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A sociedade totalitária de Chigáliev
Abalado por um crime político - o brutal assassinato de um estudante que militara numa das tantas células clandestinas que se opunham ao czar, morto pelos seus próprios companheiros, em 1870 -, Dostoiévski resolveu romper definitivamente com os grupos de esquerda escrevendo uma novela sensacional: Os Demônios (1871-72).Na Rússia daquela época, ao redor de 1860-80, era forte o movimento niilista, formado por jovens estudantes, jornalistas, escritores e intelectuais em geral, que desprezava Deus e o Czar que pregavam a necessidade da revolução violenta para mudar radicalmente o destino do império.
O efeito da Comuna de Paris
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Raskolnikov, o perigoso niilista (personagem de Crime e Castigo)
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Neste meio tempo, em março de 1871, explodiu a Comuna de Paris com seus incêndios e desordens provocados pela insurreição dos trabalhadores contra o governo burguês de Versalhes, o que fez com que Dostoiévski, cada vez mais conservador, amaldiçoasse ainda mais os ideais liberais, anarquistas e socialistas, que faziam o gosto da juventude politizada e da intelligentsia do seu tempo. A resposta dele à vista da desordem que se avinhava foi "Os Demônios" (Biesy), que apareceu em capítulos entre 1870-1872 na Revista O Mensageiro Russo. Neles, o fechado mundo dos revolucionários, sempre conspirando e cabalando contra a ordem vigente, assemelha-se ao Inferno de Dante. E, entre tantas descrições tétricas, Dostoiévski, que passou a considerar o socialismo como uma heresia, uma nova descrença em Cristo, expõe o plano de Chigáliev, um nome ficcional cujas teorias sociais são defendidas por um dos personagens centrais do livro. Nada mais é do que a premonitória descrição da implantação do estado totalitário na Rússia. Por isso chamaram-no de "o profeta da Revolução Russa".
Vierkhoviénski expõe a nova doutrina
A história de "Os Demônios" transcorre no interior da Rússia, numa cidade de porte médio não identificada pelo autor. Lá se encontra uma célula de revolucionários, muitos deles vindos do exterior (de onde, segundo Dostoiévski, voltaram contaminados pelas doutrinas subversivas e anti-russas) que, ao tempo em que se infiltram na sociedade local, planejam uma série de atentados terroristas contra as autoridades e contra comunidade local.Logo após saírem de um reunião clandestina, Piotr Vierkhoviénski, um do mais ativos conspiradores, um oportunista que viu na revolução uma maneira de ascender e projetar-se socialmente, tenta convencer o principe Nikolai Stavróguin, um nobre entediado - uma espécie de Byron russo, um tipo satânico que aderira a causa da revolução -, a assumir a liderança do grande levante futuro para vir a ser o novo ditador do país e, em seguida, implantar o projeto social de Chigáliev, um ourives que nas horas vagas assumia-se como reformador do mundo.
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