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Estado e Sacrifícios Humanos
Toda organização política e social exige para o seu funcionamento e seu modo de ser uma cota de sacrifícios humanos. A vida em sociedade de algum modo cobra sua parte em sangue. É isto o que a história nos mostra: cada organização social e seu respectivo estado instituído, tem o seu próprio procedimento executor. Em total sintonia com a essência que o inspira, cada qual desenvolve o seu ritual e a sua liturgia de morte para cobrar sua parte em vidas em nome do principio religioso ou ideológico que o move, o sustenta, e que o justifica.
O Estado Sacrifical Asteca
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Extraindo o coração da vítima ( Mural de Orozco)
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Por meio de um golpe preciso, de grande habilidade cirúrgica, a faca do sacerdote-executor rapidamente abria o peito da vítima. Então, dilatando-o, extraía de dentro dele o coração ainda palpitante. A seguir, erguia-o, ainda banhado em sangue, para que o povo aglomerado lá embaixo da pirâmide sagrada o visse. Garantia assim o sacerdote, com aquele gesto, que o sol voltaria a nascer no dia seguinte e que as coisas boas da vida continuariam ocorrendo como sempre.Tais holocaustos humanos eram periodicamente reclamados pelo Estado Sacrifical das culturas pré-hispânicas, que se estendiam desde a imponente cidade de Tenochtitlán, no México, até Guaiaquil, no Equador de hoje. Os tétricos espetáculos eram praticados tanto no alto das pirâmides gêmeas de Huitzilopochtli e Tláloc, os deuses da guerra e da chuva dos astecas, situadas na capital dos mexicas, como sobre uma simples pedra circular como se dava em outras regiões. Na teologia indígena, para a estrela maior voltar todos os dias a nascer e abençoar a terra com seus raios redentores, fazendo o milho crescer, cobrava em troca das benesses enormes porções de sangue humano. Com aquele cerimonial macabro os sacerdotes satisfaziam o tonalli, os espíritos animados que tudo dominavam ao redor deles e de quem os astecas acreditavam depender.
O Estado Sacrifical Tirânico
Entre seus sucessores modernos surgiu o Estado Tirânico que, não importando o símbolo ou a coloração ideológica, também impôs como sua razão de ser exigir um número impressionante de sacrifícios humanos. A distinção, porém, é que os suplícios requeridos pela Grande Causa, sustentáculo ideológico de qualquer Estado Tirânico, são feitos geralmente em segredo, longe das vistas do povo. Os selecionados para o martírio eram os que se opunham à tirania ou aqueles a quem ela simplesmente, por um ou outro motivo, desejava eliminar, os que de alguma forma não se afinavam com o Espirito Oficial, com a "alma" do regime. Os inconvenientes sumiam então na "noite e na neblina".Neste caso os sacerdotes-executores do Estado Tirânico eram agentes da polícia política instruídos nas artes de matar com sumário tiro na nuca, ou em operações de morte em massa levadas a cabo em grandes campos de extermínio. Para satisfazer o apetite insaciável da tirania por destroços humanos, enquanto ela durava, alimentavam-na com um sem-fim de corpos esfaimados, torturados, seviciados, e, por fim, baleados.
O Sacrifício Humano no Estado de Direito
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Um assassinato ( tela de Caravaggio)
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Engana-se, porém, quem acredita que o moderno Estado de Direito, predominante em boa parte do mundo ocidental, tenha dispensado a exigência dos sacrifícios humanos, os considerando aberrações exclusivas dos estados assassinos de um passado já superado. Ao contrário, o que ocorreu é que o Estado de Direito, abdicando dele mesmo presidir o cerimonial lúgubre, transferiu o rigor das execuções, à punhal, porrete ou à bala, para as mãos privadas. Quem neles faz às vezes de sacerdotes-executores ou de policial-carracaso são os criminosos comuns, assassinos soltos pelas ruas que escolhem suas vítimas aleatoriamente, ao seu bel prazer, como se fora um arremate final do roubo ou do assalto que praticam. Treinados e instruídos dentro das prisões e logo postos em liberdade por legislações penais licenciosas que teimam em ignorar a existência do mal, ou por simples fuga, sob a bandeira da Ressocialização do Criminoso, de remota inspiração iluminista, eles exterminam democraticamente milhares de pessoas por ano. Matam ao deus-dará homens, mulheres, crianças, jovens ou idosos. Trucidam-nos na rua, na praça, dentro das casas ou no pátio das escolas, nas agencias bancárias ou no interior dos ônibus, na venda da esquina ou nas vielas de um morro. Para eles não há um local sacrificial especifico em que devam praticar os crimes, pois eles têm a franquia total dos espaços, visto que o Estado de Direito abre-lhe democraticamente o acesso às ruas. Para melhor orientá-los no seu oficio de morte, atiçando-lhes e aperfeiçoando-lhes a imaginação e a habilidade, a televisão e o cinema, albergados e protegidos por um entendimento pervertido do direito de livre expressão, garantido pelo Estado de Direito, apontam-lhe todos os dias, a qualquer hora, as mais diversas formas e maneiras de tirar a vida de alguém (calcula-se que nos Estados Unidos os espectadores de televisão estão expostos de 6 a 8 mil assassinatos por mês). Enquanto o Estado Sacrificial dos indígenas exigia, estimou-se, 20 mil vidas por ano, o Estado de Direito (pelo menos no Brasil de hoje) não se satisfaz senão com que umas 55 mil vítimas, que é a média anual dos homicídios no País. No Estado Sacrificial e no Estado Tirânico o medo vinha de cima, dos aparatos superiores formados pelos sacerdotes ou pela polícia política, no Estado de Direito contemporâneo o pavor vem de baixo, dos subterrâneos sociais ou dos bolsões periféricos da sociedade.
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