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História - Século XX
SÉCULO XX

Massu - medidas para o mesmo crime

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» Massu, o carrasco de Argel
» Massu - medidas para o mesmo crime
 
Num deles, dessas sucursais dos horrores da guerra contra-revolucionária - do que Diffra, a irmã do assassinado Ben M´Hidi, chamou em carta destinada ao general Massu de laboratoires secrets de la déchéance humaine (laboratórios secretos da desgraça humana) - , atuava o capitão Paul Aussaresses, que, como se fosse um diabo hospedeiro, tinha prazer em mandar torturar os presos argelinos (mais tarde gabou-se disso num livro: “Services spéciaux: Algérie 1955-7”, publicado em 2001, confessando ter morto pessoalmente 24 deles, entre eles Larbi Ben M´Hidi e o advogado Ali Boumendjel, jurando que faria tudo de novo). As atrocidades da campanha comandada por Massu, que se estendeu até 1958, afogando os árabes em sangue, flagelações e espancamentos diversos, registrando 3024 “desaparecidos”, chegaram ao conhecimento da intelectualidade de Paris. Especialmente de André Malraux e de Jean-Paul Sartre e o seu grupo, que, escandalizados, denunciaram-nas. Seguiram assim as pegadas até então solitárias de François Mauriac que, bem antes, em 3 de abril de 1954, escrevera no L´Express, um libelo contra a tortura, acusando a complacência do governo francês.

Muitos deles, porém, escritores que antes haviam apontado as violências dos nazistas na época da ocupação da França (1940-44), desta vez se calaram ou encontraram justificações. O paradoxal dessa história é que ao tempo em que os franceses capturaram o oficial da SS Klauss Barbie, o “açougueiro de Lion”, trazendo-o da Bolívia para que fosse julgado em 1987, acusando-o de cometer “crimes contra a humanidade” (responsabilizando-o, entre outras atrocidades, pela tortura e assassinato de Jean Molin, herói da resistência francesa, morto em 1944), o destino do carrasco de Argel e do seu auxiliar foi outro.

Massu arrependido

Massu (charge de Plantu)
O general Jacques Massu - que retornou para a França em 1960, depois de ter aplastado a resistência árabe na Batalha de Argel - , mesmo com a farda manchada pelos esguichos dos presos brutalizados pelos pára-quedistas sob seu comando, foi condecoradíssimo. Protegido por providenciais leis de anistia, aprovadas entre 1964-66, o general além da Cruz da Legião de Honra e a Cruzes de Guerra e a do Valor Militar, foi distinguido pelos ingleses, pelos americanos e até pelo governo alemão, que pregou-lhe no peito a Grande Cruz do Mérito. (provavelmente por ter salvo o governo do general De Gaulle em 29 de maio de 1968, garantindo-lhe a fidelidade do exército quando era o supremo comandante das forças de ocupação na Alemanha).

Massu, numa célebre entrevista dada ao Le Monde em novembro de 2000, lamentou o ocorrido, mas afinal disse estar cumprindo ordens ( inclusive do socialista François Mitterand, então ministro da justiça), assegurando ainda que a tortura não era um recurso necessário, mesmo em tempo de guerra. Aussaresses, como vimos, não menos coberto de medalhas, se bem que respondendo a um processo que o condenou por “ apologia à tortura”, terminou general reformado dizendo-se estar com a consciência tranqüila dos que cumprem uma missão. Numa entrevista dada em novembro de 2000, acrescentou: On n'a pas à se repentir. Qu'on reconnaisse des faits précis et ponctuels, oui, mais en prenant garde à ne pas généraliser. Pour ma part, je ne me repens pas."(Não há do que se arrepender. Que se reconheça alguns fatos precisos e pontuais [da aplicação da tortura], sim, mas tome-se em guarda em não generalizar-se. Da minha parte eu não me arrependo.”)
O general Massu, amparando na amnésia nacional e no silêncio, faleceu no dia 26 de outubro de 2002, com 94 anos muito bem vividos, na sua residência, na tranqüila aldeia de Conflans-sur-Loing. O nazista Barbie, que trucidou patriotas franceses, foi condenado, com toda a razão, por crimes de guerra; Massu, que seviciou e matou patriotas argelinos, teve exéquias de herói francês. Qual a lição disso tudo? É que, em caso de guerra, ninguém, particularmente um militar, deve arriscar-se a ser derrotado.

Bibliografia

Bonnet, Gabriel – Guerras insurrecionais e revolucionárias (RJ., Biblioteca do Exército-Editora, 1963)

Fannon, Franz – Os Condenados da Terra(RJ. Editora Civilização-brasileira)

Massu, general Jacques – La vraie bataille d´Alger (Paris, Plon, 1971)

Vidal-Naquet, Pierre – Les crimes de l´armée française (Paris, La découverte/Poche)

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