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História - Século XX
SÉCULO XX

Contra a Bomba H: o Manifesto de Göttingen

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Numa mobilização inusitada, desconhecida até então entre os cientistas alemãs, tradicionalmente obedientes à autoridade, 18 sumidades da física germânica liderados por Werner Heisenberg, todos eles ligados à Universidade de Göttingen, redigiram em 1957 um manifesto contra o projeto do governo da então Republica Federal da Alemanha, a Alemanha Ocidental, de construir bombas atômica táticas.

O impacto das bombas de hidrogênio

W.Heisenberg, reagiu à Bomba H

"Quanto estivermos com o coração e a mente claras - somente então acharemos coragem para superar o medo que assombra o mundo."
A. Einstein em relação a Bomba Atômica, 1946.

Foram as explosões das bombas de hidrogênio, ocorridas a partir de 1952, que fizeram a corporação dos cientistas realmente a se oporem aos testes nucleares. O primeiro dos repúdios deu-se há cinqüenta anos atrás no fim de um congresso que se realizava na ilha de Mainau, na Alemanha, na data de 15 de julho de 1955, liderado por Bertrand Russell e Linus Pauling, dois dos mais famosos entre os 52 laureados pelo Prêmio Nobel que assinaram a Declaração anti-nuclear de Mainau.

A eles, nas semanas seguintes, juntaram-se mais 9.235 outros cientistas das mais diversas áreas que enviaram à ONU uma petição para que a Assembléia Geral proibisse os testes nucleares. De fato, Einstein, ainda em 1946, antecipara a todos quando, com Linus Pauling, Harold Urey, Hans Bethe, Leo Szilard e Victor Weisskopf, alertara o mundo para o perigo da proliferação das bombas atômicas.

Todavia os novos petardos que os Estados Unidos e a URSS começaram a fazer explodir a todo o momento durante o auge da Guerra Fria. eram de dimensões assombrosas. A bomba de hidrogênio explodida no dia 1º de março de 1954, por exemplo, era 600 vezes mais potente daquela lançada sobre Hiroxima nove anos antes.

Combinou que a Declaração de Mainau contra os testes com bombas de hidrogênio deu-se no momento em que a OTAN retirara as restrições que haviam sido impostas à Alemanha Ocidental do após-guerra de ter armas nucleares.

Não à Alemanha atômica

K. Adenauer, chanceler da RFA,Alemanha Ocidental (escultura de Gerhardt Marcks)
Konrad Adenauer, primeiro-ministro da coligação conservadora que governava o país na ocasião, exultou. Querendo explorar a oportunidade de tornar a Republica Federal Alemã independente da proteção estrangeira, desenvolvendo um arsenal nuclear próprio, tentando minimizar a importância delas, enfatizou que as nova armas nada mais eram do que artefatos complementares à artilharia convencional – eram somente “bombas atômicas táticas”.

Foi então que Werner Heisenberg - o ex-garoto-de-ouro da física atômica alemã, co-autor da teoria da mecânica quântica e do Unbestimmthetsrelation, o famoso “princípio da incerteza” que tanto impressionara a Einstein nos anos 20 - , resolveu ir à luta. Tomando coragem com o exemplo dos signatários da Declaração de Mainau, ele mobilizou a nata da ciência atômica alemã, todos consagrados com o Nobel, para repudiar o intento do governo em querer colocar bombas atômicas, ainda que “táticas”, nos seus paióis militares. O resultado foi o Manifesto de Göttingen (também conhecido como “Os Dezoito de Göttingen” , local da famosa universidade do iluminismo alemão, centro cientifico universalmente reconhecido), publicado em 13 de abril de 1957, com o título de Erklärung der 18 Atomwissenschaftler (Esclarecimento dos 18 cientistas atômicos). A rejeição deles baseou-se em dois pontos: em primeiro, alertavam à população alemã, que não havia limites fixos entre uma bomba atômica “ tática” e outra “ estratégica”. Elas só eram chamadas de “pequenas” em relação as de hidrogênio, mas eram equivalentes a que destruíra as cidades japonesas.

Em segundo lugar, ainda que reafirmando no manifesto o compromisso deles em favor da liberdade e contra o comunismo, eles não aceitavam que o embate fosse resolvido pelo caminho da corrida armamentista. Além do que não havia nenhum limite conhecido sobre os efeitos destrutivos das bombas atômicas, desconhecendo-se de qualquer meio eficaz de proteger a população civil dos estragos feitos por elas. Dotar a Alemanha Ocidental com arsenais nucleares, entendeu Heisenberg que viajara por boa parte do mundo, era atrair a fúria das outras nações que estavam longe de ter esquecido os estragos da guerra. Inevitavelmente, se o propósito de Adenauer fosse implementado, uma universal onda negativa de desconfiança se voltaria contra o país. Seguramente a imagem de nação pacifista que a nova geração queria dar a Alemanha pós-nazista iria por águas a baixo.

Além da antipatia geral, ter bombas atômicas, ainda que “táticas”, era colocar a Alemanha no olho do furacão em caso de um conflito atômico americano-soviético. O manifesto, contando com celebridades do mundo científico como Max Born, Max von Laue, Fritz Strassmann, Karl Wirtz, e tantos outros, teve ainda um outro significado. Não era do temperamento alemão, particularmente da sua elite científica, opor-se a um intento das autoridades, fosse ela qual fosse, mas o horror provocado pela bomba de hidrogênio os libertou da obediência cega e do quietismo. Ali nascia uma nova Alemanha.


Referência bibliográfica
Heisenberg, Werner – A parte e o todo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.
Russell, Bertrand – Memórias, Rio de Janeiro: Editora Civilização brasileira, 3 v. 1967.

    
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