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História - Século XX
SÉCULO XX

Japão contra China: o massacre de Nanquim

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Japão contra China
» O massacre de Nanquim
» A grande matança
 
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, ciclicamente os chineses manifestam nas ruas o seu profundo descontentamento com o Japão. Reclamam, no geral, que os japoneses até hoje não manifestaram a eles as devidas desculpas pela invasão de 1937, ocorrida durante a IIª Guerra Sino-japonesa (1937-1945).

Queixam-se ainda de que o governo nipônico, ao editar os manuais escolares para os seus estudantes, procura esconder ou minimizar a responsabilidade do exército do Sol Nascente nas inúmeras atrocidades cometidas contra a população civil naquela ocasião. Particularmente omitindo-se sobre o Massacre de Nanquim, ocorrido na ex-capital da China Nacionalista entre de dezembro de 1937 e fevereiro de 1938.

Antecedentes do massacre de Nanquim

Execução de um prisioneiro chinês
Um conflito entre soldados japoneses e chineses, ocorrido na cidade de Tsientsin, no verão de 1937, exatamente num local denominado de Ponte de Marco Polo, serviu como pretexto para que o Império do Sol Nascente desencadeasse uma guerra de agressão à República da China, na época sob a ditadura do marechal Chiang Kai-shek, líder do Kuomintang (Partido Nacionalista). Fazia tempo que os nipônicos se esparramavam para as proximidades da China central. Desde 1885, quando dividiram com Pequim o controle sobre a península coreana, eles não paravam de arrancar pedaços do antigo Império do Centro, então em contínua decadência.

No final da Primeira Guerra Sino-japonesa, o Japão vitorioso, pelo Tratado de Shimonosequi, de 1894, além de forçar uma vultuosa indenização (200 milhões de taels), obrigou o imperador chinês a entregar-lhe o controle das ilhas de Taiwan (Formosa), dos Pescadores e a região de Liaodong na Manchúria. Em maio de 1905 foi a vez do Império Russo, derrotado na batalha naval de Tsushima pelo almirante Togo, ter que ceder Port Arthur (situado numa baia chinesa) aos japoneses.

Quer dizer, bem antes do ataque de 1937, o Império do Sol Nascente já exercia sua soberania sobre extensas áreas do sudeste e do nordeste da China. Um tanto antes, em julho de 1931, a pretexto de um conflito ferroviário – o Incidente de Mukden - os nipônicos transformaram toda a Manchúria num estado títere: o Manchuquo (colocando no poder como seu governante-fantoche o ex-imperador chinês Pu Yi, antes destronado pelo movimento republicano de 1911, e que aceitou o título de “executivo-chefe”).

Assim, pode-se dizer que a invasão de 1937, iniciada em 7 de julho, foi o resultado lógico de uma política crescentemente expansionista que mobilizava o governo de Tóquio desde os finais do século 19. Todavia, para os estrategistas do estado-maior nipônico, a guerra contra a China tinha que ser rápida. As enormes extensões do país (9.583 mil km²) e sua imensa população só poderiam ser submetidas por meio de uma manobra relâmpago que sufocasse instantaneamente qualquer possível resistência. Para tanto, para submeter de vez os chineses e fazer o regime do general nacionalista Chiang Kai-shek capitular, era preciso executar uma demonstração exemplar da determinação dos invasores: uma operação de choque e pavor que fizesse a China inteira tremer diante da bandeira guerreira do Sol Nascente e dos seus soldados-samurais.

De Xangai a Nanquim

Para encurtar a guerra, os estrategistas de Tóquio executaram um plano de desembarque, vindo do mar da China, que tinha como meta um ataque direto ao coração da nação: a região que abarca a importantíssima Xangai, situada na beira do mar, até a cidade-capital de Nanquim localizada mais adentro, na margem direita do rio Yangtse. Dominando o eixo Xangai-Nanquim, numa só grande operação militar, o Japão submeteria o principal porto da China como também sua sede política. Controlando a embocadura do Yangtse (5.525 km de extensão), toda a economia do interior da China capitularia frente aos invasores. Com a posse do coração (Nanquim) supunham que a cabeça (Pequim) e os pés da China (Cantão) seriam reduzidos à inércia.

Ainda assim, iniciada em novembro de 1937, não foi fácil a ocupação de Xangai. A previsão inicial de que os chineses não resistiriam mais do que três meses não se confirmou. Apesar de inferiores em equipamento e treinamento, os defensores ofereceram uma inesperada barreira à força expedicionária japonesa, lutando de casa em casa na grande cidade portuária. Tomado o porto naquele mesmo mês de 1937, os nipônicos destacaram então três grandes colunas militares para avançarem para o interior para irem submeter Nanquim.

Pelo norte, marchando pelas margens do rio Yangtse, partiu a 16ª divisão comandada pelo tenente-general Nagajima Kesago. Pelo centro, seguindo na direção da estrada de ferro Xangai-Suzhow-Zangzhou-Tanyang-Nanquim, partiram as divisões 9ª, 10ª e 13ª, lideradas pelo general Matsui Iwane, e, por último, seguindo mais ao sul, apressavam-se as divisões 6ª, 18ª e 114ª, obedientes ao general Yanagawa Heisuke, cuja função era ocupar a estação ferroviária de Wuhu, bloqueando assim qualquer possibilidade da capital receber algum reforço vindo do sul. Não demorou para o tridente nipônico formado pelos generais Nakajima-Matsui-Yanagawa cercasse os muros da velha cidade que fora outrora uma das sagradas capitais imperais do Reino Celestial.

No comando geral da conquista de Nanquim, o imperador Hirohito nomeou no dia 7 de dezembro de 1937 um tio seu, o principe Asaka Yasuhiko (que havia se atritado com a casa real num incidente grave de insubordinação militar ocorrido em Tóquio , em 1936). Este, desejoso de mostra fidelidade, quis deixar sua marca de samurai implacável na luta contra os inimigos de Hirohito. Entrementes, o enorme exército chinês, calculado em 300 mil homens muito mal comandados, que tinha a função de proteger a capital, pareceu ter perdido o espírito de combate que um pouco antes alguns regimentos haviam demonstrado na defesa de Xangai.

Negociações tiveram inicio entre os emissários japoneses e os comandantes chineses que optaram pela capitulação. Mal sabiam eles que estava assinado a sentença de morte que logo seria executada sobre a massa dos pobres soldados capturados. Os militares nipônicos, educados na cultura do bushidô, a ética do guerreiro que os obrigava a lutar até a morte, desprezaram o inimigo que entregou-se a eles sem maiores esforços. Porque, indagaram eles, os recrutas chineses não sangravam até o fim, porque decidiram render-se às levas sem esboçar qualquer reação mais séria?

Milhares de chineses, cada um deles tendo um trapo branco a mão, acorriam às linhas dos inimigos para prostrarem-se frente aos pelotões japoneses. Meia dúzia deles controlava centenas e centenas de rendidos. Repugnou aos vencedores “estarem lutando contra aqueles escravos ignorantes”, identificados apenas pela sua covardia coletiva.

A decisão sobre o que fazer deles, reduzidos então a uma manada passiva que perdera totalmente a capacidade de reagir, não tardou: os prisioneiros chineses deviam ser mortos. Todos eles! A ordem que partiu do quartel-general do principe Asaka, no dia 13 de dezembro de 1937, determinou ao comando do 66º batalhão: “Todos os prisioneiros de guerra devem sem executados pelo seguinte método: dividam os prisioneiros em grupos de dúzias e fuzilem-nos separadamente...as execuções devem começar às 5h e devem ser encerradas às 7h30m” (Iris Chang “The rape of Nanking, pag. 41).

Duas razões os levaram aquela terrível decisão: não serem detidos na ofensiva por aquela multidão sem fim de gente a quem teriam que vigiar e alimentar e não permitir que eles, em caso de desmobilização, se transformassem em guerrilheiros acossando a retaguarda japonesa em movimento.

Teriam também entrado em ação, - como elemento psicológico que contribuiu para a fúria homicida que se seguiu - ódios mais profundos, de antigas desavenças e rancores culturais que opunham por séculos os dois grandes povos asiáticos. Fator este que colaborou para que os generais invasores planejassem uma humilhação completa, arrasadora do que restara da fibra chinesa, tendo como alvo da demonstração a população da histórica Nanquim. Seja lá o que for, o alto-comando japonês chefiado então pelo principe Asaka foi o responsável único pelo massacre que se seguiu.

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