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História - Século XX
SÉCULO XX

Portugal, os fuzis e os cravos

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No dia 25 de abril de 1974, devido a um golpe militar incruento, Portugal deixou de ficar isolado do mundo. Até então era governado por um dos regimes mais arcaicos da Europa – o do salazarismo. O que fez com que fosse apelidado de “A Albânia do Atlântico”. Um sistema autoritário, fascista e colonialista, que já durava 48 anos, foi derrubado em apenas 17 horas devido a decisão e à tenacidade de um punhado de oficiais, quase todos capitães do exército. Assim, democratizando-se, Portugal iniciava o seu caminho de volta para ser reintegrado ao concerto das demais nações européias.

“Grândola, vila morena”

A bandeira e o cravo

"Valeu a pena? Tudo vale a pena se alma não é pequena."
Fernando Pessoa, Mensagem, 1934.

Na madrugada de 6 de junho de 1944 os integrantes da resistência francesa, com o ouvido colado nos rádios, estavam todos em alerta. A primeira parte da mensagem vinda de Londres já chegara: um trecho de um poema de Paul Verlaine que dizia, “Os longos lamentos dos violinos do outono”. Aguardam, ansiosos, a segunda parte. E, umas horas depois, ela veio: “ tocam no meu coração com monótono langor”. Então desabou um dilúvio. Era o Dia-D. Num céu coberto por aviões de todos os tipos, milhares de navios transportando mais de 200 mil homens das tropas aliadas desembarcaram naquela manhã nas praias da Normandia para por fim ao nazismo que então dominava boa parte da Europa.

Trinta anos depois do Dia-D, começo da libertação final da Europa, nas margens do mesmo Oceano Atlântico, somente que mais ao sul, quando ele banha Portugal, também os resistentes antifascistas aguardavam uma mensagem em código. Eram os integrantes do MFA (Movimento das Forças Armadas), composto por jovens capitães do exército português quem estavam em alerta. Às 0,20 h. do dia 25 de abril de 1974, a Rádio Renascença colocou no ar a música de Zeca Afonso “Grândola, vila morena”, cujas letras falavam em fraternidade, igualdade, e dum estranho lugar onde “O povo é quem mais ordena”.

Os regimentos aquartelados nos arredores de Lisboa, em estado de prontidão, sabiam do se tratava. Do seu QG no Quartel da Pontinha, o major Otelo Saraiva, um protegido do general Spinola, deu então a ordem para que eles se movessem. Comandando a EPC (um regimento de cavalaria de Santarém), o capitão Salgueiro Maia entrou com sua coluna na capital ainda às escuras, estranhando muito aquele silêncio.

Quando o dia amanheceu ele já ocupara o Terreiro do Paço sem fazer um só disparo. Os lisboetas, estupefatos, começaram a se aproximar dos tanques e dos caminhões. Não sabiam bem do que se tratava. Viram que as armas não apontavam contra eles mas sim contra os prédios do arcaico regime. A euforia da multidão então começou.

A revolução dos cravos

Quando as vendedoras de flores chegaram ao Rossio, o gesto delas foi espontâneo: enfiavam cravos vermelhos na ponta dos fuzis. Que diabos de revolução era aquela? Não se ouviam canhonadas nem gritos de dor. O povo, endoidecido pela súbita lufada de liberdade, subia nos tanques e se abraça nos soldados. Mulheres, crianças, velhos, todo mundo saiu de casa para celebrar aquele acontecimento extraordinário. A Lisboa dos tristes fados, naquele dia tornou-se a cidade mais alegre de toda a Europa. Marcelo Caetano, presidente do Conselho de Ministros, o herdeiro político do ditador Oliveira Salazar, refugiou-se no Quartel do Carmo, onde os carros de assalto de Salgueiro Maia o cercaram. Enquanto isso os espiões da PIDE (Polícia internacional de defesa do estado) resistiam a tiros do alto do seu QG na rua Antonio Maria Cardoso, até que fossem rendidos no dia seguinte.

Ao longo daquela quinta-feira chuvosa, todas as cidades importantes de Portugal, fosse Évora, Coimbra ou o Porto, caíram no controle dos militares rebelados. O Estado Novo, regime dos mais retrógrados da Europa, sustentado há quase meio século pela roça e pelo confessionário, ruíra com uma facilidade impressionante. Esfumou-se em apenas 17 horas pela firme decisão de um punhado de oficiais decididos a implantar uma democracia em Portugal.

Ninguém mais tolerava as guerras africanas (1961-1974), purgatório para onde a maior parte da juventude lusitana era enviada à lutar por dois anos. Combate sem fim e desesperançado, que já havia provocado mais de 8 mil mortos e 15 mil feridos , a inútil tentativa de uma vontade reacionária em querer manter um império ultramarino quando o colonialismo já caducara.

Pareceu mais lógico à gente do MFA que o caminho mais curto para terminar o morticínio nas colônias era por abaixo o governo burro, cego e surdo. Ficou claro para eles que a batalha final devia ser travada nas ruas de Lisboa e não nas selvas da Guiné, de Angola ou Moçambique, nas “areias morenas da Africa” como dizia Fernando Pessoa. E assim o fizeram, sem recorrer à fuziladas e matanças. O projeto deles era simples: democracia, descolonização e desenvolvimento. Arrancar Portugal do isolamento e, satisfazendo o antigo sonho de Antero de Quental, reintegrá-lo na Europa. Cumpriu-se o programa. Curioso, o fascismo foi varrido da Europa inspirado em estrofes de poetas.

Bibliografia

Maxwell, Kenneth – A construção da democracia em Portugal, Lisboa, Editorial Presença, 1999.

Secco, Lincoln – A revolução dos Cravos, São Paulo, Alameda, 2004.

    
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