|
Nas tenazes da guerra fria
A Era da Letargia européia deu seus primeiros passos em 1945, ocasião em que os exércitos americanos e soviéticos lançaram suas tenazes de ferro e aço sobre Berlim. A Velha Europa sucumbia então pela presença em seu solo de dois dos seus projetos, pois tanto os Estados Unidos como a URSS foram criaturas diferentes da mesma matriz – o idealismo europeu. Se os americanos haviam sido modelados pelo Contrato Social de Rousseau, os soviéticos o foram pelo Manifesto Comunista de Marx, ambos, o pensador francês e o revolucionário alemão, agentes da Europa “mãe das revoluções”, como a denominou Friedrich Herr (Europe: Mutter der Revolutionen, 1964). Desde então, prostrado pela Guerra de 1939-45, o Velho Continente viu-se ocupado por duas das suas criaturas que atuaram por meio século sobre ele como um tipo de camisa-de-força, mantendo-o bem firme com as mangas puxadas e amarradas às costas para que não cometesse nenhum outro desatino. Justo quem por tantas vezes patrocinara Cruzadas (pelo cristianismo, pelo progresso e pela civilização) passou a ser alvo também de uma Cruzada. Aquela embandeirada pela coligação democrático-comunista contra o nazi-fascismo (*). Como não podia deixar de ser, a soberba e o orgulho dos europeus sofreu um rude golpe com tal situação de tutelamento, inusitada na história deles. Habituados por séculos a verem o mundo estendido aos seus pés, a dar ordens em todas as longitudes, tiveram o seu território ocupado pelas duas superpotências estrangeiras. Com isso, enfatizou Sloterdjik, perderam para sempre a “pretensão à cruzada civilizatória”. “Condenados à liberdade”, ainda que numa situação parecida com a dos semi-colonizados, os europeus buscaram desenvolver “ideologias vazias”, cuja única função era encontrar explicações para a situação de crescente marginalidade que passaram a sofrer frente as questões maiores do mundo, constrangidos a viverem sem “nenhuma missão inspiradora, nenhuma tarefa objetiva”. De certa forma, o europeu tornou-se um “Homem sem Mundo” (título do livro de Günther Andres Mensch ohne Welt, de 1993). Superada a fase existencialista dos primeiros anos do após-guerra, o período Heidegger-Sartre, mergulharam os europeus no doce cosmo da futilidade decorrente do consumismo desatinado. Agravada ainda pela consciência de serem os alvos primeiros de uma conflagração nuclear coisa que tornava a vida e o desejo deles como absolutamente supérfluos. Foram possuídos, como conseqüência disso, por um “espírito de aniquilação do tempo” no qual “a falta de seriedade foi erigida em estilo de vida”. A Europa, outrora “teatro de metamorfoses imperiais”, pela primeira vez em séculos tornou-se desimportante vendo suas artes projetando “imagens do mundo para pessoas ausentes, desprovidas de um mundo e perdidas em signos estéreis”, enquanto seus políticos maiores “tomavam férias das obrigações da grande política”. O carisma imperial que ela mantivera por séculos foi transferido definitivamente para os Estados Unidos da América que , desde a presidência Wilson, reafirmada pela presidência Roosevelt, assumiu frente ao mundo o papel da antiga Roma. (*) significativo disso é que o livro de memórias de guerra do general D. Eisenhower tivesse justamente o titulo de “Cruzada na Europa”.
Entre o passado e o futuro
|
|
|
|
P.Sloterdijk, o filósofo pairando sobe as massas (caricatura)
|
De certo modo a União Européia, gerada na Era da Letargia, é uma espécie de compensação pelo abandono das intenções imperiais do Velho Mundo. Uma volta ao passado Carolíngeo dos tempos da unidade franco-germana, abençoada pelo catolicismo do papado. Uma fuga para trás para superar o torpor em que a Europa fora delegada num mundo dividido entre EUA e URSS, que se materializou na constituição de um Corpo Político controlado por 8 mil burocratas sediados em Bruxelas. Todavia, este ato deve vir acompanhado pelo repúdio à “idéia de império”, formando uma federação cujo papel principal será fornecer uma “camada intermediária” entre os diversos estados-nacionais e as organizações que compõe a ONU. Precisa acima de tudo, como observou o historiador Jacques le Goff, “inventar uma nova forma de unidade que não a de um império”, repudiando com firmeza a velha crença herdada da teologia judaica de serem eles, os europeus, um povo escolhido. Talvez a Europa devesse retomar a bandeira das revoltas “ contra o sofrimento humano”, atuando no panorama internacional como uma vanguarda defensora do humanismo e não como uma das partes da tão propalada guerra econômica a ser travada entre os EUA, Japão e ela. Os europeus não devem temer o futuro como se tivessem pela frente “um catálogo de misérias” nem deixar-se ir a guerra embalados pela retórica norte-americana do “eixo-do-mal”, mas como um grande desafio a ser vencido por eles coletivamente. O site recomenda a leitura de: Friedrich Heer – Europa, madre de las revoluciones. Madri. Editorial Alianza, 1980, 2 v. Peter Sloterdijk – Se a Europa despertar. São Paulo: Estação Liberdade, 2002.
|