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História - Século XX
Século XX

O seqüestro e assassinato de Aramburu

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A estréia deles ocorreu de modo espetacular quando a célula "Camilo Torres" (padre terceiro-mundista colombiano, integrante do ELN, Ejército de Liberación Nacional, morto em 1966), seqüestrou e assassinou no dia 1º de junho de 1970 o general Pedro Aramburu – o responsável pelo golpe dado contra Perón em 1955.

Os tiros disparados contra um sexagenário oficial das Forças Armadas – ídolo do Exército - inaugurou uma crudelíssima guerra aberta entre as agrupações esquerdistas (marxistas e peronistas) e as Forças Armadas. A partir daquele crime as comportas que ainda continham Nêmesis, a Deusa da Vingança, escancararam-se, visto que os radicais, ao assassinarem um alto chefe militar perderam o métron, o senso da medida, fazendo com que atraíssem sobre si as fúrias das forças castrenses, o que provocou o maior banho de sangue da história da Argentina.

Na primeira fase da guerra, de 1970 a 1973, a esquerda e os peronistas radicais pareciam ter levado vantagem, visto que o general Ongania, afastado do comando pelos seus companheiros de armas, foi sucedido pelo general Augustin Lanusse, militar sensível a questão da pacificação do país. Lanusse entendeu, contra a opinião de boa parte dos seus colegas de farda, que não haveria modo de acalmar a sociedade senão que agilizando eleições que conduziram a um processo que ele denominou de "peronismo sem Perón". Algo aceitável aos militares. Atentados se seguiam de todos os lados, a vida ficara um inferno na Argentina dos começos da década de 1970. Ainda assim foram poucos os que previram a hecatombe que estava ainda por vir.

A resposta fardada ao assassinato de Aramburu ocorreu em 22 de agosto de 1973, com o fuzilamento de 16 integrantes das agrupações terroristas (PTR-ERP-FAR-Montoneros). O local das execuções foi uma base aeronaval perto da prisão de Trelew, situada no sul, na província de Chubut, na Patagônia, por ocasião da tentativa de uma fuga em massa das lideranças presas. Ainda que Mário Santucho, fundador do ERP, e alguns outros, conseguisse escapar num avião seqüestrado para o Chile (na época governado pelo socialista Salvador Allende), a maioria foi recapturada pelo capitão Sose que, após um incidente confuso, decidiu passá-los pelas armas.

De certo modo, o horror provocado no país pelo fuzilamento dos presos, ocorrido 87 dias antes do retorno de Perón, acelerou o processo de devolução do governo aos civis – isto é, a alguém do Partido Justicialista, pois os militares sabiam que qualquer candidato que recebesse apoio do chefe exilado venceria facilmente as eleições na Argentina.

A matança de Ezeiza

O clima de guerra em Ezeiza ( 20 de junho de 1973)
Outro momento significativo da catástrofe argentina deu-se por ocasião do desembarque de Juan Domingo Perón quando do seu retorno definitivo à Argentina após 18 anos de ausência. Seguramente nunca ninguém vira algo assim. Nem na Argentina, nem na América Latina. Parecia que a nação como um todo, pobres e ricos, burgueses e trabalhadores, homens e mulheres, haviam se irmanado no intento de ir ao aeroporto internacional acolher o herói nacional.

Calculou-se que três milhões e meio de pessoas espalharam-se pela auto-estrada que liga a capital federal ao aeródromo. Era o regresso do Messias, o mágico que salvaria a pátria do caos anunciado. Muito viram na ocasião daquele encontro do povo com o seu caudilho uma reedição dos acontecimentos de 17 de outubro de 1945, data em que as massas operárias saíram às ruas para exigir dos militares o retorno de Perón ao poder, lançando então os fundamentos do Movimento Justicialista.

Todavia o que se assistiu no dia 20 de junho de 1973 não foi a euforia da conciliação nacional, mas a explosão de uma bárbara desavença entre a Burocracia Sindical peronista e os Montoneros. Um tiroteio destemperado e doido se espalhou pelos arredores do aeroporto, dividindo as facções peronistas em dois campos jurados de morte. Velhas lideranças do sindicalismo peronista, situadas ideologicamente à direita, capitaneadas por José López Rega, personagem mal afamado e suspeito, um dos mais próximos colaboradores de Perón (segundo alguns, o mordomo dele), se determinaram a impedir a aproximação dos jovens montoneros do El Jefe, que desembarcava como o inquestionável líder da FRENTE CIVICO DE LIBERACIÓN NACIONAL.

Os direitistas não temeram em abrir fogo em meio aquela multidão contra "as formações especiais" de Mário Firmenich que estavam se aglomerando perto do palanque montado para o discurso de chegada de Perón. Balaços zuniram por todos os lados. As 18 mil pombas que tinham sido levadas para a ocasião para realizarem um vôo da paz tiveram que se esquivar dos tiros que cortaram os céus, enquanto que a orquestra do teatro Colón convidada para tocar o hino nacional teve que se jogar no chão com instrumentos e tudo para escapar do fogo cruzado.

O cenário de confusão geral e violência foi o prenúncio de que coisas ainda piores, inomináveis, estavam por vir. O vôo de Perón - que desembarcou num outro aeroporto dada a insegurança de Ezeiza - em que se depositaram tantas esperanças de reconciliação nacional, deu num fiasco. Contabilizaram-se sem muita precisão a perda de 13 mortos e 380 feridos (na verdade nunca se soube o total de vítimas daquele dia fatídico).

Para piorar o quadro, os Montoneros (ofendidos pela acolhida à bala que tiveram em Ezeiza), juraram continuar na "luta armada", ainda que com Perón no poder. Marcando posição, durante a Operação Traviata, assassinaram ninguém menos do que o secretário-geral da CGT, o peronista José Ignácio Rucci, que apareceu crivado de balas em 25 de setembro de 1973. Ele, que estava há tempos marcado para morrer, dissera numa entrevistas que "não existia um só argentino que não se aborrecesse com a indignidade que simbolizava aqueles que matavam para fazer prevalecer suas razões".(*)

(*) Assassinato este que iria fazer com que depois, em vingança, a CGT apoiasse a Triple "A" (organização clandestina que visou à eliminação física dos montoneros e dos esquerdistas em geral).

Na mesma linha de aberta provocação seguiu o PRT-ERP (machucado pelas perdas de Trelew), que acelerou ainda mais suas ações de terror atacando as comissárias de polícia, assaltando bancos, seqüestrando diplomatas, extorquindo executivos de corporações multinacionais, alguns dos quais apareceram mortos depois de passarem pelos "cárceres do povo", bem como dando prosseguimento aos assassinatos de líderes sindicais moderados, dos altos oficiais e almirantes, além de seguirem na multiplicação dos atentados à bomba.

Alargando o fronte de guerra, os grupos de ação do ERP visaram diretamente os arsenais militares, indústrias bélicas e diversos quartéis, chegando ao cúmulo de atentarem contra a Central Nuclear de Atucha, em março de 1973. No ano seguinte, em 1974, abriram um foco de guerrilha rural na província de Tucumã. Imaginaram, no seu delírio, fundar ali um "território independente" que pudesse ser reconhecido pela ONU.

Perón de volta ao poder

Cartaz de boas vindas a Perón ( 1973)
Para não entregar o poder diretamente a Perón, os militares num primeiro momento vetaram-lhe o nome na eleição geral marcada para o dia 11 de maio de 1973. De pouco adiantou. Atendendo ao slogan "Cámpora al gobierno, Perón al poder", os argentinos foram as urnas dando vitória ao candidato da FREJULI (Frente Justicialista de Liberación), um lugar-tenente dele chamado Héctor Cámpora que recebeu 49,59% dos votos. A primeira medida do novo presidente foi fazer aprovar a lei de anistia e indulto, estendida tanto a Perón, que ainda mantinha-se na Espanha, como aos chefes do terrorismo que estavam encarcerados.

O fato deste presidente-tampão ter aberto as portas das cadeias para que vários acusados de assassinato de oficiais das forças armadas delas saíssem quase lhe custou a vida (três anos depois, por ocasião do golpe de 24 de março de 1976, Cámpora teve que se exilar na embaixada do México antes que os pelotões militares o matassem).

El Tio, como carinhosamente lhe apelidavam os peronistas, ficou apenas 49 dias no governo. Logo foi constrangido a transferi-lo para Juan Domingo Perón após uma nova rodada eleitoral na qual o velho general alcançou um percentual ainda mais impressionante de apoio: 62% dos votos foram para a chapa Perón&Perón, isto é, Juan Domingo e sua esposa Maria Estela, ou Isabelita, êmula de Eva Perón, a heroína do Movimento Justicialista falecida em 1952.

Processo eleitoral do retorno do peronismo

Data: 11/05/73 Chapa Majoritária: Héctor Cámpora-Solano Lima - 49,59% dos votos

Data: 21/09/73 Chapa Majoritária: J.D.Perón- Maria Estela de Perón 62% dos votos

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