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Rousseau e Paine
O Copista e o Espartilheiro

Dois intelectuais de extração social plebéia, ambos autodidatas, vivendo um na França e o outro nas colônias inglesas da América do Norte, ergueram-se contra as injustiças sociais do seu tempo, o século XVIII, produzindo os mais famosos escritos políticos daquela época. Rousseau, genebrino, e Paine, inglês, marcaram a rebeldia que frutificou na Revolução Americana de 1776 e na Revolução Francesa de 1789.


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Rousseau e Paine, plebeus rebeldes

"Não se trata se haverá este ou aquele partido, se predominará....o alto ou o baixo, mas se herdará o homem os seus direitos e haverá uma civilização universal"

Thomas Paine - Os Direitos do Homem, 1791

Um músico imaginário


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Rousseau, atribulações de um jovem músico

Inusitado foi o modo, bem antes de celebrizar-se, como Jean-Jacques Rousseau tornou-se músico. Seu mestre, em Annecy, um tal de Le Maître, um beberrão epiléptico contratado como concertista local, para embaraçar um bispo resolveu escapar da cidade nas vésperas da páscoa do ano de 1730. O jovem discípulo Jean-Jacques ofereceu-se a ajudá-lo a carregar, na fuga, uma enorme caixa com suas partituras. E lá esgueiram-se eles pelos campos da Saboia até Lyon, onde a aventura se encerrou de maneira lamentável. O pobre homem convulsionou-se em plena rua e seu seguidor, apavorado, abandonou-o ali mesmo. Anos depois, em Paris, já trintão, encontram Rousseau estabelecido como um "músico imaginário", compondo óperas e sobrevivendo a duras penas como copista.

Se o grande Spinoza morrera um século antes limpando lentes, Jean-Jacques mantinha-se transcrevendo partituras. Acreditava que aquela atividade singela era suficiente para preservá-lo como pensador independente.

Fugindo da profissão


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Benjamim Franklin, recomendou Paine

Enquanto isto, do outro lado do canal, na Inglaterra, Thomas Paine, nascido filho de um quaker, em Thetford, um povoado de Northfolk em 1737, 25 anos antes de Jean-Jacques, tão plebeu como o genebrino, tentava livrar-se da profissão de fabricante de espartilhos que herdara do pai. Os espartilhos pareciam persegui-lo. Ainda adolescente, fugiu por duas vezes para aventuras no mar. A cada retorno, mais espartilhos o aguardavam. Adulto, tentou ser homem do fisco. Não durou muito. Despedido, voltou ao espartilho, só que desta feita. com loja própria. Até que, aos 37 anos , descasado e falido, Paine embarcou para a América para tentar um recomeço, terra onde chegou meio morto pela viagem estafante, em novembro de 1774. Tudo o que fizera até então malograra. Mas, novas aragens, outras oportunidades. Recomendado desde Londres por Benjamin Franklin, um outro autodidata vindo da classe média, a quem conhecera um tempo antes, o madurão Paine ajeitou-se na Filadélfia como redator-chefe do Pennsylvania Magazine.

O pensador e o panfletista


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O governo deve servir aos simples, à laboriosa gente do povo (tela de Vicent F.André, 1798)

Da pequena morada de Mont-Louis em Montmorecy, e da simplíssima pensão na Filadélfia, estes dois homens do século 18 - expressão maior do autodidatismo - concentraram-se, em tempos históricos não muito distantes, em fazer desabar, à pena, tinta e papel, o Antigo Regime. Rousseau, convertido em pensador contestador, acusou a propriedade e a hierarquia social como criações artificiais que, ao tempo em que estimulavam a luxúria dos ricos, excluíam, infelicitavam e oprimiam os pobres, deformando a natureza bondosa deles. Paine, por sua vez, panfletista de gênio, rebelado contra a Inglaterra, aspirando o clima de agitação e busca da liberdade existente nas colônias americanas, propôs , em substituição à soberania do rei, o império da lei. Da lei republicana.. Denunciou , no seu fulgurante panfleto "Common Sense", o Senso Comum, de 1776, o absurdo em que os colonos americanos viviam. Fugiram do despotismo para ao Novo Mundo, "o asilo dos perseguidos", para continuar sendo atormentados "pelo monstro", isto é, o reino britânico.

Enquanto Rousseau no Du Contrat Social, do contrato social, de 1762, preconizava a submissão do governo, até então dominado pelo absolutismo monárquico, à uma Volonté Général, a vontade geral ( uma espiritualização da democracia), Paine, no Rights of Man, direitos do homem, de 1791, reclamou do regime que " colocava os idosos em asilos e a juventude na forca", exigindo uma assistência especial aos destituídos, com recursos extraídos dos exageros fiscais da Coroa e dos privilégios concedidos aos aristocratas.

A declaração universal dos direitos


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Batalha de Lexington, americanos lutam pela liberdade, 1775

Ambos detestavam as torturas, a escravidão e a guerra, tão gabada pelos nobres, e elegeram, unânimes, o "homem comum" como o seu herói..

No momento em que o mundo celebrou a passagem do 50º aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem ( aprontada pela comissão da ONU em junho de 1948 e aprovada na assembléia geral em Paris, em 10 de dezembro do mesmo ano), é bom lembrar que por detrás da maioria dos seus 30 artigos, considerados de valor universal, acham-se, vindo do Panteão dos idealistas mortos, o sopro das palavras do copista e do espartilheiro, de Rousseau e Paine, a quem muito tantos devem.



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