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Sila, o patriarca dos ditadores
Mário e Sila
 Busto de um cidadão da época de Sila (século I a.C.) |
"...faltava muito pouco para a cidade inteira arder quando então a guerra social, há muito tempo anunciada, veio a levantar a chama que continha a sedição" - Plutarco - Sila (in Vidas Paralelas, Livro III, VI)
Uma das mais graves crises política e social que vitimou a República Romana foi a chamada Guerra Social travada por quase dez anos entre dois caudilhos militares, Mario e Sila, nos começos do século I a.C. . Caio Mário era uma exceção no seu meio, era um soldado-camponês que atingira, por mérito guerreiro, o alto comando das legiões romanas. Ele tornara-se célebre e chefe afamado quando da derrota que impôs ao Rei Jugurta da Numídia, na África, em 112-106 a.C. e depois detendo a invasão das duas tribos germanas, a dos teutônicos e a dos címbrios, em 102-101 a.C. Essas façanhas militares, obtidas nos extremos do império, uma ao Sul outra ao Norte, tornaram o nome de Mário irresistível para assumir o consulado da República. Rompendo então com a tradição da magistratura ânua, Mario elegeu-se por seis vezes seguida como cônsul, de 107 a 100 a.C. Ele representava a ascensão do homo novus, do plebeu que começava a galgar os postos maiores e mais importantes numa República eminentemente oligárquica.
Lúcio Cornélio Sila era de outra estirpe. Era de família patrícia empobrecida, mas extremamente convicto da superioridade da sua casta (ele pertencia a Gens Cornelia, uma das mais ilustres de Roma) e que sempre sentiu-se um corpo estranho em meio ao estado-maior de Mário, na África do Norte, para onde o enviaram como questor na época da Guerra contra Jugurta. Para piorar a sua relação com Mário, além de virem de berços opostos, coube a Sila, "um inacreditável dissimulador, pródigo em todas as coisas", conseguir, pela astúcia e a sedução de um colaboracionista, a prisão do rei Jugurta (in Guerra de Jugurta de Sallustius, capítulos XCV - CXIV). Mário, apesar de ter capitalizado a vitória, nunca aceitou bem que a guerra africana tenha se encerrado por causa dos ardis de Sila. E foi exatamente isso que fez com que a relação dos dois homens fortes da república degenerasse numa guerra social, numa guerra de classes, das piores que coube Roma assistir em seus então seis séculos e meio de história.
A tensão social e política
Os confrontos entre patrícios - a velha nobreza romana que se considerava descendente dos troianos ou dos albanos, os antigos habitantes do Lácio -, e os plebeus, as classes e camadas sociais não-nobres de Roma, arrastavam-se por séculos. Pode-se dizer que o ponto de partida dessas lutas foi o célebre episódio da bem sucedida Greve do Monte Sagrado, ocorrida em tempos muito remotos, ainda nos começos da República, supõe-se que em 495 a.C., pela qual os plebeus conseguiram ter o direito a eleger um tribuno, com direito ao veto, que lhes representasse os interesses junto ao Senado (Plutarco "Caio Márcio Coriolano",VI). Mais tarde, em 366 a.C. os plebeus puderam até eleger um cônsul da sua própria classe. Mas as lutas por espaço político nunca terminam. Intensas e sangrentas foram também as reformas implantadas pelos irmãos Gracco, Caio e Túlio, cônsules entre 123-121 a.C., que deram a vida para minorar os rigores em que estavam submetidos os plebeus e os mais pobres em geral. Nada porém até então igualou-se ao estrondoso choque que estendeu-se por dez anos (de 88 a 78 a.C.) entre os radicais populistas de Mário e os ultraconservadores de Sila.
Segundo alguns historiadores, a tensão criada pela luta social, derivava, no plano constitucional, de um problema não solucionado entre as reformas democráticas dos Graccos e o núcleo duro e inamovível formado pelos privilégios das antigas castas governantes, dos Tácios, dos Pompílios, dos Hostílios, dos Márcios, dos Curiácios, dos Emilios, dos Cláudios, e outros, num total de umas 200 famílias que formavam o Centum patriae, e que geralmente controlavam as propriedades, as legiões e as magistraturas maiores. Os plebeus acreditavam que os avanços obtidos (tribunato da plebe com poder de veto, a eleição consular) eram conquistas muito modestas para a enorme contribuição que eles davam ao servir nas legiões (a reforma militar de Mário abriu as fileiras aos proletarii) e trabalhar nas atividades produtivas. Os oligarcas, por sua vez, do alto da sua soberba, consideravam-se destratados e ofendidos ao ter que fazer mais e mais concessões a quem eles consideravam cidadãos de segunda categoria. Foi em meio a isso que os dois titãs da república, Mário e Sila, declaram uma guerra de vida e morte.
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