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POLÍTICA

Por um mundo pós-americano (parte III)

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Ao contrário das aparências, os Estados Unidos já não ditam suas ordens ao mundo. De fato, os últimos acontecimentos indicam o surgimento de um outro mundo, um mundo no qual a hiperpotência americana já não consegue mais impor sua vontade. Essa é a posição, marcadamente polêmica, do cientista político e historiador econômico Immanuel Wallerstein.

Chiapas e Seattle

Para Wallerstein, o cenário otimista que a globalização contava até então foi abalado por dois acontecimentos muito significativos, senão que dramáticos. O primeiro deles partiu dos fundões do México, no estado de Chipas, onde eclodiu o levante dos Zapatistas chefiado pelo subcomandante Marcos, líder do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN). Os índios daquela região muito pobre se rebelaram exatamente no ano, o de 1994, que entrou em vigor o NAFTA (Tratado Norte-Americano do Livre Comércio), acerto que estreitava ainda mais as relações econômicas do México com os Estados Unidos e o Canadá, entendido pelas lideranças nativas como um passo funesto rumo à globalização.

O segundo acontecimento estourou cinco anos depois numa cidade norte-americana, em Seattle, capital do estado de Washington, situada na baia de Eliot, na costa noroeste dos Estados Unidos, quando organizações anarquistas e representantes sindicais da AFLO-CIO, desencadearam uma violenta manifestação de rua contra a realização do encontro da WTO (World Trade Organization), a Organização Mundial do Comércio, a N30, que seria iniciada em 30 de novembro de 1999, naquela cidade mesmo.

Esses dois episódios inesperados e retumbantes, um em Chiapas e outro em Seattle, ainda que bem distanciados entre si, assinalam para Wallerstein a forte reação popular antiglobalização e uma afirmação por uma maior participação democrática nas discussões internacionais que tratam da integração econômica – limitada quase sempre aos técnicos e aos políticos - que se seguem desde então.

Davos versus Porto Alegre

Zapatistas em Chiapas
Outro enfrentamento internacional destacado por ele, ainda que circunscrito ao mundo das idéias, foi a rivalidade resultante entre as propostas expostas em Davos na Suíça e aquela que procederam do Foro Social Mundial, ocorrido em Porto Alegre, a primeira vez em 25-30 de janeiro de 2001.

No vilarejo do cantão dos Grisões encontram-se anualmente as mais poderosas organizações da terra reunidos no WEF (World Economic Fórum), no Foro Econômico Mundial, fundado pelo economista teuto-suíço Klaus Schwab, em 1971, com o intento de aperfeiçoar o sistema capitalista, e que conta, além da presença de empresários, executivos e estadistas de renome, com a participação de Organizações Não-Governamentais, tais como a Anistia Internacional,a Transparência Internacional ou a Oxfam, que luta contra a fome.

Apesar de proporcionar um clima franco, aberto e informal, a reunião de Davos tem sido criticada por seu caráter eminentemente elitista, como que recriando uma espécie de Monte Olímpico no qual os deuses do nosso tempo reúnem-se para decidir os destinos do mundo.

Já o Foro Social Mundial teve outras procedências. Devido a prefeitura de Porto Alegre estar na ocasião nas mãos do Partido dos Trabalhadores (o PT), uma organização política da esquerda brasileira, criou-se a oportunidade para que a capital do Rio Grande do Sul abrigasse nos dias quentes de janeiro uma enorme concentração de militantes políticos, intelectuais e ativistas sociais vindos de diversas partes do Brasil e do exterior (editores do jornal francês Le Monde encontravam-se entre seus principais organizadores) para debater as possibilidades futuras de um Outro Mundo Possível (posteriormente, o Foro Social Mundial transferiu-se para outros locais do mundo). Para Wallerstein, essa assembléia das esquerdas concretizou no plano ideológico as duas manifestações mais contundentes da antiglobalização que ocorreram em Chiapas e Seattle, entre 1994 e 1999, tornado-se sua conseqüência lógica.

Cristalizou-se uma polarização entre Davos e Porto Alegre, entre o Fórum Econômico Mundial e o Foro Social Mundial, um representando a defesa do neoliberalismo (não excluindo a preocupação com a reforma do capitalismo), e o outro, segundo sua Carta de Princípios, apostando na retomada de um socialismo não-dogmático e democrático, comprometido com as reivindicações dos excluídos, totalmente oposto ao que fora praticado na URSS. Iniciou-se um diálogo entre dois mundos, entre duas propostas, sem que saiba qual delas irá prevalecer no futuro.

Bibliografia

Wallerstein, Immanuel - O Declínio do Poder Americano, São Paulo: Contraponto Editora, 2004.

Wallerstein, Immanuel - O Universalismo Europeu. São Paulo: Editora Boitempo, 2007.

Wallerstein, Immanuel - O Sistema Mundial Moderno. Lisboa: Afrontamento, 1990, 2v.

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