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POLÍTICA

O evangelho de Zola

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Como tantos outros homens de letras e pensadores sociais do século XIX, como seus conterrâneos Charles Fourier, Proudhom, Considérant, Eugène Cabet, e mesmo o fantasioso e imaginativo Jules Verne, o romancista Emile Zola (1840-1902), por igual, dedicou-se a formular numa série de novelas – as últimas que escreveu – à reforma social, a tentar superar a guerra entre o capital e o trabalho que tantas convulsões provocou na idade contemporânea. Significativamente, denominou-as de Quatre Évangiles, os Quatro Evangelhos.

O país negro

Emile Zola (1840-1902)
Os franceses chamam-na de o País Negro. Trata-se da zona carbonífera do Passo de Calais e da bacia de Charleroi , situada no norte do país, fronteira com a Bélgica, em cujas profundezas subterrâneas acham-se as grandes bacias de lignita e hulha negra. Precioso minério, impulsionador das máquinas, arrancado a ferros por um exército de escavadores que diariamente, desafiando a morte, descem nos profundíssimos poços daquelas trevas feitas de labirintos de breu.

Conforme a revolução industrial na França fora se estendendo pelo século XIX, maiores tornaram-se as pressões sobre as costas dos mineiros para que aumentassem, em meio a mil perigos, a tonelagem extraída. Situação que se estendeu até que, em 1884, uma greve geral eclodiu por toda a região. Exaustos e famintos, eles cruzaram os braços.

A França, ainda traumatizada com a lembrança da Comuna de Paris de 1871, eletrizou-se. Os patrões chamaram o exército e a greve, com vários mortos, foi sufocada. Emile Zola, seguramente o mais popular e prolixo escritor da França de então, chocado com os relatos que recebera sobre o episódio, pôs mãos à obra, escrevendo a sua versão da grande paralisação dos mineiros. O resultado foi um clássico da literatura social: Germinal, aparecido em 1885.

A guerra social

Longe de afilhar-se à escola de Victor Hugo ou de Michelet, que quase santificavam “le peuple”, o povo, Zola, seguindo a linha do naturalismo extremado, tratou de expor a miséria e as desgraças fatais que o meio ambiente causava no proletariado. As condições horríveis em que os operários braçais viviam faziam com que “o povo se mantivesse na ignorância e vivesse afundado na lama, que onde é obrigado a trabalhar e tirar o sustento”.(Carta a G.Montorgueil, 1885).

Travava-se, para ele, no campo social da produção, um combate épico entre os “gordos e o magros”, entre o capital e o trabalho, para o qual decidiu contribuir com idéias para evitar que uma futura revolução do povo, esfomeado e doido, provocasse uma enxurrada de sangue burguês, uma exibição de cabeças cortadas, acompanhada pela pilhagem do ouro nos cofres estourados.

Sentiu-se como um apostolo social voltado para oferecer receitas da reforma da sociedade. Típica dessa tomada de posição foi o título que ele adotou para a sua obra derradeira: os Quatro Evangelhos, uma tetralogia de novelas dividida em “Fecundidade” (1889), “Trabalho” (1901, “Verdade” e “Justiça”, os dois últimos póstumos.

No mais conhecido deles, o “Trabalho”, Zola concentra a narrativa nas atividades de um reformador itinerante, um tal de Luc que se diz seguidor de Charles Fourier, o mais famoso dos socialistas utópicos daquela época, e que chega no coração da zona mineira e metalúrgica - onde, desde 1864, o magnata Ernest Solvay formara o seu império de solda e de aço - , com a missão de fundar uma associação operária.

O falanstério de Zola (*)

Operários siderúrgicos, trabalhando no inferno (tela de M. Luce, 1896)


"Ponham-se em guarda, olhai sobre a terra, vejam esses miseráveis que trabalham e que sofrem. Há talvez ainda tempo para evitar as catástrofes finais. Atentem porém em serem justos, de outro modo eis o perigo: a terra se abrirá e as nações submergirão numa das mais apavorantes transformações da história."
E. Zola, L´Oeuvre, dossier preparatoire,1885

Em seguida a uma impressionante descrição da corrida do aço numa siderurgia, no capitulo introdutório intitulado “O Abismo” (na qual os operários, em meio à forjas quentíssimas, como se fossem servos de Vulcano, parecem estar numa sucursal do inferno, situação que por igual comoveu o pintor Maximillien Luce, autor da impressionante tela “Fondarie à Charleroi, 1896), Zola, como tantos outros homens de letras daquele século, dedicou-se a descrever o seu projeto utópico. Imaginou-o, tal ordenamento perfeito, como o falanstério de Crêcherie, local radiante (bem o oposto à caverna incandescente da metalurgia), no qual homens e mulheres conviviam coletivamente em condições ideais de habitação e trabalho.

Ao escritor, testemunha da Comuna de 1871, repugnava a revolução, apostando sim na regeneração da sociedade burguesa desde que se recorresse a um amplo programa de reformas que implicava em por fim ao despotismo do Capital sobre a mão-de-obra, reintegrando numa mesma ordem social pacificada tanto o patrão como o empregado. A estratégia que ele adotou compreendia em expor as mazelas dos trabalhadores para obter a simpatia geral da sociedade, especialmente da burguesia liberal mais culta, para que, sensibilizada pela crueza dos relatos dos seus livros, apoiassem as políticas de proteção aos operários.


(*) A palavra Falanstério (do grego falanx = coletivo, phalanstère em francês), foi criada pelo socialista utópico Charles Fourier (1772- 1837) , e compreendia um prédio enorme onde 810 casais, perfazendo 1.620 pessoas, agrupados pela afinidade do seu temperamento (passions cardinales: ambição, amizade, amor e parentesco), trabalhavam no artesanato e na agricultura alternadamente. Para Fourier era o modelo ideal de convivência que a sociedade futura deveria abraçar.

    
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