Educação História por Voltaire Schilling Política
Boletim
Receba as novidades no seu e-mail!
Fale conosco
. Envie releases
. Mande críticas, dúvidas e sugestões
EducaRede
Entre no portal da escola pública
História - Política

A Formação do Pensamento Político de Hitler (Parte II)

Leia mais
A Formação do Pensamento Político de Hitler (Parte I)
 
A burguesia alemã submete-se ao Estado Feudal


>Bem antes, o filósofo Hegel havia traçado o perfil desse peculiar acordo entre a burguesia alemã e o aparelho feudal-prussiano.

"O Estado", disse ele "é o espírito como vontade substancial revelada clara para si mesma, que se conhece e se pensa e realiza o que sabe e porque (...) enquanto o individuo obtém sua liberdade substancial da sua atividade".

Quer dizer, a liberdade não se dá como ocorreu entre a burguesia inglesa e francesa, isto é contra o Estado, limitando-lhe o poder e a autoridade , mas sim através dele. Engels furibundo sintetizou tal situação de conformismo afirmando que os burgueses alemães, estreitos de pensamento, deixaram a aristocracia prussiana no leme do estado conquanto pudessem ganhar dinheiro.


Portanto, todo o roteiro de transformações por que a Alemanha passou no século XIX (basicamente sua unificação nacional e acelerada industrialização) se deu dentro dos "quadros de ferro" do estado feudal-militar com seu culto à disciplina e à ordem e com escassa tolerância para com a dissidência política, consagrando o dito "Gegen demokraen helfen nur soldaten", contra democratas só adianta soldados.

Esta contradição histórica e social, onde encontramos os meios de produção nas mãos de burgueses e as instituições políticas ocupadas pela casta militar dos junker , terminou mais tarde por conduzir o país à camisa-de-força do nacional-socialismo. A dolorosa gravidez da burguesia alemã não produziu um nascituro democrático e sim um tirano neogótico.

O Social-Darwinismo

Hitler não se abeberou somente do passado nacional alemão com seu culto ao militarismo e ao estado todo- poderoso. O social-darwinismo, extremamente difundido a partir da publicação da obra de Charles Darwin em 1859, teve um peso inequívoco em sua concepção ideológica.

A idéia básica dessa teoria era que, como na selva, os destinos dos povos e a evolução geral da sociedade eram regidos por fatores de ordem biológica. As mesmas leis que existiam na selva e nas savanas imperavam na sociedade humana.

No plano político a ideologia social-darwinista conduzia a fazer uma apologia dos mais fortes, daqueles que conseguiam se impor perante o rebanho. Seriam eles, os ricos, os poderosos, os proprietários, os condutores naturais da sociedade humana da mesma forma que os leões se impõem sobre os demais animais da floresta.

Segundo esse raciocínio, qualquer idéia que propusesse a igualdade entre os homens não estaria apenas propagando uma quimera como igualmente cometendo um atentado contra a natureza.

Os sociais-darwinistas propunham um processo de seleção rigorosa por meio da eugenia, operação que exigia ao mesmo tempo a eliminação e a procriação de certos tipos humanos - quer dizer um controle biológico qualitativo, que permitiria a supremacia de alguns sobre os demais.

Radicalizando-se com o tempo, defendiam a eliminação dos desajustados, o apelo ao dirigismo técnico para a política de colonização, o internamento forçado em silos e a esterilização dos elementos tidos como inferiores.

Essa doutrina trazia em bojo uma categórica rejeição tanto ao socialismo como à democracia na medida em que tanto um como outro se opõe ao domínio do mais forte, ao sucesso do mais apto e capaz, como era aceito pelos sociais-darwinistas.

Não existe igualdade na selva nem se dá a partilha eqüitativa dos recursos materiais. Os leões não são iguais aos cordeiros nem eleitos por esses. Eles simplesmente se impõem aos demais. Como facilmente se observa, todo o programa nacional-socialista já se encontrava previamente esboçado nessas teorias que tinham ampla difusão e aceitação por toda Europa "respeitável" no período anterior à Primeira Guerra Mundial. Já Mussolini bradava a respeito do Movimento Fascista, Noi il leone! Nós os leões!

(*) o termo social-darwinismo surgiu em 1879 por obra de um artigo publicado na revista Popular Science por Oscar Schmidt. Seus antecedentes ideológicos prestam tributo ao demógrafo e economista inglês Thomas Malthus, ao sociólogo Herbert Spence, ao sobrinho de Darwin Francis Galton e ao biologista alemão Ernst Haeckel.

O racismo

Conde Gobineau (1816-1882)
Outra poderosa vertente que fluirá para o caudal da ideologia nacional-socialista estava armazenada no pensamento racista do século XIX. Deve-se observar que as teorias racistas apresentavam em comum um "lamento aristocrático", um fatalismo da nobreza européia que, apesar de ainda granjear respeito, sentia-se cada vez mais marginalizada pelo processo histórico.
Incapazes em poder explicar seu declínio social por meio racionais diziam que a "decadência da raça aristocrática" resultara de uma irresponsável miscigenação com grupos inferiores.

O anti-semitismo

Filme anti-semita "O Eterno Judeu", de 1940 (Cartaz)

Se a difusão das idéias racistas poderia parecer uma novidade no contexto cultural europeu, o mesmo não se pode dizer em relação ao anti-semitismo (*), cujas origens datam no mínimo do tempo das Cruzadas. Deve-se observar, no entanto, uma radical modificação nos argumentos dos anti-semitas. Até o século XVIII, o preconceito contra os judeus se fundamentava em razões de ordem religiosa ou teológica.

No século XIX, com o enorme desenvolvimento das ciências naturais e positivas, os argumentos cristãos caíram em desuso. O moderno anti-semitismo então vai se abeberar na corrente naturalista, dando o surgimento de um anti-semitismo secular que retira seus argumentos da fisiologia, da biologia, da genética e da bacteorologia.

A partir de então a literatura reacionária é pródiga na utilização de termos como "vírus judaico", "bactérias nocivas", etc...aos quais contrapões a política da eugenia, da preservação da raça branca ariana. Mas o anti-semitismo redobra suas forças não só pelos argumentos obtidos junto aos naturalistas.

O século XIX, é o século do nacionalismo burguês, perante o qual o judeu foi visto como um elemento não assimilável, um cosmopolita incorrigível, um apátrida incapaz de aderir ou compreender o conceito de nação. Fato explicitado pelo famoso Caso Dreyfuss ocorrido na França no final daquele século.

O mesmo tema, da impossibilidade de adaptação do judeu a uma outra cultura, foi abordado pelo famoso historiador Heinrich Treitchke, símbolo maior da Alemanha "respeitável", num ensaio de grandes repercussões publicado em 1879. Um dos seus discípulos foi o professor Hans Gunther, autor do "Pequena Etnologia do Povo Alemão", aparecido em 1929, no qual ele celebrou o Ariano Nórdico como a vanguarda da civilização, condenando com veemência a " introdução de sangue estrangeiro" na Europa.

Além disso o anti-semitismo tomou impulso, segundo o historiador Robert Seltzer, por ser uma reação ao sucesso dos judeus emancipados em meio à sociedade européia do século XIX, situação que passou a causar mais temor ainda do que a imagem do antigo judeu de gueto que somente de vez em quando era assolado por violências e pogroms.

Por fim, sob o ponto de vista da direita feudal, a ascensão social dos judeus é a prova inconteste da decadência ocidental da sociedade capitalista, responsável pela extirpação dos valores aristocráticos.

(*) A expressão anti-semita ou anti-semitismo foi cunhada em 1873 por Wilhelm Marr, um escritor alemão, autor do "O caminho da vitória do Germanismo sobre o Judaísmo" que teve larga difusão por todo o país.

Conclusão


Facilmente verifica-se pois que a formação do pensamento político de Hitler deitava raízes firmes no passado recente europeu, nas novas doutrinas anti-democráticas e anti-socialistas que não paravam de emergir num cenário de rivalidade intensa entre as potências e de expansão do domínio do homem branco sobre o restante do planeta e que eram aceitas e difundidas por intelectuais respeitáveis.

Natural que depois da Segunda Guerra desejassem apresentá-lo como uma aberração,uma exceção, como se não houvesse racismo nos Estados Unidos, ou que a política de eugenia (a seleção dos racialmente melhores) fosse praticada somente na Alemanha Nazista, quando ela era praxe em muitos países europeus (na Suíça e na Escandinávia) e mesmo em 25 estados da América do Norte. O que não exime em nenhum momento da responsabilidade de Hitler tê-las adotado como política do estado alemão com terríveis conseqüências para a humanidade.

Bibliografia

Fischer, Klaus P.- Nazi Germany: A New History (1995).

Friedlander, Saul - Nazi Germany and the Jews (1997).

Kershaw, Yan - Hitler, 1889-1933, Hubris,(2001)

Maltitz, Horst von - The Evolution of Hitler's Germany (1973);

Milfull, John (editor) - Why Germany: National Socialist Anti-Semitism and the European Context (1993);

Seltzer, Robert M. Jewish People, Jewish Thought: The Jewish Experience in History (1980);

Tuchman, Barbara - A Torre do Orgulho(1966).

página anterior     
Veja todos os artigos | Voltar
 
 » Conheça o Terra em outros países Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2007,Terra Networks, S.A Proibida sua reprodução total ou parcial
  Anuncie  | Assine | Central do Assinante | Clube Terra | Fale com o Terra | Aviso Legal | Política de Privacidade