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Os patriotas


O patriota na Revolução de 1776

"Não se trata se haverá este ou aquele partido, se predominará....o alto ou o baixo, mas se herdará o homem os seus direitos e haverá uma civilização universal." - Thomas Paine - Os Direitos do Homem, 1791

A iniciação de Rousseau

Inusitado foi o modo, bem antes de celebrizar-se, como Jean-Jacques Rousseau tornou-se músico. O seu mestre em Annecy, no interior da França, um tal de Le Maître, um beberrão epiléptico que era o concertista local, para embaraçar um bispo, decidiu-se escapar da cidade justo nas vésperas da páscoa de 1730. O jovem Jean-Jacques ofereceu-se para ajudar a carregar na fuga uma enorme caixa com suas partituras. E lá esgueiram-se eles pelos campos da Savoia até Lyon, onde a aventura se encerrou de maneira lamentável. O pobre homem convulsionou em plena rua e seu discípulo, apavorado, abandonou-o ali mesmo. Anos depois, em Paris, trintão, encontram-no, depois de ter tentado inúmeras outras coisas, um "músico imaginário" compondo óperas e sobrevivendo a duras penas como copista.

Se o grande Spinoza morrera um século antes limpando lentes, Jean-Jacques o fez transcrevendo partituras. Acreditava que aquela atividade singela era suficiente para mantê-lo como pensador independente.


J.J.Rousseau (1712-1778), elogio à virtude republicana

Paine e os espartilhos

Enquanto isto, do outro lado do canal, na Inglaterra, Thomas Paine, nascido num povoado de Thetford, no Northfolk, em 1737, 25 anos depois de Jean-Jacques ter nascido em Genebra, tão plebeu como o filósofo, tentava se livrar da profissão de fabricante de espartilhos que herdara do pai. Os espartilhos pareciam persegui-lo. Adolescente fugiu por duas vezes para aventuras no mar. A cada retorno, mais espartilhos o aguardavam. Adulto, tentou ser homem do fisco. Despedido, voltou a confeccionar espartilhos. Então com loja própria. Até que, aos 37 anos, descasado e falido, Paine embarcou para a América, onde chegou meio morto em novembro de 1774. Tudo o que fizera até então malograra. Mas, novas terras, novos ares. Recomendado em Londres por Benjamin Franklin, a quem conhecera um tempo antes, o madurão Paine ajeitou-se na Filadélfia como redator-chefe do Pennsylvania Magazine.

Rousseau e Paine

Da pequena morada de Mont-Louis em Montmorecy, e da simplíssima pensão na Filadélfia, estes dois homens do século 18 - expressão maior do autodidatismo - concentraram-se, em tempos não muito distantes, em fazer desabar, à pena, tinta e papel, o Antigo Regime. Rousseau acusou a propriedade e a hierarquia social como criações artificiais que, ao tempo em que estimulavam a luxúria dos ricos, excluíam e oprimiam os pobres, deformando a natureza bondosa do ser humano. Elegeu a Republica e Genebra, a quem enalteceu o civismo, como um modelo a ser seguido, oposto ao despotismo vigente em quase toda a Europa. Paine, por sua vez, panfletista de gênio, rebelado contra a Inglaterra, propôs, em substituição à soberania do rei, o império da lei. Da lei republicana. Denunciou, no seu fulgurante panfleto "Common Sense", o Senso Comum, de janeiro de 1776, o absurdo em que os colonos americanos viviam. Fugiram do despotismo para ao Novo Mundo, "o asilo dos perseguidos", no entanto continuavam atormentados "pelo monstro".

Enquanto Rousseau no Du Contrat Social, do contrato social, de 1762, preconizava a submissão do governo à uma Volonté Général, à vontade geral - uma espiritualização da democracia -, Paine, no Rights of Man, os direitos do homem, de 1791, reclamou do regime que " colocava os idosos em asilos e a juventude na forca", exigindo uma assistência especial aos destituídos, com recursos extraídos dos exageros da Coroa e dos privilégios dos aristocratas.


Thomas Paine (1737-1809), o senso comum

Sacerdotes do patriotismo

Ambos, Rousseau e Paine, detestavam as torturas, a escravidão e a guerra, tão gabada pelos nobres, e elegeram, unânimes, o "homem comum" como o seu herói. Projetaram, por caminho diferentes, a idéia de que o súdito obrigado à obediência, tão comum nas monarquias absolutistas daqueles tempos, deveria dar lugar na sociedade do futuro - seguramente republicanas - ao cidadão fiel à patria: o patriota! Ela, a pátria, e não mais o rei, é que seria a única merecedora da fidelidade e da devoção do homem moderno.

Imaginavam poder trazer do passado, para inspirar os contemporâneos, os grandes exemplos de civismo dos romanos: os de Cincinato, dos Horácios, de Múcio Scevola, e até do patriarca Bruto, que sacrificou seus próprios filhos pelo bem da republica. Exemplos de grandeza patriótica que eles contrapunham ao comportamento fútil e interesseiro da nobreza cortesã. O modelo preferido deles surgiu na Revolução de 1776, na figura do miliciano americano - o minuteman - que estava sempre alerta, com seu fuzil à disposição, pronto para ir tirotear contra a tirania do rei.

No momento em que o mundo celebrou os 50º anos da Declaração Universal dos Direitos do Homem - aprontada pela comissão da ONU em junho de 1948 e aprovada na assembléia geral em Paris, em 10 de dezembro de 1948 -, é bom lembrar que por detrás da maioria dos seus 30 artigos acham-se, vindo do Panteão dos idealistas mortos, o sopro libertário das palavras de um simples copista de música e de um modesto espartilheiro, os sacerdotes do patriotismo a quem tanto tantos devem.


Bandeira dos patriotas de 1776

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