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João Paulo II, das catacumbas ao Vaticano
A trajetória do padre Karol Wojtyla, falecido no dia 2 de abril de 2005, é uma das mais extraordinárias histórias individuais da aventura humana recente. Alçado ao trono de São Pedro no ano de 1978, em pouco tempo, graças ao seu vigor, energia, e inquestionável carisma, ele transformou-se numa espécie de Imperador Espiritual do Ocidente, restaurando e ampliando o prestígio da Santa Sé praticamente em todos os cantos da Terra.
Uma Igreja das catacumbas
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Papa João Paulo II (1920-2005)
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Do mesmo modo que as antigas comunidades cristãs sentiam-se ameaçadas e escorraçadas frente à Roma Imperial – perseguidas e submetidas à vigilância – assim via-se a igreja católica polonesa perante o impressionante poder do Império Soviético. Por isso dizia-se que os cristãos da Polônia viviam numa situação similar aos seguidores de Jesus na época de Nero ou de Diocleciano, isto é, tinham que refugiar-se nas catacumbas para poderem cultivar a sua fé. Era lá, em meio ao tétrico depósito dos mortos que os seguidores da Cruz mantinham viva a chama do cristianismo. Os poloneses por sua vez buscaram o seu abrigo nos mosteiros e nos templos católicos do seu País, verdadeiro oásis espirituais que os consolavam e ajudavam a suportar a humilhação de viverem num país eternamente ocupado pelos impérios estrangeiros.
Catolicismo e nacionalismo
A história do catolicismo na Polônia, que começou com a conversão do duque Micislau em 966, tem características muito singulares: a mais visível é a sua total identificação com a nacionalidade polonesa. Quer dizer, ser polonês é ser católico. Na concepção da população alguém lá nascido que se diz de fé luterana ou cristã ortodoxa não é considerado um polonês. Ao contrário, é visto como um traidor em potencial, alguém que aderiu à religião dos tradicionais opressores nacionais da Polônia: os alemães (ao oeste) e os russo (no leste). E isso se explica - a simbiose entre a confissão religiosa e a nacionalidade - porque o país foi invadido e partilhado entre os seus vizinhos em 1795-1918 (pela Prússia, Rússia e Áustria) e novamente em 1939-1945 (pela Alemanha Nazista e a URSS) fazendo com que a Polônia se transformasse numa nação martirizada, devastada e traumatizada pelas ocupações estrangeiras. Quando seus poderosos vizinhos estavam em paz entre si dividiam-na entre eles, quando se desentendiam, transformavam os campos poloneses em zona de guerra. Ao longo do tempo a Polônia perdia na paz e na guerra! O catolicismo, nessas circunstâncias, serviu-lhe de amparo psicológico e refúgio espiritual para poder suportar as agruras de um destino infeliz. Um escudo moral da resistência contra a opressão. A Segunda Guerra Mundial foi catastrófica para o país. Em 1939 a Polônia viu-se invadida pelos nazistas e pelos stalinistas, que dividiram-na entre si (¾ para Hitler e ¼ para a Stalin). Por ser fronte de guerra a sua população foi ainda mais devastada quando os aliados de 1939, nazistas e stalinistas, fizeram-na campo de batalha final. Em outubro 1944, sua capital Varsóvia foi inteiramente destruída pelo exército nazista por ter ousado apoiar o levante armado do general Bor-Komorówski líder do Armia Krajowa (Exército Interior). Milhares de poloneses pereceram na repressão que se seguiu (200 mil civis e 18 mil milicianos do AK morreram em decorrência da repressão). Estima-se, por igual, que mais de cinco milhões de seus cidadãos ( judeus e não-judeus) foram mortos nos vários campos de extermínio construídos pelos nazistas (Auschwitz-Birkenau, Treblinka, Maidaneck, etc...). Libertados pelos exércitos vermelhos que por fim chegaram à capital, os poloneses caíram na órbita soviética pelos 45 anos seguintes. A Polônia de então, com a descoberta dos campos de extermínio, lembrava um matadouro a céu aberto, o país todo era uma ruína só, reduzido ao desespero de uma nova ocupação. A terra revirada, esburacada e calcinada da Polônia não passava de uma grande catacumba!
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