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Boris Savinkov, o último terrorista russo
O terrorista russo Boris Savinkov causava medo em quem dele se aproximava. Pálido, lúgubre, de olhar fixo sem expressar emoções, assustou até mesmo Winston Churchill com quem privou numa das tantas idas e vindas da sua vida. De certo modo, Savinkov, que se suicidou na prisão de Lubianca em Moscou, em 1925, foi o último terrorista russo no velho estilo, isto é, alguém que lança mão de uma ação sangrenta, espetacular, como método e fim político.
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Boris Savinkov (suicidou-se em 1925)
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Entre os anos de 1870 a 1920, um meio século marcado pelo declínio da monarquia czarista e pela vitória da revolução, deram-se os maiores atentados terroristas da história da Rússia. Em meio a um enorme império, um tanto europeu e um tanto asiático, dominado pela autocracia, no qual dificilmente um partido de oposição podia atuar legalmente, os atentados violentos com bombas ou com tiros passaram a fazer parte da vida política daquela época. A origem dos terroristas vinha dos Narodniks, os "populistas", um movimento clandestino formado na segunda metade do século XIX por estudantes e intelectuais que tinha como objetivo final a derrubada do Czarado e a imediata implantação de uma sociedade igualitária. De certo modo, eles representavam a contrafação da autocracia: à tirania policial do czar respondiam com o radicalismo das bombas. Eles, após sofrerem certas experiências dramáticas, haviam perdido parte da fé, tão comum entre os esquerdistas, na capacidade do povo vir algum dia poder empreender a grande façanha de derrubar o odioso regime. Afinal, não era sem razão que a Dinastia Romanov reinava há 300 sobre a Rússia. Seduziram-se então pelo "substituísmo", isto é, a crença de que se o povo não tinha condições de rebelar-se, cabia a eles, à elite revolucionária, assumir a tarefa histórica de partir para um tudo ou nada contra o autocrata. Somente a pólvora e as balas é que fariam o trono dele abalar-se e algum dia cair. Ou pelo menos os atos de bravura, pensavam, serviriam de exemplo para que a imensa plebe russa se insurgisse no futuro. Não sem motivos foi a Rússia a pátria dos ideólogos terroristas mais famosos do século XIX, entre eles Mikhail Bakunin (líder do movimento anarquista europeu quando se exilou no Ocidente) e Serguei Netchaiev, autor do "Catecismo do Revolucionário", de 1868. Sucederam-se então, sob a bandeira do Narodnaia Volia, "A Vontade do Povo", um sem fim de ataques diretos visando especialmente as figuras mais proeminentes do regime: generais, governadores, chefes-de-polícia, etc... até o próprio czar Alexandre II foi abatido por estilhaços de granadas jogadas contra ele nas proximidades do Palácio de Inverno em São Petersburgo, em 13 de março de 1881, por um comando niilista liderado por Nikolai Kibalchich, Sofia Perovskaya e Ignacy Hryniewiscki. A cada ação explosiva a reação do regime era sempre brutal. Rodadas de presos eram então condenados à katorga, o degredo na Sibéria, enquanto outros, mais perigosos, eram submetidos à severas penas de cadeia ou à forca. Todavia, nada parecia fazer dobrar o ânimo deles, fazendo com que a rotina de atentado-julgamento-desterro fosse então retomada.
Os Socialistas-Revolucionários
Na entrada do século XX, exatamente no ano de 1901, os vários grupos narodniks espalhados pela Rússia decidiram agrupar-se numa só organização política; o PSR (Partija Socialistov-Revoljucionerov, o Partido Socialista-Revolucionário), ou simplesmente SR: os Esseristas como passaram então a serem conhecidos. Fundaram-no Catherine Breshkovsky, Grigory Gershunin, Alexander Kerenski e Victor Chernov, editor de jornal e principal teórico do movimento. E, entre eles encontrava-se Boris Savinkov, estudante de leis em São Petersburgo, que logo iria fazer fama (foi durante o curso superior que ele conheceu Viacheslav Menzhinski, o futuro chefe da OGPU, que 25 depois iria tramar sua prisão). O programa do SR expunha uma dupla rejeição: a primeira evidentemente era contra o czar e o seu regime, opressor do povo simples da Rússia; a segunda era contra a chegada do capitalismo na Rússia. Para os SR os principais beneficiados da queda do regime teriam que ser os camponeses, majoritários na Rússia. Eles é quem formariam uma nova organização social - substituta da feudal ainda predominante na Rússia - tendo como base a antiga comunidade rural, o Mir, a qual eles entendiam ser o embrião da sociedade socialista futura. Logo os Esseristas se opuseram aos Sociais-Democratas, partido fundado em Londres, em 1903, por Vladimir Lenin e Julius Martov, com um claro programa marxista que privilegiava o movimento operário e não o camponês, como igualmente manifestava severas críticas ao terrorismo, considerado ineficaz. Lênin, por igual, defendera ser perda de tempo opor-se ao capitalismo na Rússia visto que ele já estava lá (para provar sua tese ele publicara O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia, escrita em 1899, durante o desterro na Sibéria).
O assassinato dos ministros do czar
A divisão entre os esseristas e os marxistas da social-democracia ficou mais evidente durante os eventos da Revolução de 1905, deflagrada após o terrível incidente do Domingo Sangrento (ocasião em que a guarda cossaca disparou sobre uma multidão de trabalhadores em São Petersburgo), que provocou um alçamento geral no império. Enquanto Lenin e Trotski propunham uma ação de massas, os esseristas não desistiram das suas ações diretas, disparando contra os figurões do regime czarista. Chegara então o momento de Boris Victorovich Savinkov (ou V. Robsin, codinome com o qual era conhecido no meio clandestino), chefe do pelotão dos terroristas da SR. Em 1904 ele atentou com sucesso contra a vida de Viacheslav K. Plehve, o poderoso ministro ultraconservador, e quase que em seguida, em 1905, abateu o Grão-Duque Sergei Aleksandrovich, nada menos do que o tio do czar e que na ocasião exercia o comando de governador-geral de Moscou. Dois atentados que lhe renderam fama de homem destemido e indiscutida coragem. Preso, Savinkov foi enviado para um cárcere em Odessa, no sul da Rússia, de onde conseguiu escapar milagrosamente para o Ocidente. Não demorou a que, fracassada a revolução de 1905, muitos outros lideres também o acompanhassem no exílio. Usufruindo uma inédita situação de tranqüilidade, Savinkov decidiu-se pela publicação de uma memória: "O cavalo pálido: lembranças de um terrorista", surgida em 1909, que nada mais foi senão que um relato autobiográfico das ações dele. Livro que teria enormes repercussões no mundo das letras, servido depois como estímulo tanto a André Malraux (Os Conquistadores, 1928) como a Albert Camus (O Homem Revoltado, 1951). Nele, Savinkov confessou-se influenciado tanto pelos Demônios, famosa novela anti-revolucionária de Dostoievski, como pelos delírios de Nietzsche sobre o super-homem: o niilista destruidor das estruturas sociais arcaicas. A paixão dele por ação era tamanha que, por ocasião da eclosão da Primeira Guerra Mundial, estando ele em Paris, apresentou-se como voluntário para ir combater os alemães nas trincheiras. Atitude que o colocou contra a maioria dos emigrados russos que eram frontalmente contra a "Guerra Imperialista" e que haviam sido presos pelo governo francês exatamente por isso.
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