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Che Guevara - Argentina, 1928-1953
"Sempre me tive por bom, sou touro no meu rodeio, mais touro no campo alheio, (...) com os brandos sempre sou brando, e sou duro com os duros e ninguém, noutros apuros, me viu andar titubeando." José Hernández "El gaucho Martín Fierro" (Canto I, 11-12), 1872 Parte do fascínio que Ernesto Guevara, o Che, exerceu sobre sua geração deve-se a que ele pertencia à elite argentina. Ao contrário de outras celebridades populares latino-americanas envolvidas com a política, como Emiliano Zapata, César Sandino ou Eva Perón, o Che descendia da oligarquia. Os Guevara Lynch e os la Serna, seus pais, tinham vínculos com a aristocracia rural. Não eram ricos, mas tinham "berço". Isso tornou Guevara ainda mais atraente porque sua rebeldia não podia ser atribuída ao ressentimento social ou a algum complexo de inferioridade que desejava sublimar pela revolução. Ela vinha da indignação com a miséria latino-americana: era de origem eminentemente moral e intelectual. Foi um homem que tinha tudo para realizar-se numa vida normal: posição social, relações com a alta sociedade, uma profissão respeitada, e a possibilidade de viver magnificamente em Buenos Aires, a mais culta e rica cidade da América do Sul. Pois abandonou tudo para tornar-se um peregrino da revolução, emprestando seu nome e sua liderança às causas que considerava justas. Andou por montanhas e selvas, na América do Sul e Central, no Caribe e na África, passou por incontáveis privações e todo tipo de males e doenças decorrentes da guerra de guerrilhas, sempre perseguido por ataques terríveis de asma. De certa forma, seu grande inspirador foi Martín Fierro, um gaúcho, personagem de ficção de José Hernández (obra publicada em 1872), que passou a sua vida de gaudério envolvido em pelejas e incontáveis lutas. "El gaucho Martín Fierro", era um dos seus livros favoritos. A Guevara, como a Fierro, causava repulsa o fato de que "Está na lei, o de cima se faz o que lhe aproveite (...) Ao pobre, mal se descuide, o levantam de um sogaço." Em várias ocasiões , Che usou o codinome de Martín Fierro, como que para anunciar-se como uma versão atualizada do andarilho brigão dos pampas.
Nascido em Rosário, cidade do interior da Argentina, em 15 de junho de 1928, Ernesto Guevara cursou o ginásio em Córdoba, mudando-se depois para Buenos Aires onde, em 1953, concluiu a Faculdade de Medicina. Provavelmente, em razão do seu mal especializou-se em medicina alérgica sem no entanto exercê-la. Recém-graduado saiu com um amigo a viajar pela América do Sul, amparado no lema “pouca bagagem, pernas fortes e estômago de faquir”. Foi à Bolívia, Peru, e ao Equador. E, anteriormente, visitara o Chile e a Venezuela. Data dessa época o hábito de escrever um diário e, simultaneamente, manter uma intensa correspondência com sua mãe Célia, a quem confessou sua “nova posição de aventureiro 100%”. Visitou leprosários e chegou a andar de balsa na Amazônia peruana. Consta que imaginou ir à ilha da Páscoa. Até essa época não manifestara uma inclinação maior pela política.
"Junta experiência de vida, até para dar e emprestar, quem a teve que passar entre sofrimento e pranto..." José Hernández "El gaucho Martín Fierro" (Canto II, 21) Estando no Equador, Guevara sentiu-se atraído pelo governo do presidente Jacobo Arbens, um general nacionalista guatemalteco que estava disposto a desafiar a grande empresa United Fruits Co., dona da maioria das terras produtivas da América Central e Caribe e principal produtora e exportadora de frutas de toda a região. Apelidada de "el pulpo", essa corporação norte-americana associava-se aos ditadores locais, formando aquilo que o poeta Pablo Neruda denunciou como o "o reino tirânico das moscas." Arbenz, todavia, era uma exceção e resolveu retirar-lhe uma séria de vantagens, ameaçando-a com uma reforma agrária. Foi o que bastou para ser apontado pelos americanos como um "simpatizante do comunismo" ou que se deixava manipular por eles. Em pouco tempo, a Guatemala foi diplomaticamente isolada e a CIA instrumentalizou um golpe, o primeiro deles, que, depois, seria aplicado, com poucas alterações, nas outras deposições que ela organizou no Continente. Guevara, enquanto isso, tratou de prestar serviços médicos, mas terminou rejeitado por motivos corporativos. Foi na cidade da Guatemala que conheceu Hilda Gadea, que se tornou sua primeira esposa. Freqüentando uma biblioteca de um partido de esquerda ele ampliou seus conhecimentos sobre o marxismo, lendo Marx e Lênin. No dia 18 de junho, apoiado por aviões da CIA, o Cel. Castillo Armas e mais 400 combatentes, invadiram o país. A solicitação da Guatemala para que a origem da invasão fosse investigada pela ONU foi rejeitada. Os EUA conseguiram uma apertada vitória no Conselho de Segurança, negando-lhe qualquer apoio. Depois de uma frágil resistência, abandonado por todos, o governo Arbenz se desmantelou. No dia 3 de julho encerrava-se a "Operação Sucesso"da CIA. Castillo Armas chegou à capital, desembarcando ao lado do embaixador norte-americano, enquanto Arbenz partiu para o exílio e o esquecimento. Todos os privilégios da United Fruits Co,. foram restaurados imediatamente. Guevara registrou numa carta: "a América será o palco das minhas aventuras e com uma feição muito mais importante do que eu imaginara." Também percebeu que a invasão da Guatemala pertencia a um cenário mais amplo de confronto mundial entre os Estados Unidos e os comunistas. Pouco tempo depois, decepcionado com o que vira e passara no pequeno país, rumou para o México. A essa altura, além de marxista, converteu-se num ardoroso antiamericano.
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