|
A expressão gélida
Uma jornalista que conhecera Peters antes da repressão tornar-se rotineira, observou as mudanças fisionômicas porque ele passara. Tornara-se um burocrata pálido, de olhar vítreo, sem nenhuma expressão que não fosse a fria determinação em esmagar a contra-revolução. Ele que, no passado, assemelhara-se a gentleman inglês, depois dos fuzilamentos em série assumira os ares soturnos de um carrasco. O mesmo tipo de transformação psicológica e facial que teria sofrido Dzerzinski, afinal um homem vindo da intelligentsia, um ex-professor de literatura. Numa das raras vezes em que o chefe da CHEKA teria ingerido vodka além da conta (ele tinha ojeriza a bêbados), por ocasião da celebração da entrada do ano novo, ele teria dito a um Lênin estupefato: "Eu fiz por espirrar tanto sangue que eu não tenho mais direito de viver. Você precisa me fuzilar agora." Mal sabia ele que aquilo era apenas o começo da longa jornada de práticas de matanças que a revolução, convertida em Estado Soviético, iria cometer pelas décadas seguintes. Ana Akhmatova, a grande poetisa lírica russa, cujo marido, o poeta Gumilev seria fuzilado em 1921, registrou então o pavor que tomou conta da população: “Foi quando apenas os mortos/Sorriam, satisfeitos com a paz/ Como um bracelete inútil/Leningrado balançava/ Em torno de suas prisões.....concluindo depois no poema Réquiem: "As estrelas da morte permanecem sobre nós/Enquanto a inocente Rússia se contorce/por baixo de botas ensangüentadas..."[ versos extraídos do livro de São Petersburgo: uma história Cultural,Record, 1997] .
Bernard Bromage, Bernard - "Man of Terror: Dzerzhinsky". Londres: Peter Owen Publishers, 1956.
Conquest, Robert - The Great Terror: Stalin's Purge of the Thirties. Nova York: The Macmillan Company, 1968.
Hingley, Ronald - "The Russian Secret Service: Muscovite, Imperial Russian and Soviet Political Security Operations, 1565-1970". Londres:Hutchinson, 1970.
Leggett, George - "The Cheka: Lenin's Political Police" Nova York: Oxford University Press, 1981.
|