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História - Século XX
Século XX

A morte do caudilho e o caos nacional

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» A esquerda revolucionária entra em cena
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» A morte do caudilho e o caos nacional
 
O governo de Perón causou uma profunda decepção na esquerda marxista e nos Montoneros. A expectativa que eles tinham – como fiéis discípulos de John William Cooke - é que poderiam arrastar o caudilho para a causa da "libertação popular". Esperavam fazer dele um novo Fidel Castro, quiçá um Mao-Tse-tung, um líder terceiro-mundista disposto a tudo para enfrentar a oligarquia e o imperialismo. Pura fantasia. Com 78 anos de idade, sentindo-se cansado daquilo tudo, o caudilho não tinha mais ânimo para levantar bandeiras revolucionárias, muito menos as da extrema esquerda e dos peronistas radicais. Tanto assim que logo chamou para o seu lado a velha burocracia sindical que ele havia formado em tempos passados. Aceitou voltar para desaforar seus ex-colegas de farda que o odiavam. Fazê-los engolir Isabelita como sua vice-presidente, já que vetaram a candidatura de Evita no passado.

Queria morrer na Argentina, sua pátria, e não como um dos tantos políticos latino-americanos que faleciam longe de casa, no exílio, esquecidos, apartados de tudo e de todos, como acontecera com o libertador San Martin e com o tirano Juan Manoel Rosas. Quando ainda na Espanha, abrigado pelo ditador Francisco Franco, ele apoiara e encorajara a rebeldia e a ousadia violenta dos seus seguidores mais jovens contra a ditadura militar, agora via o resultado voltar contra ele próprio. Como ele mesmo disse sobre os eventos: Yo ya estoy amortizado (Eu já estou atemorizado).

O rompimento entre Perón e os radicais peronistas não tardou. Num pronunciamento feito no balcão da Casa Rosada no dia 1º de maio de 1974, irritado, admoestou-os publicamente chamando-os de "imberbes, estúpidos", expulsando-os da praça. Possivelmente como ato de provocação direta às Forças Armadas e ao governo peronista, os montoneros, em setembro daquele ano decidiram profanar a tumba do general Aramburu e seqüestraram o cadáver. Para consternação nacional, Juan Domingo Perón veio a falecer exatamente dois meses depois da expulsão dos extremistas da Plaza de Mayo, em 1º de julho de 1974. Com ele também se sepultaram as derradeiras possibilidades de conciliação. Pelos anos seguintes as paixões políticas e ideológicas que dividiam a Argentina explodiram. Uma violência desbaratada preencheu o vazio deixado pela morte do caudilho, dando-se uma orgia de atentados, seqüestros e assassinatos.

Ainda por ocasião das homenagens fúnebres pareceu que o país inteiro, reconciliado, acompanhou-lhe o féretro, sepultando-o como um herói nacional. Outra ilusão. Constitucionalmente ele foi sucedido por sua viúva Maria Estela de Perón, a Isabelita. Despreparada para o cargo, ela deixou-se manipular pelo tenebroso José López Rega, "el brujo", que agia nos bastidores do governo como uma espécie de Rasputin, a alma maligna do peronismo.

A Triple "A"

José Lopes Rega, fundador da Triple A
Os meses seguintes à morte dele acentuaram a presença no poder da direita peronista composta pela burocracia sindical que formou um verdadeiro cinturão ao redor de Maria Estela, a Isabelita. Os principais chefões dos grêmios laborais tornaram-se íntimos da Casa Rosada, levando para lá suas práticas de gansterismo, favoritismo e truculência. A economia parou e os tumultos se multiplicaram por todo o país. Em 1975, um ano antes do golpe, 700 pessoas haviam tombado vitimas de crimes políticos enquanto o custo de vida aumentava 335%. Em meio a isso, tanto o ERP como os Montoneros, cada vez mais sectários, continuaram no seu aberto desafio aos militares(Mário Santuncho, num comunicado do ERP de setembro de 1973, prometia poupar a polícia mas continuar em guerra contra os oficiais das forças armadas).

Defendiam a esdrúxula tese do assalto obliquo ao poder. Atacando diretamente integrantes da hierarquia militar que passaram a ser baleados e mortos nas ruas ou saindo das suas residências, esperavam provocar as três armas para que dessem um novo golpe. Acreditavam que assim - com os militares derrubando Maria Estela e voltando a empalmar o governo - as massas argentinas, enfurecidas, se rebelariam. Lideradas então pela vanguarda armada, conduziriam a nação à revolução social. A derradeira, aquela que implantaria uma sociedade socialista.

Neste cenário, com a violência se desdobrando em mil faces, as lideranças sindicais moderadas, naturalmente temerosas de se virem afastadas por uma nova insurgência fardadas, decidiram apoiar a iniciativa do ministro López Rega de empreender uma operação de extermínio contra o ERP e os Montoneros, e a todos aqueles que os apoiavam. Possivelmente cogitaram que se eles – a direita sindical de López Rega, recorrendo ao serviço de "los matones" - fizessem o trabalho sujo, isto é, liquidassem com o maior número de esquerdistas e seus simpatizantes, talvez fosse possível evitar a volta dos generais ao poder.

Os assassinatos seletivos

A base para a ação dos assassinatos seletivos seria o Ministério do Bem-Estar Social, o antigo palácio de Evita Perón situado na Plaza de Mayo. Nos seus gabinetes foram feitas as listas negras daqueles que deviam ser eliminados enquanto que dos porões partiam os esquadrões da morte, os pistoleiros daquela que ficou tétricamente conhecida como a Triple "A" (Alianza Anticomunista Argentina). A ela coube a tarefa de cumprir missões de "limpeza do terreno".

Começaram então a aparecer pelas ruas de Buenos Aires, à vista de todos, cadáveres destroçados por balas ou parcialmente incinerados, muitos com marcas de espancamento ou tortura. Uma das suas vítimas mais famosas foi o sacerdote terceiro-mundista Carlos Mugica. Não escolhiam somente de militantes revolucionários "infiltrados" no peronismo, mas saíram atrás igualmente de artistas, jornalistas, acadêmicos ou escritores que sabidamente manifestavam simpatias pela esquerda e pelos Montoneros. Muitos deles não tinham posição política.

Deu-se então o recomeço da diáspora de artistas, intelectuais, novelistas, de diretores e atores de cinema, da gente do teatro e da música, aos quais se juntaram eruditos professores universitários e psicanalistas famosos que foram abrigar-se no exterior porque a situação interna tornara-se insuportável.

Foi o segundo passo do longo êxodo da inteligência Argentina, visto que o verdadeiro começo dela dera-se por ocasião da "La Noche de los Bastones Largos" – algo como a "Noite dos Cassetetes" -, ocasião em que o general Ongania ordenou, em julho de 1966, que as forças policiais invadissem as universidade argentinas.(*)

(*) a perseguição aos psicanalistas e psicólogos argentinos tomou corpo depois do golpe de 1976 em razão da percepção dos militares de que a terapia e a psicanálise, em geral, enfraqueciam os valores da família católica fazendo com que os jovens desrespeitassem seus pais e daí qualquer outra autoridade que vissem pela frente. Daí muitos deles abraçarem a causa do terrorismo.

Marcelo Larraquy, biógrafo de López Rega (López Rega, una biografia, B.A. Editorial Sudamericana, 2004) calcula que a Triple "A", nos vinte meses que antecederam o golpe do general Videla, assassinou mais de 2 mil pessoas, sendo que 600 estão até hoje desaparecidas. Após ver fracassada a fantasia de reconstruir os tempos de ouro do peronismo, a Argentina parecia querer multiplicar por mil os desatinos e morticínios ocorridos nos tempos das desavenças entre federalistas e unitários, travadas no século XIX. Embates que tanto encheram de cadáveres o pampa e o Rio da Prata. Por conseguinte, a chacina organizada pela Triple "A", antes dos militares aplicarem a sua "solução final", foi engendrada atrás dos biombos do próprio Estado Peronista. Visto em retrospecto, tudo aquilo que aconteceu antes de 1976 pareceu ter sido apenas uma moderada encenação do que se viu em seguida. Algo como se fora um pequeno açougue aberto em frente a um matadouro.

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