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História - Século XX
SÉCULO XX

A grande matança

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Japão contra China
» O massacre de Nanquim
» A grande matança
 
Um dos locais escolhidos para as execuções em massa que se seguiram foi o Montanha Mufu, situada ao norte de Nanquim que serviu de palco para a morte de 57 mil soldados e civis. Quando os demais soldados chineses ainda vivos perceberam qual seria o destino deles, trataram de abandonar seus uniformes buscando refugiar-se dentro da cidade. Esperavam misturar-se à multidão de civis que de algum modo tentava escapar para a outra margem do rio Yangtse. Isto serviu de pretexto para que as tropas de ocupação realizassem caçadas-monstro pelos bairros de Nanquim atrás deles, detendo e fuzilando na hora quem lhes parecia um ex-soldado fugitivo.

Os japoneses então se descontrolaram. A indiferença dos oficiais pelo destino dos civis açulou os instintos mais baixos da soldadesca. Milhares de mulheres chinesas foram então violentadas e mortas a tiros ou a golpes de baionetas em caso de resistência. Os pelotões de extermínio armados de metralhadoras concentravam suas vítimas – geralmente ex-soldados que haviam debandado - num determinado local, preferencialmente junto aos velhos muros da cidade, e abriam fogo.

Aos que ainda agonizavam, um certeiro golpe de lâmina punha fim aos seus tormentos. Poucos dos chineses que tentaram atravessar o rio Yangtse para a margem esquerda tiveram sucesso devido as correntezas traiçoeiras. Não demorou para que as suas margens acolhessem pilhas de mortos, como deu-se em Hsiakwan, um embarcadouro ao norte de Nanquim.

Latões de óleo ou de querosene eram então derramados sobre os montes de cadáveres enchendo os céus da cidade com aquela fumaça preta e com um fortíssimo odor de carne carbonizada. Exemplo de um dos tantos desmandos foi a noticia publicada num jornal de Tóquio, o Japan Adviser, de 7 de dezembro de 1937, que registrou haver uma competição entre dois decepadores de cabeças. Eram eles os suboficiais Mukai e Noda, que apostaram qual deles alcançaria a primeira centena de cabeças de prisioneiros decapitados: um deles celebrou 106 e o outro 105.

Assinale-se em honra das melhores tradições do exército imperial nipônico que tudo isso foi cometido aproveitando-se do afastamento temporário do general Matsui, que ficara um bom tempo acamado vítima da tuberculose. Quando ele recuperou-se o suficiente para celebrar com suas tropas a vitória sobre Nanquim, aos gritos de Banzai! Banzai! , numa parada militar realizada no dia 17 de dezembro de 1937, é que ele tomou conhecimento da extensão da matança. Não deixou então de repreender seus generais e demais oficiais pela atitude conivente com aquele horror.

Mas naquela altura o furor homicida da soldadesca adquirira uma dinâmica própria e o roteiro de roubos, saques, torturas, raptos e estupros seguidos de assassinatos teve continuidade ainda por seis semanas, estendendo-se de 13 de dezembro de 1937 até os finais fevereiro de 1938. Os japoneses, como se fossem uma matilha de lobos famintos e desordeiros, percorriam as ruelas e praças da cidade em bandos de seis a doze soldados, disparando ou trespassando a quem quisessem ou desejassem.

O segundo-tenente Tominaga Shozo espantou-se como os seus comandados, antes com ares de inocência, num zás se transformaram em máquinas de matar. Assustou-se com “os olhos maus deles”. Eles não tinham olhos humanos, mas sim “os olhos de leopardos ou de tigres” (Iris Chang, Op.cit. p. 57).

O número das vítimas do Massacre de Nanquim, como não poderia deixar de ser, é controverso. A população da capital naquela oportunidade, inflada com a chegada dos fugitivos e dos soldados em debandada, provavelmente oscilava entre 630 a 700 mil pessoas. Os pesquisadores chineses apontam as vítimas entre 260 a 300 mil; os japoneses por seu lado, quando aceitam ter havido um massacre, reduziram-nas para 38 ou 42 mil (*). Os estrangeiros que lá estavam, europeus e americanos, indicaram de 40 a 50 mil mortos. A Chun Shan Tang, uma antiga e honorável sociedade caritativa chinesa, por sua parte, contabilizou os sepultados em 112.267 corpos.

(*) No Qin-Hua Rijun Nanjing, o memorial erguido em Nanquim em homenagem aos caídos, esta gravado na pedra externa a cifra de 300.000! Todavia alguns indicam que este teria sido o total de baixas fatais chinesas apresentados pelo marechal Chiang Kai-shek desde o começo da invasão do país, ocorrida cinco meses antes do massacre. Quando se realizou o Tribunal dos Crimes de Guerra de Nanquim, em 1947, durante o julgamento do tenente-general Tani Hisao, comandante da 6ª divisão, concluiu-se que 190 mil haviam sido executados ilegalmente em operações de liquidação em massa e outros tantos 150 mil foram mortos individualmente (The Nanking Atrocities).

A zona de salvação

A Comissão Internacional que salvou milhares de chineses (J.Rabe está no centro)
Em meio aquela verdadeira catástrofe humana que se transformara a ocupação militar de Nanquim, coube a um pequeno grupo denodado de estrangeiros, europeus e americanos, liderados por Johannes Rabe, o diretor geral da empresa Siemens China Company, uma corporação alemã responsável pelo sistema elétrico e telefônico da capital, assegurar um santuário para a população civil. Criaram eles uma Zona de Segurança numa área próxima à Universidade de Nanquim, onde também estavam o Colégio Feminino Ginling, a embaixada americana e a outros prédios público chineses.

Rabe, na ocasião com 55 anos, que também era representante do partido nazista junto ao govenro de Chang Kai-shek, procurou assegurar-se junto ao comando japonês que aquele território neutro não seria violado pelas tropas invasoras, servindo apenas como um refúgio humanitário para as massas foragidas, cada vez mais desesperadas com o desencadear da tragédia (Rabe, numa carta a Hitler, datada de 27 de novembro, chegou a pedir a intervenção pessoal do ditador alemão em favor do respeito dos japoneses à Zona de Segurança, aberta exclusivamente para os que não estavam envolvidos nas batalhas).

Não demorou para que o local acolhesse uma onda humana de 250 mil pessoas apavoradas com o bombardeio japonês da cidade, o que obrigou a que os integrantes do Comitê Internacional de Nanquim despendessem esforços gigantescos no sentido de garantir-lhes as condições mínimas de sobrevivência, com alimentação e higiene adequadas. A multidão, agradecida por estar viva, espalhou-se por tudo. Famílias inteiras dormiam ao relento naquelas noites frias de dezembro, enquanto os prédios da Zona de Segurança logo se transformaram em superlotados formigueiros humanos. Para abastecê-los com arroz e farinha foram necessárias várias e complicadas operações de transporte, nas quais o próprio Rabe cedeu o seu automóvel.

Não só isso, aproveitando-se do fato da Alemanha nazista ser aliada do Japão, ele começou a circular pelas ruas de Nanquim ocupada para evitar que os soldados cometessem atrocidades ainda maiores. Para deter as baionetas e as pistolas dos nipônicos, apontadas e engatilhadas contra os civis chineses, Rabe recorria à suástica, a cruz nazista que trazia na braçadeira (provavelmente foi um dos raros, raríssimos casos em que o símbolo nazista serviu para impedir uma brutalidade e não para cometê-la ou referendá-la). Esta foi uma das razões que a escritora chinesa Iris Chang denominou Johannes Rabe como “o Oskar Schindler da China” (I. Chang, Op.cit. p. 109). A Comissão Internacional que salvou milhares de chineses (J.Rabe está no centro)

O pomo da discórdia

Desde então, desde o pavoroso Massacre de Nanquim, também chamado de o Estupro de Nanquim, tal episódio tem sido o principal pomo da discórdia que tem protelado uma aproximação mais intensa entre chineses e japoneses. Para a China o corrido assumiu a mesma dimensão trágica da explosão das bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroxima e Nagasaqui. Daí entender-se a insistência das autoridades de Pequim em acentuarem o número dos em 300 mil mortos (que seria superior às vitimas nipônicas do bombardeio nuclear de 1945).

A Segunda Guerra Mundial já encerrou-se há muito tempo mas o desacerto entre Pequim e Tóquio volta e meia alcança as manchetes dos jornais, chamando a atenção da mídia internacional, devido à fúria dos chineses irritados com a arrogância japonesa em não lhes pedir sinceras desculpas. Sempre se mostram exasperados com as inúmeras meias-confissões das autoridades nipônicas que nunca lhes parecem ser autênticas, “do coração”. Para muitos japoneses, como foi o caso de então Ministro da Justiça Nagano Shigeto, a Guerra na Ásia (1937-1945), que envolveu a ocupação da China, foi travada para libertar o continente do colonialismo euro-americano, sendo assim justificável uma ou outra operação desastrada.

Outros simplesmente negam ter havido o Massacre de Nanquim, nada mais sendo do que uma montagem, uma “fabricação contra a honra do Japão”. Além por igual que nenhum país do mundo expõe aos seus estudantes as coisas negativas que ocorreram no passado. Porque haveria de ser o Japão o único a fazê-lo?

O site recomenda a leitura de:

Chang, Iris - The Rape of Nanking: the forgotten holocaust of World War II. Nova York: Penguin Books, 1997.

Rabe, John. - The Good Man of Nanking : The Diaries of John Rabe. Nova York: Alfred A. Knope, Inc. 1998.

Spence, Jonathan D. - Em busca da China Moderna: quatro séculos de História. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

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