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História - Século XX
SÉCULO XX

EUA: política de contenção e Guerra Fria

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Acertados na conferência de Yalta e de Potsdam, entre 1944 e 1945, os aliados, vencedores da IIª Guerra Mundial, logo deram para desacertar-se na época da paz. Os norte-americanos começaram a desconfiar que os soviéticos queriam expandir-se ainda mais, enquanto que esses olhavam os americanos como os seus novos inimigos. Sem condições de iniciarem uma nova guerra mundial, os norte-americanos, seguindo a orientação de George Kennan, o seu embaixador em Moscou, optaram por lançar-se na “política da contenção” ao comunismo, decisão que levou o mundo à Guerra Fria.

Um crescente desacerto

George Kennan, embaixador em Moscou

"Nada existe, asseguro, mais egocêntrico na natureza que uma democracia em guerra. É a primeira vítima a sucumbir à própria propaganda: e passa atribuir à “ sua” causa um valor absoluto que a cega para tudo o mais. O inimigo é a encarnação de todo o mal. Nosso lado, em compensação, é o centro de toda a virtude. A luta se reveste de um caráter fatal e apocalíptico (...) se ganharmos...as forças do bem ocuparão a vanguarda; sem mais obstáculos no seu caminho; todas as aspirações dignas serão cumuladas."
George Kennan – A Rússia e o Ocidente, 1960

As relações amistosas entre os Estados Unidos e a União Soviética no após-1945 não tardaram em se deteriorar. Se um acordo razoável e realista fora acertado entre as potências vencedoras na Conferência de Potsdam, realizada entre 17 de julho e 2 de agosto de 1945, nas proximidades de Berlim - às sombras dos espectros dos antigos e belicosos reis da Prússia -, haviam brechas fumegantes que ainda não tinham sido devidamente fechadas e apagadas. A presença de tropas soviéticas no coração da Europa era, reconheciam tanto o presidente Harry Truman como o primeiro-ministro Clement Attle, um fait acompli. Nada faria, a não ser uma nova guerra, com que os tanques e os regimentos de ferro que Stalin trouxera da URSS fossem dali removidos.

Porém, em outros recantos menos importantes do Velho Mundo, como no caso da Grécia, ou da Ásia e o do Sudeste Asiático como no caso da China, da Indochina e da Malásia, passou a ser inaceitável aos poderes das potências anglo-saxãs aceitarem uma vitória dos guerrilheiros comunistas, que ainda estavam com armas na mão tentando derrubar os regimes vigentes. Nos seis meses que se seguiram a conferência de Potsdam, os Estados Unidos, sentido a ausência da forte presença de Franklin D. Roosevelt pareciam ainda indecisos em qual estratégia adotar nos anos que ainda vinham pela frente.

É certo que Harry Truman, guindado pelo destino, desde maio de 1945, àquela posição imperial, não demonstrava nenhum simpatia em assegurar aos parceiros britânicos a continuidade do seu domínio colonial (enquanto a Churchill dizia lutar pela liberdade da humanidade, a maioria dos lideres nacionalistas anti-britânicos, como Gandhi ou N´kruma, estavam na cadeia, mortos ou perseguidos pela polícia). Afinal, o presidente americano, como um bom prócer democrata, não tinha nenhuma inclinação por aqueles marajás, sultões e reizinhos de araque que os britânicos - pelo sistema do Indirect Rule-, colocavam a fazer o trabalho sujo, de serem guardiões de interesses estratégicos que não eram deles e sim do Commonwelth de Sua Majestade.

O telegrama de Kennan

Era este o clima de indecisão quase hamletiana quando o Departamento de Estado recebeu um longo telegrama de 8 mil palavras despachado de Moscou, datado de 22 de fevereiro de 1946. Remeteu-o George Kennan, o attaché americano junto ao Kremlin. De maneira didática, enumerando detalhadamente cada ponto de vista, Kennan assegurava que nada havia mudado na mentalidade dos comunistas.

Stalin, revelava ele, “com sua neurótica visão dos assuntos mundiais”, seguia pregando de que a URSS continuava cercada pelo capitalismo e que não poderia haver paz duradoura enquanto tal sistema hostil predominasse no Ocidente. O cerco nazi-fascista da URSS fora destruído em 1945, mas um novo se erguia: aquele engendrado pelos Estados Unidos e seus aliados do bloco imperialista. Portanto, além de não ser possível a coexistência pacífica com o Ocidente, a guerra anti-Capitalista prosseguiria por outras formas, não havia como a União Soviética estabelecer um modus vivendo com seus ex-aliados. Para comprovar a sua tese, o diplomata americano chamou a atenção para as exigências do ditador comunista para o aumento da produção estratégica nos anos seguintes, carregadas com aqueles números mirabolantes tão ao gosto de Stalin.

Kennan, num ensaio posterior (A Rússia e o Ocidente, 1960), atribuía tal posicionamento do governo soviético - além de expressar um instintivo censo de insegurança dos russos -, de encarar as relações internacionais como um instrumento para, mais tarde ou mais cedo, destruir o rival, como um arcaísmo originado dos tempos do Grão-Ducado de Moscou. Entidade despótica formada no século 16-17, não bafejada pelas práticas mais civilizadas de convivência ocidentais. Essa era uma herança tártaro-bizantina da Rússia que os comunistas estavam bem longe de querer livrar-se ou superar. Stalin pois, era uma versão atualizada de Tamerlão o Coxo ou de Ivã o Terrível.

O que fazer então? Contention! Contenção! Recomendou o diplomata naquele telegrama que revelou-se um programa inteiro de ação. Adotar uma politica forte, de decisivo enfrentamento contra Stalin não permitindo que a URSS extravasasse em nenhum caso os limites acertados em Potsdam. E, se possível, fazê-la reverter para suas fronteiras originais de antes da guerra. Isto tudo articulado com uma política saudável, para evitar que o comunismo, definido por ele como “um parasita maligno que prospera num terreno doentio”, ganhasse mais espaço no futuro.

Entrando na Guerra Fria

Kennan confessou mais tarde, se bem que não se arrependeu, que surpreendeu-se com a repercussão do seu relatório. Vazado o conteúdo aos jornais da época, o arrazoado dele foi entendido como se a URSS estivesse se mobilizando para uma guerra para já. Como se os “vermelhos estivessem às portas”! Até as Filhas da Liberdade, organizações femininas ultrapatriótica saíram às ruas para protestar contra a “traição” dos soviéticos.

O clima da Guerra Fria se azedou de vez, formando-se então as primeiras nuvens de chumbo no horizonte. O interessante dessa história é que somente muito tempo depois, com bilhões gastos em bombas, Kennan, homem culto e inteligentíssimo, refletiu sobre a sua responsabilidade em ter jogado os Estados Unidos e boa parte da Humanidade numa corrida armamentista que poderia ser o fim de tudo. Ele mesmo, sem querer, tornara-se um dos arautos do apocalipse.

    
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