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Hobbes e o autômato arruinado - A tarefa do Estado
A tarefa dele era afastar os perigos, esconjurar o medo da morte brutal que qualquer ser humano traz consigo desde a nascença. Manter a integridade dele, a sua unidade, era a suprema missão do principe ou do estadista. Hobbes, crescido em meio aos horrores da guerra civil do Parlamento contra a Coroa britânica (1642-1649), hostilizou qualquer menção à divisão dos poderes, tão querida dos teóricos liberais. O Leviatã, o monstro marinho bíblico que inspirou o título do livro dele, também tinha outro encargo: arrancar a sociedade do seu estado natural onde os homens devoravam uns aos outros como se fossem feras, e levá-la a um patamar superior, mais civilizado, o da sociedade civil - o império da lei e da ordem. A sua empreitada era livrar-nos do Caos da desordem social e manter-nos no Cosmo da segurança e tranqüilidade. Na álgebra dele, por conseguinte, menos estado representava de imediato mais desordem, mais dissolução dos costumes e mais brutalidade. Desamparado dele, ausentado o Estado das suas tarefas, ao homem só restava retornar ao que era sua vida de antanho, às idades primeiras, selvagens, “sem arte, sem escrita, sem sociedade, em contínuo pavor, ameaçado pela morte violenta”, levando uma existência, “ solitária, pobre, suja, sórdida e curta”.
No transcorrer do século 20, o autômato de Hobbes reinou em grande parte do período devido as mazelas da Grande Depressão, da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria que se lhe seguiu. Pelos quatro cantos da Terra foram construídos poderosos robôs que trataram da segurança interna e externa, fruto da sensação de ameaça permanente que os países e grandes sistemas ideológicos moviam uns contra os outros. Entretanto, com o derrocada , entre 1989-1991, do poderoso Autômato Vermelho, criado por Lenin e por Stalin, uma lassidão e uma licença, um relaxo geral atingiu a todos os demais. Com o desaparecimento da possibilidade de uma guerra total e afastada do fronte interno a revolução social, as tenazes do Estado, agora estonteado e imobilizado pelo discurso liberal mais radical, afrouxaram-se. Então, aceleradamente, os temores de Hobbes logo se fizeram sentir. Na maioria dos lugares, aproveitando-se da ruína do autômato enferrujado e desmantelado, a Violência e o Crime, universalizando-se, deram para assolar a sociedade civil. E cada cidadão, atemorizado, recolhe-se para sua casa, tornada fortim ou trincheira, para dali manter a última e desesperada resistência às alcatéias dos lobos que, sem freios, uivam ao seu redor pelas ruas e pelas sombras.
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