Educação História por Voltaire Schilling Século XX
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História - Século XX
Século XX

Argentina, Ditadura e Terror

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A partir da deposição da presidente Isabel Perón pelas Forças Armadas num golpe ocorrido no dia 24 de março de 1976, a Argentina mergulhou num dos seus mais brutais e sanguinários episódios da sua história. Quando a ditadura militar, denominada de Processo de Reorganização Nacional, deu-se por encerrada em 1983 contabilizou-se o desaparecimento de mais de 8 mil pessoas de ambos os sexos, estimando-se ainda que o total de vítimas tenha alcançado um tanto mais de 30 mil civis.

Civilização e barbárie

Tempos difíceis ( gravura de R. Carpani)
Seguramente aqueles foram os sete anos mais cruéis e infelizes da vida nacional Argentina no século XX. Anos de sangue e chumbo que tornaram quase que inofensivas todas as ditaduras anteriores que o país padecera, inclusive a do tirano Rosas. O ódio que embalou militares contra a guerrilha peronista e marxista envolveu-os num carrossel de matanças movidas pelo mútuo desejo de extermínio. Violência desmedida que ultrapassou qualquer parâmetro de possível racionalidade ou compreensão, merecedora de figurar como um dos piores capítulos da história universal da infâmia. Até os nossos dias a ciência política jaz perplexa frente ao que aconteceu no mais próspero dos países latino-americanos.

Um dos aspectos mais chocantes do massacre ocorrido, tratando-se de uma nação profundamente identificada e inserida na tradição ocidental, foi o fato de que o genocídio foi levado a diante numa sociedade que se orgulhava da sua cultura e do seu notável padrão civilizatório. Buenos Aires, a Paris do Rio da Prata, por décadas, fora palco de notáveis e impressionantes apresentações de toda a ordem. Praticamente todos os grandes nomes das artes passaram por lá: do tenor italiano Enrico Caruso à dançarina norte-americana Isadora Duncan; do poeta espanhol Garcia Llorca ao escritor indiano Rabindranath Tagore. Quem foi relevante no mundo dos espetáculos e do entretenimento algum dia se fez presente no Teatro Colón ou no Luna Park.

Entre os Galões e o Sindicato

Todavia nada desse refinamento e da orgulhosa urbanidade portenha livrou-os da tragédia. O país parecia sofrer de um tipo especial de esquizofrenia fazendo com que a apurada vida cultural nada tivesse a haver com a vida política, império dos brutos. Durante quase cinqüenta anos - do golpe perpetrado em 1930 contra o presidente Yrigoyen até a retirada final do poder castrenses, na esteira da derrota na Guerra das Malvinas, ocorrida em 1982 - a Argentina viu-se envolvida num permanente confronto, quase que sem tréguas, entre a Farda (as Forças Armadas) e o Macacão de trabalho (a classe operária representada pela CTG), em meio a uma classe média atarantada.

O resultado prático disso – da intermitente guerra civil não declarada entre a oficialidade e as lideranças sindicais - é que o país foi governado naquele meio século por nada menos do que 17 generais-presidente, cabendo a cada um deles uma média de três anos de poder. O engessamento das posições ideológicas das partes em luta, o sectarismo e o radicalismo delas, fez com que o liberalismo e a tolerância praticamente desaparecessem do convívio nacional. Não deixa de ser significativo ter cabido a um egresso dos quartéis, ao coronel então Juan Domingos Perón, ter implantado um regime, proclamado Justicialista ou Peronista, voltado preferencialmente para a classe trabalhadora, que pretendia ser uma síntese entre as duas corporações em pugilo: a militar e a operária.

Peronismo como equilíbrio autoritário

Perón e Evita, desfile da posse (1951)
Durante dez anos, de 1945 a 1955, Perón e sua mulher Evita mantiveram por meios autoritários, similares aos do fascismo italiano, um equilíbrio entre a Farda, a Igreja e o Sindicato. Situação que foi mantida até que após um grave desentendimento entre o peronismo e o alto clero, a Farda, tomando as dores dos sacerdotes, derrubou o regime pelo cruento golpe deflagrado em 16 de setembro de 1955 (quase 400 peronistas foram mortos então).

A assim autodenominada Revolución Libertadora, liderada pelo general Eduardo Leonardi e, em seguida, pelo general Pedro Aramburu, deu então andamento no processo de "desperonização" do país. O novo regime, uma Junta Consultiva formada por militares e seis outros partidos políticos, ainda que de abertura democrática, tinha como meta banir para sempre o Peronismo da vida política nacional.

Refugiado primeiro no Paraguai e depois na Espanha, o general Perón ficaria por 18 anos ausente do poder. Ainda assim, o Grande Exilado continuou sendo a figura política mais influente do país. A situação ficou deveras confusa. O regime semiliberal implantado pelas Forças Armadas, ainda que promovesse a abertura política e tratasse de dar apoio aos civis, particularmente aos do Partido Radical, criara um impasse de difícil senão impossível solução. Mesmo promovendo eleições e assegurando ampla liberdade de organização partidária, os peronistas – majoritários no país - se eleitos, não podiam assumir os cargos devido ao veto militar que pesava sobre eles.

A democracia conquistada pelos argentinos em 1955, paradoxalmente excluía o maior partido de massas do país. Evidentemente que tal situação favorecia a volta da ditadura militar, vista como mais coerente no seu desejo de mantê-los bem longe de tudo. Então, em 1966, inspirados no sucesso dos militares brasileiros em 1964, as forças armadas argentinas também declaram encerrada a experiência democrática. Assumindo então o poder supremo o general Ongania que, no lugar da constituição, governou apoiado no autoritário "Estatuto de la Revolución Argentina", cujos poderes concentravam-se no general-presidente.

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