instituições não respeitava nenhum limite, porque não apenas se profanava a Constituição, como foi redigido um Ato Institucional paralelo à Constituição, ao qual os funcionários tinham que jurar obediência. Os pais temiam falar com seus filhos, para não dizer algo que pudesse virar em tragédia. Multiplicaram-se as delações em todos os níveis, muitas delas falsas, movidas pela tortura.

Os militares golpistas incharam-se de soberba. Auto-intitularam-se "salvadores da pátria". Consideram-se infalíveis e treinados para qualquer função. Não apenas ocuparam os cargos do governo, como também as reitorias e direções das universidades, os meios de comunicação, cargos diplomáticos, a direção de sindicatos, a direção de empresas. Podiam decidir entre a vida e a morte de qualquer pessoa.

Quando, ao cabo de seis anos, começaram a compreender que haviam perdido as simpatias iniciais e que aumentavam as denúncias internas e externas de seus crimes, eles apelaram para o recurso gasto de exacerbar o sentimento patriótico, com a Guerra da Malvinas. Na mesma Praça de Maio onde dezenas de milhares de pessoas se reuniram para aplaudir o ditador Galtieri por ter ordenado o desembarque nas ilhas.

Mas essa guerra foi o começo do fim. Em 10 de dezembro de 1983, a última ditadura Argentina foi sepultada pela entusiástica recuperação da democracia".

(Marcos Aguinis: Do golpe e de instituições
Folha de São Paulo: 19/03/2006)

A polêmica sobre os demônios

Um dos tantos cartazes dos desaparecidos
Num dos seus teoremas filosóficos ainda não publicados, o escritor Ernesto Sábato disse que fazia trinta anos que andava à procura de Deus pela cidade de Buenos Aires inteira. Ainda faltavam-lhe uns três bairros para dar cabo da pesquisa, mas aquela altura da vida acreditava que seria inútil. Entrementes se ele não encontrou Deus, não lhe faltou ver o diabo pela frente quando foi escolhido pelo presidente Raul Alfonsin, após a queda da ditadura militar, em 1983, em vir participar de uma comissão para tratar dos desaparecidos: a CONADEPE (Comissão Nacional do Desaparecimento de Pessoas).

O relatório final apresentado por ele foi estarrecedor: uma coletânea de pavor e sofrimentos de fazer inveja a qualquer das tantas descrições dos suplícios que os caídos penavam nas masmorras do Santo Ofício nos tempos da Inquisição. Parecia que Tomás Torquemada (1420-1498), o primeiro inquisidor-geral, havia ressuscitado na beira do rio da Prata para reimplantar o Reino da Dor.

Até hoje os argentinos continuam divididos quanto a responsabilidade sobre o que aconteceu. Para o ex-presidente Raul Alfonsin tratou-se dos "dois demônios" ou do "demônio de duas cabeças", uma delas representada pela repressão militar e a outra pela subversão esquerdista. Ambas igualmente com as mãos sujas, envolvidas em seqüestros e assassinatos. Para o poeta Juan Gelman os culpados foram outros. Por igual defensor da teoria perversa dos "dois demônios", todavia a responsabilidade deveu-se não à farda ou à guerrilha, mas à cumplicidade dos dirigentes sindicais e da alta hierarquia católica para com a Junta Militar, liderada pelo general Videla, que permitiu o mergulho no desatino.

Poderiam os governantes terem seguido o bom exemplo do governo da Itália no seu enfrentamento com os extremistas das Brigadas Vermelhas, quando as autoridades jamais perderam a cabeça se deixando levar pela aplicação da tortura e pela sedução do terrorismo de Estado. Mas não na Argentina. Sem haver nas altas esferas da sociedade e das suas instituições uma voz de advertência e moderação que freasse os ímpetos mais cruéis e os instintos mais primitivos das partes envolvidas, permitiram que a carnificina desatada tivesse prosseguimento.

Desimpedida, a alta hierarquia militar agiu como se Argentina fosse um campo de batalha como Argel e Oran o foram para o exército francês durante a Guerra de Independência da Argélia, e Saigon ou Hué, o foram para os norte-americanos durante a Guerra do Vietnã. Isto é, território inimigo a ser ocupado palmo a palmo.

Milhares de civis foram detidos. Estimam em cem mil ou mais. Deles, provavelmente, 30 mil foram mortos, sendo que de muitos nunca mais se soube nada. Poucas famílias de Buenos Aires ou do interior não tiveram alguém atingido de alguma forma pela repressão que se abateu sobre a nação. O país durante aqueles sete anos de chumbo foi totalmente ocupado pelas Forças Armadas. Generais se tornaram reitores de universidades, capitães e majores diretores de colégios, e assim por diante.

O inesperado de tudo foi a entrada em ação das mães e avós da Plaza de Mayo que, não satisfeitas com as protelações e tergiversações das autoridades, começaram a exigir em público, batendo na portas dos quartéis e das prisões com o retrato dos seus desaparecidos, com coragem quase que suicida - tanto que chamaram-nas de "Las locas de la Plaza de Mayo" -, a devolução dos seus netos e uma satisfação que fosse a respeito do sumiço dos filhos e filhas.

Sábato e o prenúncio da catástrofe

De certo modo, quem intuiu a proximidade do desastre que se abateu sobre a Argentina dos anos 70 foi o escritor Ernesto Sábato. A trilogia dele, "O Túnel" (1949), "Sobre heróis e Tumbas" (1961) e "Abaddon o exterminador" (1974), cuja escolha dos títulos é suficientemente simbólica do mal estar que acometia a sociedade rio-platina, indica a aguda e sensível percepção do artista de que por debaixo daquele pais próspero e com uma população relativamente bem instruída e culta, pulsava algo daninho, neurótico, crescentemente perigoso, um ódio ideológico que com o passar dos anos transformou-se em algo potencialmente autodestrutivo. Chama a atenção o derradeiro título, aquele que encerrou sua obra, praticamente às vésperas do golpe de 1976, visto que Abaddon é o anjo satânico que vem anunciar o Apocalipse.

Acolhendo-se isso, de que a obra dele é uma premonição do horror que estava por vir, ele assume a posição que os grandes autores trágicos gregos, tais como Ésquilo ou Sófocles, exerceram no passado clássico por ocasião dos festivais teatrais, nos quais as mazelas e os temores da sociedade, expressos dramaticamente por personagens famosos do passado histórico ou mitológico, eram expostos de maneira sutil frente a uma coletividade participante.

página anterior      próxima página
Veja todos os artigos | Voltar