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Utopia, da esperança ao desencanto (Parte I)
Ao longo da história do pensamento foi constante a presença do sonho utópico, isto é a projeção imaginária de uma sociedade perfeita na qual a maioria das dificuldades material e social tivesse sido abolidas para sempre do convívio humano. Todavia, a partir do século XX, como reflexo da Revolução Russa de 1917 e o surgimento do estado totalitário, tal encanto desapareceu. A utopia transformou-se na distopia.
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Thomas More e sua "Utopia", de 1516
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Comumente é aceito que coube ao filósofo grego Platão ter por primeiro sistematizado o que poderia ser uma sociedade perfeita. O seu diálogo "A República" (escrito entre 387 e 361 a.C.), cujo personagem central é Sócrates, debate longamente o que poderia considerar-se como uma sociedade justa ou Callipolis, a "cidade bela", apresentando como solução uma polis em que a propriedade privada fosse desconhecida, as famílias tradicionais substituídas por uma família coletiva (na qual as crianças seriam consideradas filhas de todos os adultos) sendo o governo exercido pelo mais sábio, por um filobasileus, um rei-filósofo (que por estar mais próximo ao conhecimento do bem, do belo e do justo, jamais daria motivo para haver uma rebelião contra ele).
Esta sociedade modelo não era igualitária, estando hierarquicamente dividia em três agrupações separadas de acordo com a inclinação da alma (psique) de cada um. Aqueles que possuíssem uma inclinação puramente apetitiva, os demiurgói, formariam a base da sociedade. Os que demonstrassem especial valentia (andréia) ocupariam a função de guardiães, enquanto que os mais dotados intelectualmente, os que apresentavam amplo domínio da razão, seriam os regentes da sociedade justa.
Por conseguinte a implantação da sociedade ideal passava obrigatoriamente pela abolição da propriedade e da família e por uma integração social coletiva sujeita ao regime dos mais sábios. Algo assim, afirmou ele em dois outros diálogos (Timeu e Crítias), já havia existido no passado, como se dera em Atlântida, ilha colossal situada bem além das Colunas de Hércules (atual estreito de Gibraltar), que possuía uma sociedade extremamente adiantada e que pereceu vítima de cataclismos inesperados.
Todavia, deve-se a um outro grego, bem posterior a Platão, a um tal de Jâmbulo, que viveu entre os séculos II e I a.C, ter narrado uma fantástica aventura em águas desconhecidas que irá servir como modelo para a maioria dos relatos utópicos que desde então se sucederam. Nunca se encontrou um registro direto dele a não ser o reproduzido pelo satírico grego Luciano de Samosata,que viveu entre os anos de 125 a 181, na sua Uma Historia Verdadeira, onde consta que o aventureiro naufragou numa ilha desconhecida situada entre o Mar Arábico e o Oceano índico. Neste local encantador, paradisíaco, ele conviveu por sete anos numa sociedade perfeita até dela vir a ser expulso.
De volta à Grécia, Jâmbulo registrou a experiência num texto que denominou "As Ilhas do Sol", divulgando então o que passou a ser entendido como as características canônicas de toda a sociedade ideal: 1) os habitantes das ilhas são extraordinariamente formosos, saudáveis e fortes; 2) não há escravos entre eles nem distinções de classe; 3) não freqüentam templos nem ginásios; 4) os filhos das mulheres são comuns a todos; 5) todos estão comprometidos com o trabalho; 6) a alimentação deles é simples e natural; 7) tanto o suicídio como a eutanásia é permitida; 8) mostram total indiferença em relação ao corpo depois da morte; 9) dão muita importância à educação, interessando-se particularmente pela astronomia; 10) tem por costume prestarem culto ao sol e às estrelas.
Tais distinções, com uma ou mais alterações, vão ser reproduzidas por quase toda literatura utópica surgida ao longo dos tempos seguintes.
A explosão das utopias no Renascimento
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“O Jardim das Hespérides” (Tela de Turner, 1806)
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Em grande parte do Medievo a literatura utópica não se fez presente. Isso se deveu ao fato do Cristianismo não demonstrar nenhuma atenção especial para vida na Terra. Ao devoto, ao crente, só interessava o que poderia ocorrer depois da morte, quando aí sim estaria bem próximo a Jesus Cristo e a Deus. Somente histórias do céu atraíam a imaginação do homem medieval, cabendo aos teólogos da Igreja preencherem páginas e mais paginas tentando descrever como se organizavam as coisas no Reino de Deus, povoado exclusivamente pelas almas dos bons, dos puros e dos mais fiéis (*).
Foram as Grandes Descobertas náuticas dos séculos XV e XVI que alteraram profundamente esse cenário falho de utopias. As viagens transatlânticas de Cristóvão Colombo, de Vasco da Gama, de Américo Vespúcio, de Giovanni Caboto, de Giovanni Verrazzano, e a circunavegação de Fernão de Magalhães, abriram as portas para outros mundos e para incontáveis modos de viver totalmente diferentes dos europeus, o que dilatou enormemente a imaginação dos intelectuais do Velho Mundo. O resultado disso foi que a partir dos começos do século XVI, paralelamente às novas descobertas, deu-se uma verdadeira explosão da literatura utópica. Desde então nenhum escritor de relevo ou pensador sério deixou de especular sobre o acontecido, fazendo com que se sentissem desafiados a arquitetarem um edifício utópico, produzindo um número incontável de livros, de ensaios e novelas, nas quais cada um deles fabulou como bem entendeu sobre a existência de uma outra sociedade que deixasse a todos mais próximos da perfeição desejada.
(*) Uma das exceções das histórias fantasiosas a respeito da existência de uma possível Terra da Abundância que corria de boca em boca durante o baixo medievo é a que tratou da existência da Terra da Cocagna, império da glutonaria, onde a fartura reinava sobre tudo o mais. Sobre ela desde os começos do século XIV já circulava um poema exaltando-a:
"Bem longe no mar, a oeste da Espanha/ há uma região chamada Cocagna/Nenhum lugar pode ser comparado a ela/tão pura ela é e de tamanha alegria e felicidade/Tal como o Paraíso é justa e brilhante/Cocagna tem um aspecto vistoso/....... / A comida é boa e a bebida corre livre/Na hora do lanche, é a hora suprema do chá/é verdade sem uma dúvida qualquer/Eu juro/ Nenhuma região da terra pode ser-lhe comparada/ sob o céu país algum dispõe de tanta abundante alegria e felicidade, havendo nela aspectos agradáveis/ Sempre é dia, não há noite."
(poema compilado na Irlanda em 1330, provavelmente escrito pelo monge Michael of Kildare).
Thomas More e a ascensão dos humanistas
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T.Campanella, autor da Cidade do Sol (1623)
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O mais bem sucedido desses literatos utópicos foi sir Thomas More, então um eminente jurista inglês que pertencia à chancelaria do rei Henrique VIII e amigo pessoal do grande humanista Erasmo de Rotterdam. Ele, com seu pequeno ensaio "Utopia", pouco mais de cem páginas editadas em 1516, colocou-se na vanguarda de um movimento que começara a deslocar os antigos valores medievais, dando destaque ao conhecimento e não mais a honra e a coragem do guerreiro feudal. Conhecimento de tal dimensão que lhe permitira, baseado em observações trazidas por um simples marinheiro, um português chamado Rafael Hitlodeu, descrever detalhadamente o funcionamento de uma sociedade perfeita que ele encontrara nas costas do Novo Mundo recém desbravado.
Constatou-se naquele século a emergência de uma classe de intelectuais, formada por acadêmicos, juristas e outros livre-pensadores, que não estava mais atrelada diretamente à Igreja ou às Ordens Religiosas então existentes. Os interesses seculares dela divergem claramente da dos teólogos, visto que os humanistas têm preocupações eminentemente terrenas e recorrem às descrições utópicas tanto para descreverem as sociedades que eles consideram perfeitas como para corrigir os imensos defeitos que percebem existir nas instituições feudais em que viviam. Com eles, observou Jacob Burckhardt, também nasce uma nova diferenciação social, aquela determinada pela existência de "classes cultas" e a das "classes incultas".
Evidentemente que eles não só incorporaram os antigos relatos platônicos e de Jâmbulo, como também retomaram as mitológicas narrativas gregas sobre a existência da Ilha dos Bem-Aventurados criada por Zeus para que alguns vivessem felizes e distantes dos demais mortais, como também a lenda do Jardim das Hespérides, em cujos bosques pendiam as maças de ouro de Hera. A estas releituras das fabulações gregas se somaram às narrativas dos viajantes europeus, marinheiros, aventureiros ou capitães de naus, cujas histórias não cessavam de chegar aos ouvidos deles vindas de todos os portos do Atlântico.
Das diversas obras que foram escritas naquela centúria e na seguinte nenhuma atingiu a celebridade da "Utopia" de Moro, exposição exemplar da sociedade perfeita imaginada por um humanista europeu dos tempos renascentistas e que até os dias de hoje é lida com grande prazer. Exatos um século e dez anos depois da publicação de More, em 1626, um outro conterrâneo dele, o famoso cientista sir Francis Bacon, tentou seguir-lhe os passos com a narrativa intitulada de New Atlantis, a Nova Atlântida, ilha que por igual abrigava uma ordem social perfeita situada no Oceano Pacifico, mais ou menos próxima à costa do Peru, sem todavia alcançar o mesmo sucesso.
Foi pela mesma época que surgiu a obra de Tommaso Campanella intitulada Civitas Sole, a Cidade do Sol, de 1623, por igual extraída de um suposto relato feita por um almirante genovês (certamente que Cristóvão Colombo) a um grão-mestre hospitalário, sobre a magnífica cidade que ele encontrara no seu contanto com o Novo Mundo controlada inteiramente por um supremo-magistrado denominado de Metafísico.
A essa altura podia-se verificar que as construções utópicas produzidas no Renascimento e nos séculos seguintes eram produto intelectual de um sincretismo no qual autores, apoiados no que Richard Marius denominou de "a herança grega", na experiência cristã de igualdade amealhada no claustro monasterial, incorporaram os relatos trazidos pelos viajantes sobre a organização das sociedades indígenas (fossem impérios ou simples tribos) encontradas no Novo Mundo.
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