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POLÍTICA

Cícero e a virtude da vida ativa

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Cícero, advogado, orador e escritor romano, assassinado no ano de 43 a.C., há mais de dois mil anos atrás, provavelmente foi o maior Mestre de Civismo que o Ocidente conheceu. Além de celebrizar-se como personalidade enérgica, infatigável, capaz de eletrizar as multidões com seus discursos, concentrou toda sua imensa atividade intelectual em promover o amor à pátria, promover a decência e a servir à República Romana. Desde aquela época, seus ideais e seus textos foram lidos das mais diversas formas para promover a cidadania e o engajamento dos homens qualificados nos assuntos públicos.

Cícero e as escolas gregas

M.T.Cícero (106- 43 a.C.)
Quando Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.), retirando-se por momentos das atividades públicas para as suas vilas de Túsculo e Fórmia, entregava-se aos seus ensaios éticos, o que predominava na cultura romana da sua época eram as escolas filosóficas gregas. Especialmente os estóicos faziam furor entre a gente letrada e o patriciado culto da República Imperial. O principio básico que elas difundiam, fosse qual fosse sua tendência, é de que o homem verdadeiramente sábio devia evitar deixar-se dominar pelas emoções, pelas paixões e pelos desatinos outros que o acometiam ao longo da vida.

O melhor mesmo, o ideal estóico, era buscar a excelência num retiro, cultivar um ócio contemplativo, no estudo, reflexão e meditação, voltado para o aperfeiçoamento ético de si mesmo. O objetivo era blindar-se moralmente frente aos possíveis e inevitáveis sofrimentos. O resultado final disso levava à ataraxia, uma situação mental cultivada que evitava qualquer perturbação da paz alcançada. O mundo lá fora, o cenário do espaço público, era visto como idêntico a uma arena selvagem, palco da violência e a trapaça. Lugar de aventureiros, de gladiadores e da plebe, nada que fosse digno de um verdadeiro cavalheiro. O seu íntimo, aconselhava o estóico, devia por-se a salvo daquilo tudo.

A celebração da ação pública

Para ele, que assumira tantas magistraturas ao longo da sua vida pública (entre 75-51 a.C., foi questor, edil, pretor, cônsul e procônsul na Cilícia, culminando sua benemerência cívica com o título de "Pai da Pátria"), seguir tal linha filosófica parecia-lhe um absurdo. Advogado militante, homem polêmico, orador impressionante, defensor de causas sensacionais, sempre envolvido nas tempestades públicas do seu tempo, personagem de ação por excelência, o cônsul que conseguira espantar de Roma o perigoso conspirador Catilina apenas com discursos contundentes, não podia aceitar o isolamento como virtude.

Apesar da admiração dele pela doutrina estóica, particularmente a invocação dela em favor do autocontrole, aquela peroração apartada das coisas práticas lhe soou estranha. Nos De Officiis (Dos Deveres, 44 a.C.) assinalou "suponhamos que um sábio se encontra em situação de abundância, gozando de repouso e ociosidade que lhe permite meditar e considerar tudo o que deseja conhecer: se está sem ver ninguém, em grande solidão, é preferível terminar sua vida" (Dos Deveres, Livro I, XLIII)
Cícero, todavia, reconhecia a importância da Filosofia. Ela ajudava a descortinar os horizontes naturalmente estreitos dos indivíduos. Assim é que passou a dedicar o seu tempo livre a publicar uma série de tratados éticos de divulgação, tendo em mente elevar o nível dos cidadãos romanos. "Não é pelas luzes das pessoas de estudo" perguntou ele retórico "que as grandes personalidades tornaram-se melhores cidadãos e mais úteis à República?" (Dos Deveres, Livro I, XLIV) Por isso mesmo seu intento como homem de letras e de ação era remover a Filosofia de dentro das escolas, retirá-la do espaço constrangedor da Academia ou do Liceo, de fazê-la sair debaixo das colunas do Pórtico ou dos caminhos do Jardim de Epicuro, e traze-la para dentro do Fórum Romano para pô-la ao serviço dos homens de ação, como munição para o debate qualificado. Derrotar os adversários a golpes de dialética, pela força da retórica, era a sua meta.

"A virtude", insistiu ele, "afirma-se por completo na prática, e seu melhor uso consiste em governar a república e converter em obras as palavras que se ouvem nas escolas." (Da República, Livro I, II).

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