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História - Século XX
SÉCULO XX

Che Guevara - Cuba: o poder, 1959-1965

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Che Guevara
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"O caminho é largo e, em parte, desconhecido; conhecemos nossas limitações. Faremos o homem do século XXI: nós mesmos. Nos forjaremos na ação quotidiana, criando um homem novo com uma nova técnica".
Che Guevara "O socialismo e o Homem novo", 1965

O comprometimento de Fidel Castro em favorecer os camponeses que aderiram à Revolução fez com que ele se lançasse na Reforma Agrária, que se tornou dali em diante a fonte dos atritos com os proprietários de terra e com as empresas norte-americanas, naturalmente, com as classes médias que começaram a exilar-se em Miami. A lª Lei da Reforma Agrária foi promulgada em maio de 1959, seguida de uma série de outras que culminaram em 1964, expropriando as grandes fazendas e usinas. Em represália, os americanos cortaram o fornecimento de petróleo para a ilha de Cuba. Fidel Castro reagiu importando-o da URSS. As refinarias americanas negaram-se a refiná-lo. Fidel Castro expropriou-as.

Em pouco tempo a guerra econômica transformou-se numa guerra de fato, ainda que não declarada. O governo americano decidiu depor Fidel Castro. No dia 15 de abril de 1961, cubanos exilados, treinados pela CIA, desembarcaram na Praia Girón, vindos da Nicarágua. Foi um fracasso. Fidel Castro conseguiu cercá-los, levando 1.180 invasores à rendição.

Che Guevara, que tornara-se comandante da fortaleza La Cabaña, onde seguramente mais de 500 seguidores da ditadura de Batista haviam sido fuzilados, não tomou parte diretamente nos acontecimentos da Praia Girón. Um ano antes, em 1960, ele aprontara um pequeno livro que iria ter largas e desastrosas conseqüências políticas na vida futura latino-americana: "A Guerra de Guerrilhas" (La guerra de guerrillas). Baseado na experiência cubana, afirmava que um grupo decidido, representando "as forças populares", poderia vencer um exército convencional. Não seria necessário esperar que ocorressem "as condições gerais objetivas" para isso. Se uma vanguarda armada se instalasse na zona rural e recebesse apoio dos camponeses, ela seria a faísca que incendiaria o país. Era uma espécie de maoismo adaptado à América Latina.

Guevara caíra numa ilusão voluntarista na qual o exemplo cubano, que , na verdade revelou-se uma exceção, poderia ser aplicado universalmente. Qualquer das nações do Terceiro Mundo poderia seguir os passos dados por Cuba. Tinha certeza de que o que ocorrera em Cuba era o surgimento de uma nova vanguarda que iluminava o caminho da revolução para todo o resto. Para ele "a revolução pode ser feita, no momento certo, em qualquer lugar do mundo....Até em Córdoba pode-se fazer uma guerrilha". Dessa forma lançou a chamada teoria do foco revolucionário, ou foquismo, que, posteriormente foi desenvolvida, com maior acabamento teórico, num livro de Régis Debray "A Revolução na revolução"(La révolution dans la révolution), de 1967.

Che, peregrino da revolução

Che foi nomeado presidente do Banco Nacional de Cuba e depois Ministro da Indústria. A mentalidade econômica dele, inspirada no modelo soviético da época de Stalin, era extremamente centralizadora (concretizada no seu Sistema Orçamentário). As atividades das empresas estatais seriam regidas por um controle único. Isso tornou-se fonte de divergências com Raul Castro e outros técnicos soviéticos que começaram a chegar a Cuba, e que defendiam um sistema de maior independência empresarial, conjugada com estímulos materiais estendidos aos trabalhadores e aos especialistas.

Técnicos que cada vez tinham maior ascendência conforme a ilha se atritava com os EUA. Che imaginava ser possível escapar, com auxilio dos países do Bloco Socialista, da “maldição do açúcar”. De poder tornar Cuba industrialmente auto-suficiente, o que na prática revelou-se impraticável. Em 1964 os cubanos assinaram um tratado com os soviéticos, atrelando a ilha de volta à produção de cana. Outro ponto de atrito foi a questão dos estímulos materiais. Che, como quase todo idealista, acreditava que as pessoas deveriam trabalhar apenas motivadas por estímulos morais.

A dedicação à causa, o amor ao coletivo e o espirito de solidariedade seriam os combustíveis básicos da nova sociedade. Expressou esse sentimento num ensaio chamado “O socialismo e o homem novo em Cuba” (El socialismo y el hombre nuevo en Cuba) , publicado em 1965, onde defendia que o processo de transição para o socialismo deveria ser acompanho por uma mudança psicológica e moral: o surgimento de um homem novo desprendido do interesse material. Para tanto “a sociedade em seu conjunto deveria converter-se numa grande escola”.

Che decepcionou-se com os soviéticos em duas ocasiões. A primeira foi durante a gravíssima crise dos mísseis, de outubro de 1962, quando Kruschev, o 1º Ministro da URSS, evitando um enfrentamento direto com o governo Kennedy, que poderia redundar numa guerra nuclear. Sem consultar Fidel, o líder soviético, pressionado pela ameaça de uma guerra nuclear, aceitou retirar os mísseis que os soviéticos haviam instalado secretamente em Cuba, a pretexto de defendê-la contra um eventual ataque americano. E, a outra, quando discursou em Argel, em 1965, criticando o Bloco Socialista, liderado pelos soviéticos, de impor regras comerciais que não se diferenciavam dos países capitalistas.

Além disso, o rumo interno cada vez mais liberalizante da sociedade soviética que se somava à política da “coexistência pacífica” com o capitalismo, proposta por Kruschev, soava aos ouvidos de Guevara (como aos chineses de Mao Tse-tung) como o abandono da causa da revolução. Ora, na medida em que Cuba, cada vez mais dependia para a sua subsistência das suas relações com a URSS, a posição de Guevara ficou insustentável. Enquanto os soviéticos insistiam na conciliação e na coexistência, o Che aumentava a retórica revolucionária.

Congo, 1965

"Nada ele ganha na paz,
mas é o primeiro na guerra; (...)
"Vamos sorte; vamos juntos / já que assim juntos nascemos
e já que juntos vivemos/ sem poder nos cindir
Abrirei com meu punhal / o caminho pra seguir!..."

José Hernández "El gaucho Martín Fierro" (Canto VIII, 238-241)

Nos anos 60 Che tornou-se o símbolo itinerante da Revolução Cubana. Sua barba, seu uniforme e estrela vermelha no alto da boina fizeram dele a materialização da insurreição. Em constante périplo pelo mundo, conheceu os grandes personagens da política mundial da sua época: Kruschev, Mao-Tse-tung, Tito, Nasser, Ben Bella, sendo inclusive, no Brasil, condecorado pelo Presidente Jânio Quadros. Por outro lado a vida estável, familiar, rotineira - Che casara a segunda vez com uma cubana, Aleida, com quem teve quatro filhos - não condizia com seu temperamento. O pó da pólvora e gosto pela luta havia entrado em seu sangue.

Como havia uma rebelião ainda não completamente sufocada no Congo (atual Zaire) ele concebeu um plano de "enfrentar o imperialismo em outro fronte". Tratava-se, como ele escreveu para a revista Tricontinental, em 1965, de "criar dois, três Vietnãs", a fim de fazer com que os Estados Unidos dispersasse suas forças pelos vários frontes do mundo. O líder nacionalista do Congo, Patrice Lumumba, havia sido assassinado em 1961, durante a tentativa de secessão da rica província de Katanga. O poder então caiu em mãos de Kasavubu e de Tshombé, que alinharam o país recém independente numa situação neocolonial. As empresas mineradoras belgas e americanas continuavam soberanas, dominantes. No Congo oriental, um agrupamento nacionalista, dirigido por Laurent Kabila, ainda esboçava uma resistência anti-Tshombé. Che resolveu aderir na esperança de poder reverter o quadro.

Foi o seu "delírio africano". Com um grupo de 100 cubanos "internacionalistas" Che, com o codinome Tatu (do swahili), chegou à região em abril de 1965. Foi uma decepção. Os líderes africanos quase nunca vinham ao fronte, o despreparo das forças era total. Não havia a mínima disciplina e os congoleses, além de acreditarem no dawa (corpo-fechado) e na magia dos feiticeiros, não queriam nem transportar os equipamentos e alimentos. Os próprios cubanos começaram a por dúvidas no sentido daquela operação militar. Afinal era uma guerra africana, cujas regras eles pouco entendiam. Além disso, o governo de Kasavubo havia contratado as eficientes tropas mercenárias de Mike Hoare que, em geral, punham os congoleses a correr.

Em novembro de 1965, Che, mesmo a contragosto, teve que concordar em abandonar a missão. Atravessou o Lago Tanganica de volta à Tanzânia, desanimado e abatido pelo fracasso. Um mês antes Fidel Castro, para afastar os boatos de desentendimento entre ele e Che, obrigou-se a ler publicamente uma carta de despedida do amigo, onde ele renunciava a todos os postos e cargos que ocupara no governo cubano, como abdicava da própria nacionalidade cubana. Em segredo, escondeu-se na embaixada cubana em Dar es Salam, na Tanzânia, recuperando-se das várias doenças que adquirira na selva africana e cogitando qual seria o próximo passo a dar.

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