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Utopia, da esperança ao desencanto (Parte II)
Considerações sobre a literatura utópica Separam os estudiosos os relatos utópicos em dois tipos, o chamado "clássico" cuja preocupação é eminentemente especulativa, não-prática, um "exercício da razão", e um outro, denominado genericamente de "moderno", que se dedica a modificar a sociedade no sentido e fazê-la orientar-se em função da excelência. Assim sendo, esta última traz consigo três características que a define: 1) estavam "imbuídas com o sentimento de que as sociedades podem melhorar."; 2) está pelo menos composta em parte de planos para melhorar a sociedade; 3) em geral as propostas sugeridas" são impraticáveis no momento em que são descritas".
J.C.Davis, que produziu um verdadeiro tratado sobre a literatura utópica inglesa surgida entre o século XVI e o final do século XVII, procurou fazer uma distinção entre o que ele entende ser "utopia" do que denominou como descrição de "sociedades ideais". Para ele, existem quatro tipos de idealizações sociais:
- A Cocagna, que é a simples descrição de uma terra da abundância, onde há comida e bebida em exagero; b) A Arcádia, que é o sonho de reconciliar o Homem com a Natureza num cenário pastoril; c) A República Moral Perfeita que não passa de um discurso ético feito por filósofos moralistas dirigido aos príncipes e magistrados no sentido deles terem a responsabilidade de erigirem uma sociedade justa; e, por fim, d) O Milenarismo, sociedade religiosa erguida por um profeta real ou fictício que procura preparar a sua comunidade de fiéis seguidores para o Segundo Advento de Jesus Cristo, isolando-se do restante da sociedade e sendo hostil a ela, a qual vê possuída pelo demônio. Já a utopia compreende algo mais intelectual, cerebral mesmo: a tentativa de reconciliação entre as satisfações limitadas e desejos humanos ilimitados dentro de um determinado marco social. A intenção de qualquer utopia é de mudar a natureza humana, considerada, pelas razões as mais diversas, como bem aquém das suas reais possibilidades, fazendo, entre outras coisas, com que os desejos humanos estejam de alguma forma limitados às suas satisfações (o que mais tarde veio a ensejar a máxima do socialismo utópico que desejava moldar a sociedade de acordo com o principio "de cada um de acordo com suas capacidades, a cada um de acordo com suas necessidades"). Todavia, a utopia não acredita na ilusão de que as coisas ruins simplesmente se evaporem. Os problemas de delinqüência, instabilidade social, pobreza, amotinamentos, guerra, etc.. continuarão afligindo a humanidade, exigindo uma estrutura voltada para a totalidade, para a ordem e para a perfeição.
Relação dos principais autores e obras utópicas:
da Antiguidade ao Século das Luzes. 1. Na Antiguidade
PLATO (c. 429-347 BCE), Republic (late 370s BCE)
LUCIAN (born c. 120 CE), The True History 2. No Renascimento até o Iluminismo
THOMAS MORE (1478-1535), De optimo reipublicae statu deque nova insula Utopia (Louvain, 1516)
JOHANN EBERLIN VON GÜNZBURG (c. 1470-1533), New Statuten die Psitacus gebracht hat auss dem Land Wolfaria (Basel, 1521)
ANTON FRANCESCO DONI (1513-1574), I Mondi (1552)
FRANCESCO PATRIZI (1529-1597), La città felice (Venice, 1553)
KASPAR STIBLIN, Commentariolus de eudaemonensium republica (Basel, 1555)
FRANçOIS RABELAIS (c. 1495-1553), Oeuvres (Lyon, 1558)
LODOVICO AGOSTINI (1534-1590), La repubblica imaginaria (written 1585-90)
TOMMASO CAMPANELLA (1568-1639), La città del sole (first Italian version composed 1602; first Latin version published 1623)
JOSEPH HALL (1574-1656), Mundus alter et idem ('Frankfurt' [i.e. London], 1605)
WILLIAM SHAKESPEARE, Henry VI Part II (c. 1590), Act IV, scene 2, and The Tempest (1611)
'I. D. M., GENTILHOMME TOURANGEAU', Histoire du grand et admirable royaume d'Antangil (Saumur, 1616) [On Gallica N101920]
JOHANN VALENTIN ANDREAE (1586-1654), Reipublicae Christianopolitanae descriptio (Strasbourg, 1619)
LODOVICO ZUCCOLO, Dialoghi (Venice, 1625)
FRANCIS BACON (1561-1626), New Atlantis (London, 1627)
'DEMOCRITUS JUNIOR' (i.e. ROBERT BURTON) (1577-1640), The Anatomy of Melancholy (Oxford, 1632), 'Democritus to the Reader'
'DOMINGO GONSALES' (i.e. FRANCIS GODWIN) (1562-1633), The Man in the Moone. Or A discourse of a voyage thither (London, 1638)
[GABRIEL PLATTES] (d. 1662), A Description of the Famous Kingdome of Macaria (London, 1641)
[SAMUEL GOTT], Novae solymae (London, 1648)
GERRARD WINSTANLEY (1609-1676), The Law of Freedom (London, 1652)
JAMES HARRINGTON (1611-1677), The Commonwealth of Oceana (London, 1656)
ANON., 'Letters from Utopia' in Mercurius Politicus (London, 1659)
SAVINIEN CYRANO DE BERGERAC (1619-1655), Les estats et empires de la lune (Paris, 1657) and Les estats et empires du soleil (Paris, 1662)
MARGARET CAVENDISH, DUCHESS OF NEWCASTLE (1623?-1673), The Description of a New Blazing World (London, 1666)
[HENRY NEVILLE] (1620-1694), The Isle of Pines, or, A late discovery of a fourth island in Terra Australis, Incognita (London, 1668) [Wing N505] and A New and Further Discovery of the Islle of Pines (London, 1668) [Wing N509].
JOHANN AMOS COMENIUS (1592-1670), 'Panorthosia', in De rerum humanarum emendatione consultatio catholica (before 1670)
[EDWARD HOWARD] (fl. 1669), The Six Days Adventure; Or, the New Utopia (London, 1671)
JOSEPH GLANVILL (d. 1680), 'Anti-Fanatical Religion and Free Philosophy. In a Continuation of the New Atlantis', in Essays on Several Important Subjects in Philosophy and Religion (London, 1676)
GABRIEL De FOIGNY (1630-1692), Les Avantures de Jacques Sadeur dans la Decouverte et le Voyage de la Terre Australe (Geneva, 1676)
DENIS VAIRASSE D'ALLAIS (c. 1630-1672), Histoire des Séverambes (Paris, 1677-79)
BERNARD le BOVIER de FONTENELLE (1657-1757), Entretiens sue la pluralité des mondes (Paris, 1686)
MARY ASTELL (1668-1731), A Serious Proposal to the Ladies (London, 1694)
FRANçOIS DE SALIGNAC DE LA MOTHE-FéNELON (1651-1715), Les Aventures de Télémaque (Paris, 1699)
'DR. MERRYMAN' (i.e. EDWARD WARD, attrib.) (1667-1731), The Island of Content; Or, a New Paradise Discovered (London, 1709)
[AMBROSE EVANS], The Adventures and Surprizing Deliverances of James Dubourideu and his Wife (London, 1719)
SAMUEL BLUNT, A Voyage to Cacklogalliania (London, 1727)
'MORRIS WILLIAMS' (i.e. AMBROSE PHILLIPS) (1674/5-1749), The Fortunate Shipwreck, or a Description of New Athens (London, 1720)
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WILLIAM SMITH (1727-1803), A General Idea of the College of Mirania (New York, 1753)
[VOLTAIRE] (1694-1778), Candide, ou l'Optimisme, traduit de l'allemand de M. le docteur Ralph (Geneva, 1759)
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JEAN-JACQUES ROUSSEAU (1712-1778), émile ('à la Haye' [i.e. Paris], 1762)
'J. VANDER NECK' (i.e. JAMES BURGH) (1714-75), An Account of the First Settlement, Laws, Form of Government, and Police, of the Cessares, a People of South America (London, 1764)
ANON., Private Letters from an American in England to his Friends in America (London, 1769)
LOUIS SéBASTIEN MERCIER (1740-1814), L'An 2440 (Paris, 1771)
DENIS DIDEROT (1713-1784), Supplément au voyage de Bougainville (1773)
[SARAH SCOTT] (d. 1795), Millennium Hall (London, 1778)
'PHILELEUTHERUS DEVONIENSIS' (i.e. THOMAS NORTHMORE) (1766-1851), Memoirs of Planetes; Or, a Sketch of the Laws and Manners of Makar (London, 1795)
[esta relação foi preparada pelos professores Serjeantson e Jackson, intitulada "Utopian Writing: 1516-1789"]
Berneri, Maria Luisa - El Futuro, viaje a través de la utopia. Editorial Hacer. Barcelona, 1983.
Buber, Martín - Camiños da utopia. Fondo de Cultura Económica. México, 2006.
Buey, Francisco Fernández - Utopías e ilusiones naturales. Barcelona: El viejo topo, 2007.
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Davis, J.C. - Utopia y la sociedad ideal: estudio de la literatura utópica inglesa, 1516-1700. Fundo de Cultura Econômica. México, 1985.
Marius, Richard - Thomas More. Londres: Collins, 1986.
Venturi, Franco - Utopia e reforma no Iluminismo. Santa Catarina: EDUSC, 2003.
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