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POLÍTICA

A receita contra os fracassados

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» Fukuyama e os Estados fracassados
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A receita contra os fracassados
 
E quais seriam esses Estados Fracassados? Da lista de Fukuyama fazem parte o Afeganistão (antes da invasão “corretiva” dos Estados Unidos), a Somália, o Haiti, a Bósnia, Kosovo, e uma boa quantidade de países da África Ocidental (Serra Leoa, Costa do Marfim, etc...). Portanto, Senhor, guardai-nos dos pobres! Especialmente se árabes e africanos.

O remédio que ele prescreve é um intervenção externa (obviamente feita pelos Estados Unidos, segundo o seu próprio critério) no sentido de “construir instituições” que restabeleçam a ordem entre os fracassados - uma espécie de imperialismo benéfico que agiria com as ferramentas da engenharia política para resgatar aqueles perigosos estados falidos do caos em que se encontram.

O detalhe deste novo tipo de ação imperial é que ela é movida por considerações puramente egoístas. Intervém-se não para trazer paz e tranqüilidade ao povo local, mas sim para evitar que o tumulto que lá ocorre atravesse, como se fosse um epidemia, a fronteira do império, contaminando-o. É uma operação de profilaxia que bem pouco tem a haver com o intervencionismo humanitário que tanto fazia o gosto do presidente Woodrow Wilson (mandato de 1913-1921) e sua tese do imperialismo filantrópico (A América agindo externamente e espargindo regras democráticas pelo mundo).

Nada condiz com a realidade

Reconstruindo o Estado no Afeganistão (patrulha da infantaria)
Mas o mais fantástico da tese de Fukuyama é que suas afirmações não condizem minimamente com a realidade dos fatos. A célula terrorista que atacou Nova York e Washington não estava acoitada em nenhum Estado Fracassado, mas tinha sua base original na Alemanha, aliada dos americanos na OTAN. O mesmo aplica-se aos que provocaram o morticínio da Estação Antocha, em Madri, no 14 de março de 2004, todos eles vivendo na Espanha, sendo que muitos vieram do reino do Marrocos, cuja monarquia sempre esteve ligada aos interesses ocidentais. Não se deslocaram nem do Afeganistão nem da Somália, ou de qualquer outro possível Estado falido.

A maioria dos suicidas do Onze de Setembro eram súditos sauditas, cuja monarquia é parceira dos Estados Unidos e esta bem longe de ser um Estado Fracassado. Como, por igual, o maior fluxo de drogas que chega aos Estados Unidos e à Europa não provem de nenhum das nações citadas por ele mas da Colômbia, país que recebe verba orçamentária do Departamento de Estado norte-americano para lutar contra a guerrilha. E mais, o ópio e a heroína voltaram a fartura no mercado mundial desde que a invasão norte-americana do Afeganistão, ao destruir o governo dos talibãs, restaurou a antiga confederação tribal e com ela o poder dos senhores-da-guerra que dominam as regiões de cultivo da papoula (planta de onde extrai-se o ópio). Por conseguinte, a presença norte-americana na “ construção” do Estado Fracassado do Afeganistão, ao invés de conter, ajudou a impulsionar a exportação da droga.

E, por igual, é bom lembrar que o Iraque, que antes da ocupação norte-americana desconhecia um só atentado terrorista, hoje é o recordista mundial da ação dos homens-bomba e dos assassinatos em massa. Nada, todavia, demove Fukuyama de afirmar peremptoriamente que “ promover a governança dos Estados fracos, melhorar sua legitimidade democrática e fortalecer instituições auto-sustentáveis – passaram a ser o projeto central da política internacional contemporânea.”(Construção de Estados, 2004, pag. 131).

O estado reforçado

Numa espécie de revisionismo aplicado ao furor com que o liberalismo da década dos noventa do século 20 lançou-se no desmantelamento ou ao enfraquecimento do estado, de qualquer tipo que fosse, Fukuyama observa que ao seguirem, obedientes, aquela cartilha anti-estatizante que predominou por mais de dez anos, alguns países do Terceiro Mundo simplesmente desaparelharam suas instituições, deixando a sociedade soçobrar, desprotegida em meio às turbulências sociais e econômicas que começaram a sacudi-las.

Como corretivo disso, ele propõe a retomada da importância do estado, ainda que em modestas proporções. Não se trata de um retorno ao estado mastodônico existente de antes de 1989, mas a um tipo de estado pequeno mas taludo, capaz pelo menos de fazer-se respeitar e de impor uma certa ordem. Diga-se que Fukuyama, que não é nenhum ingênuo ou romântico, mantém-se céptico em relação à possibilidade efetiva de uma força externa, por mais impressionante que ela seja, poder vir a construir uma ordem democrática estável se, no país-alvo, não existirem condições internas, objetivas, que permitam sua conversão definitiva à boa causa.

Curioso, ele considera um erro a invasão norte-americana do Iraque sem ter obtido a concordância do Conselho de Segurança da ONU. Posição essa gerada não por algum problema de ordem moral ou questão de ofensa ao direito internacional, resultante da maior potência militar do mundo atacar com falsos pretextos um país do Terceiro Mundo, mas porque agora o custo geral da operação recai somente sobre o tesouro dos Estados Unidos. No desastre que se revelou a invasão do Iraque, com milhares de civis mortos e com o país praticamente destruído, ele, com o amoralismo que tanto caracteriza os altos funcionários e os ideólogos do poder imperial, percebeu naquilo apenas uma questão de dinheiro.

Leitura recomendada
Fukuyama, Francis – Construção de Estados: Governo e organização no século XXI. Rio de Janeiro, Rocco, 2005.

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