Educação História por Voltaire Schilling Século XX
Boletim
Receba as novidades no seu e-mail!
Fale conosco
. Envie releases
. Mande críticas, dúvidas e sugestões
EducaRede
Entre no portal da escola pública
História - Século XX
SÉCULO XX

Os atentados de agosto de 1918

Leia mais
» A Revolução Russa e o Terror Vermelho
» Crise de consciência
» Os atentados de agosto de 1918
» A expressão gélida
 
Justamente naqueles dois meses quando Félix Dzerzinski estava licenciado para fazer um secretíssimo tratamento de saúde no exterior, entre julho e agosto, é que dois atentados cometidos bem próximos um do outro, fizeram a CHEKA ir à loucura. Quase todos os testemunhos são unânimes em assegurar que naqueles primeiros sete meses de existência a organização não havia executado ninguém. Pois a hora das matanças começou então a soar.

O primeiro deles, ocorrido no começo de agosto de 1918, vitimou Moisés Uritski, um ex-menchevique como Trotski que entrara para o partido de Lenin, e depois para a CHEKA, e que assumira a função de supervisor geral em Petrogrado. Quem deu-lhe o tiro fatal fora um jovem estudante, militante do partido SR (Socialista-Revolucionário), um esserista como diziam, chamado Kannegiesser. Compreensivelmente os colegas e subordinados de Uritski acusaram o ataque como se fosse diretamente orientado contra a polícia política.

O segundo atentado, ocorrido no dia 30 de agosto de 1918, teve o próprio Lênin como alvo. Novamente fora um esserista quem disparou. Desta vez as balas partiram de uma militante muito conhecida nas fileiras dos revolucionários: Fanny Kaplan (anos antes ela fora encarcerada pelo regime czarista).

Desde que Lenin determinara o fechamento da Assembléia Constituinte, em janeiro de 1918, na qual os socialistas-revolucionários tinham substancial representação, ela jurara matar o líder dos bolcheviques. Parece que também pesou na decisão dela as insultantes condições de paz do Tratado de Brest-Litovsk, acordado em 6 de março, que Lênin aceitara da Alemanha Guilhermina, o que para muitos russos cheirava a traição à pátria e parecia confirmar a história do trem lacrado. (*)

(*) No começo de abril de 1917, o Ministro do Exterior do IIº Reich organizara as pressas a viagem de um trem lacrado, cruzando pelo território alemão, levando 27 exilados russos que estavam na Suíça durante o período da guerra, com Lênin entre eles, para que logo chegassem na Rússia e provocassem tumultos para retirar o pais da guerra.

Tiros contra Lênin

Fanny Kaplan, atirou contra Lenin, em 1918
No momento em que Lênin saiu de um comício realizado numa fábrica em Moscou, ela disparou-lhe três tiros no instante em que ele se voltou para atendê-la. Uma das balas acertou-o no ombro, mas a outra atingiu-lhe o pulmão. Lênin foi levado as pressas para ser atendido. Sobreviveria. A noticia chegou como um raio na sede da CHEKA. De longe, das beiras do rio Volga, em Tsaritsin onde estava, Josef Stalin enviou-lhes um telegrama exigindo medidas extraordinárias: nada menos do que uma declaração de "aberto e sistemático terror em massa" contra os responsáveis.

Para açular ainda mais a fúria dos chekistas, eles haviam descoberto um complô organizado pelo SIS, o Serviço Secreto de Inteligência britânico, antecessor do M16, arquitetado pelos espiões Robert Bruce Lockhart e Sidney Reilly, atuando na Rússia, para ser acionado no momento em que o líder da revolução estivesse presente no Teatro Bolchoi, em Moscou, para um comício a ser lá realizado no dia 6 de setembro. Previam o seqüestro dele seguido do seu assassinato. Operação cancelada porque Fanny Kaplan se adiantou a eles.

Naquele momento, no verão de 1918, de todos os lados acossavam a revolução bolchevique: os contra-revolucionários "brancos", os agentes estrangeiros e, por fim, os socialistas da extrema-esquerda. Os bolcheviques, tais como feras acuadas com olhos inflamados, então lançaram mão das garras e dos dentes afiados da CHEKA.

O terror vermelho

Chekistas em ação
Os conhecidos militantes do partido Socialista-Revolucionários, em Petrogrado e Moscou, foram logo presos aos magotes. Agentes da CHEKA, em geral trajados com casacos negros de couro, com um gorro pontudo na cabeça, cercavam a quadra e invadiam os apartamentos atrás deles. Eram então levados em caminhões às aforas da cidade e por lá mesmo, sem passarem por qualquer tipo de tribunal ou vestígio sequer de procedimento judicial, eram fuzilados. A norma era o tiro no pescoço, tal como correu também com Fanny Kaplan. Nos bosques ao redor de Petersburgo e de Moscou, os chekistas previamente preparavam enormes valas nas clareiras para poderem enterrar a enorme quantidade de gente executada.

Outros ainda, antes de sofrerem o mesmo destino, eram arrastados aos porões da CHEKA onde sofriam brutais interrogatórios, como foi o caso de Maria Spiridinova, uma lendária ativista do SRs, que depois morreu na Sibéria. Neste trabalho destacou-se "o pequeno Peters", que ficou com fama de torturador.

Calcula-se que na primeira investida foram fuzilados sem nenhuma acusação formal, mais de 800 socialistas das mais diversas facções não-bolcheviques. Nem o regime do czar havia agido assim de modo tão implacável contra seus inimigos. No total, na Rússia inteira, estimou-se em 6.300 o número de mortos naquela primeira fornada do Terror Vermelho.

As deportações, por sua vez, arrebanharam, além dos SRs, os integrantes do partido Kadete (Constitucional-democratas), dos Mencheviques e dos Nacionalistas. Quando Gorki procurou interceder por eles, principalmente pelos escritores, Lenin respondeu-lhe que preferia manter " intelectuais por alguns dias nas prisões ou mesmo semanas justamente para prevenir o massacre de milhares de trabalhadores e camponeses". Lembre-se, ponderou ele ao escritor, do que você me disse certa vez em Capri: "Nós artistas somos gente irresponsável."

página anterior      próxima página
Veja todos os artigos | Voltar