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A Justiça

O debate entre os visitantes e anfitriões orientou-se no sentido de determinar como constituir uma sociedade justa. Como tal não existe na realidade, os participantes se dispõe então a imaginá-la, bem como determinar sua organização, governo e a qualidade dos seus governantes. Para Platão, a educação (paidéia) seria o ponto de partida e principal instrumento de seleção e avaliação das aptidões de cada um. Sendo a alma humana (psikê) um composto de três partes: o apetite, a coragem e a razão, todos nascem com essa combinação, só que uma delas predomina sobre as demais. Se alguém deixa envolver-se apenas pelas impressões geradas pelas sensações

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Governante e sua comitiva

motivadas pelo apetite, termina pertencendo às classes inferiores. Por outro lado, se manifesta um espírito corajoso e resoluto, seguramente irá fazer parte da classe dos guardiões, dos soldados, responsáveis pela segurança da coletividade e pelas guerras. Finalmente, se o indivíduo deixa-se guiar pela sabedoria e pela razão é obvio que apresenta as melhores condições para integrar-se nos setores dirigentes dessa almejada sociedade.

A alma e as classes

Partes da Alma Virtudes Classes sociais
O apetite(Tó Ephithymtkón) Temperança(soprosyn) Trabalhadores(demioyrgói)
A coragem(Tó Thymoeidés) Valor(andréia) Guardiães(phylaches)
A razão(Tó Logistikón) Sabedoria(sophia) Governantes(arkontes)

A justiça é feita


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A cada um segundo a sua natureza

Desta forma, com cada indivíduo ocupando o espaço que lhe é devido, a justiça está feita. A Justiça(dikê) é aqui entendida não como uma distribuição equânime da igualdade, como modernamente se entende, mas como a necessidade de que cada um reconheça o seu lugar na sociedade segundo a natureza das coisas e não tente ocupar o espaço que pertence a outro. Concepção que lembra muito a teoria cósmica de Aristóteles, exposta na Física, segundo a qual os corpos mais densos ocupam os lugares centrais enquanto que os mais leves flutuam ao seu redor...


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Uma sociedade em harmonia e paz

Platão, neste seu entendimento da justiça, manifesta um espírito eminentemente conservador ao pretender que cada classe social se conforme com a situação que ocupa na pólis e não tente alterá-la ou subvertê-la. Fazendo-se uma leitura moderna dessas conclusões, os trabalhadores jamais poderiam reivindicar o poder político pois esse deve pertencer exclusivamente aos mais instruídos e mais sábios. Como se vê, o filósofo não pretende abolir as classes sociais, como muitos dos seus intérpretes afirmavam. Bem ao contrário. A intenção dele foi reformar o sistema de classes estabelecido pelas diferenças de renda e patrimônio (ricos, pobres e remediados), comuns na maioria das épocas históricas, substituindo-o por um outro baseado nas atribuições naturais com que cada um é dotado(razão, coragem, apetite). Portanto é totalmente inapropiado dizer-se haver um comunismo platônico.

Propriedade e família


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Na Republica perfeita o ouro seria proibido

Para Platão, os conflitos e as guerras civis que enlutam a sociedade devem-se, na maior parte das vezes, às diferenças entre ricos e pobres. O embate entre essas duas classes rivais provoca uma instabilidade permanente na sociedade. Dessa forma, a sociedade ideal, perfeita, só é possível suprimindo-se com a desigualdade entre os seus cidadãos, cabendo ao estado confiscar toda a riqueza privada fazendo dela um fundo comum utilizado somente para a proteção coletiva. Não é possível imaginar-se algo que vise à perenidade abrigando em seu meio uma tensão permanente, como é comum existir nas sociedades estremecidas pela luta de classes. O ouro não sendo de ninguém em particular, permanecendo num tesouro estatal, não poderá ser usado para provocar a discórdia e a inveja, tão deletérias à paz social.

O casamento monogâmico, por sua vez, bastião em que se apoia o poder dos ghénos, o poder das famílias, deveria igualmente ser abolido, fazendo com que fossem substituído por cerimônias nupciais coletivas - o himeneu coletivo, cujo objetivo é meramente reprodutivo. Os filhos desse tipo de casamento seriam todos eles considerados, indistintamente, filhos da comunidade. Uma nova família emergiria então, inteiramente dissolvida na comunidade. A razão disso é que o filósofo via na existência das famílias como então eram compostas, ordenadas em poderosos clãs, um fator impeditivo para chegar-se à harmonia, visto que, muitas vezes, o egocentrismo delas, os interesses particulares dos clãs conflitavam-se abertamente com os interesse gerais da pólis. Era o que a peça " de Sófocles "Antígona" , na sua essência, tratava.. Platão sugere que esses casamentos coletivos não sejam aleatórios e se façam preservando as características de cada classe, o que fatalmente levaria, em curto prazo, à formação de um ordenamento social dividido em castas (a dos filósofos, a dos guerreiros e a do povo comum). Nesta sociedade, as mulheres, tal como já ocorria em Esparta, não sofreriam nenhum tipo de discriminação, condenando qualquer diferença entre os sexos. Elas fariam todas as tarefas em comum com os homens, bem como prestariam serviço militar, acompanhado os regimentos à guerra.. Ele acreditava que a presença delas nos campos de batalha aumentaria a valentia dos soldados, pois eles não desejariam passar por covardes frente aos olhares femininos.



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