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História - Século XX
SÉCULO XX

Che Guevara - Bolívia: 1966-7

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Che Guevara
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"....ficamos/ sem rancho onde morar/ sem ramada a que ganhar/
nem rincão aonde fugir/camisa que nos vestir/
ou poncho pra nos tapar."

José Hernández "El gaucho Martín Fierro" (Canto XII, 657)

Em novembro de 1966, o economista uruguaio Adolfo Mena Gonzáles, registrou-se num hotel em La Paz, capital da Bolívia. Era Che disfarçado. Segundo o chefe do PC boliviano Mário Monje, a função deles, dos comunistas bolivianos, seria apenas servir de trampolim para que Guevara pudesse alcançar a Argentina. Um seguidor de Che, o jornalista Jorge Masetti, já havia tentado, em 1963, sem sucesso, instalar um foco em Salta, na Argentina. Praticamente todos foram mortos ou desapareceram. Mas Che não perdia a esperança de que sua presença catalisaria as energias revolucionárias, o que, por si só, poderia fazer eclodir a revolução.

Foi olhando para a Argentina que Monje comprou uma propriedade ao sul, em Ñacahuazú, mais próxima da fronteira de Salta do que de La Paz. Lá o grupo de Che Guevara se instalou. Comunicaram então a Monje que o objetivo primeiro era dar início a uma guerra na Bolívia e, depois, dependendo da evolução dos acontecimentos, expandi-la para outros países vizinhos. Monje então exigiu que a chefia do movimento fosse entregue a um boliviano. Che Guevara rejeitou. Para um "internacionalista" como ele, um revolucionário itinerante, essas questões nacionais tinham menor significado. Erro de avaliação que ele pagou com a própria vida.

Não demorou para que problemas de toda a ordem acometessem o grupo de guerrilheiros. Os contatos com Havana tornaram-se raros, as confusões com os bolivianos só aumentaram e o pior é que não havia adesão nenhuma da população local. Eram recebidos, quando adentravam nas aldeias e vilas, por olhares pétreos ou assustados. E, ao invés de angariar simpatia, eram vistos como intrusos que trariam problemas para as comunidades.

Os chefes políticos, os corregidores, não demoravam em relatar às autoridades militares o roteiro da guerrilha, apontada como invasora apátrida. E, assim Che Guevara, exausto e adoentado, nos primeiros dias de outubro de 1967, rumou definitivamente para o cerco e para a morte que o aguardava. No remoto vilarejo de La Higuera, sozinho e abandonado, com o peito furado de balas, terminou seus dias de peregrino da revolução.

Conclusão

"O Homem é o homem e suas circunstâncias"
Ortega y Gasset

Ao morrer, o nome de Che Guevara preservou-se da desilusão que a Revolução Cubana e o socialismo ligado a ela terminaram por provocar. Apesar da sua teoria do foco revolucionário ter redundado num desastre de gravíssimas proporções para a esquerda latino-americana (O MIR chileno, os Tupamaros uruguaios, o ERP e os Montoneros argentinos, o VAR-Palmares no Brasil, e tantos outros mais, foram dizimados pelas Forças Armadas), a imagem de Che saiu preservada. O seu retrato foi estampado por todos os lados como um ícone rebelde, do homem-motim, do eterno inconformado, daquele que encarna o anti-sistema, seja ele qual for.

Com o ocaso e a decepção das grandes causas que acometeu na década de 90, sua figura parece um tanto estranha, senão anacrônica. Hoje é visto quase como um quixote moderno. Alguém que foi capaz de morrer por idéias, num fim-de-século sem idéias. Che, porém, como tanto outros personagens da história, deve ser entendido nas circunstâncias da época.

Os anos 60 foram revolucionários por excelência: a Revolução Cubana, a Guerra do Vietnã, o Movimento Hippie e a revolta dos campi norte-americanos, o Concílio do Vaticano II, a descolonização da África, a Revolta de Maio de 1968 na França, a Rebelião Estudantil na América Latina, a Primavera de Praga, sufocada pelos soviéticos, o Movimento pelos Direitos Civis nos EUA, liderado por Martin Luther King , a Revolução Cultural na China de Mao, etc...foram contemporâneas deles.

Esta época, ideologicamente confusa, caótica e multifacetada, revolucionou a política, as ideologias, a religião, as universidades, a música, as leis e os costumes, e ainda estamos longe de entendê-la na sua merecida profundidade. Che, paira, portanto, como um símbolo-síntese daqueles anos turbulentos e inquietantes, e, ao mesmo tempo, como um daqueles mitológicos titãs que se insurgem contra os deuses.

Referências bibliográficas

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Castañeda, Jorge G. - Che Guevara, a vida em vermelho, São Paulo, Cia. das Letras, 1997

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Deutschmann, David - Che na lembrança de Fidel, Rio de Janeiro, Casa Jorge Editorial, 1997

Guevara, Ernesto Che - El socialismo y el hombre nuevo, México, Siglo XXI, 1979, 2 ª ed.

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Löwy, Michael - El pensamiento del Che Guevara, México, Siglo XXI, 1978, 9ª ed.

Mires, Fernando - La rebelión permanente: las revoluciones sociales en America Latina, México, Siglo XXI, 1988

Rojo, Ricardo - Meu amigo Che, Rio de Janeiro, Editora Civilização brasileira, 1968

Taibo, Paco, e outros - O ano que estivemos em lugar nenhum, São Paulo, Editora Escritta, 1997

Thomas, Hugh - Cuba, Barcelona-México, Ediciones Grijalbo, 1973, 3 vols.

Szulc, Tad - Fidel: um retrato crítico, São Paulo, Editora Best seller, 1987

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