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Rousseau foi sua vítima

Outra vítima de sua pena foi Jean-Jacques Rousseau, a quem remeteu uma das mais mordazes cartas que um intelectual jamais enviara a outro.

Comentando um dos discursos no qual o genebrino defendia a idéia de que a cultura e a civilização pervertem o homem, arrebatando-o do seu bondoso estado natural, Voltaire convidou-o para que o visitasse em Ferney, colocando os pastos da sua bela propriedade à disposição, para que ali, "ruminando em companhia dos bois e das vacas", Rousseau reencontrasse o sua verdadeira natureza.

Voltaire não perdoou o ataque que Rousseau fez à civilização. Afinal ele era o mais ardoroso defensor das luzes que associara ao avanço geral da cultura. Atacar uma, como o genebrino fizera no seu Discurso sobre as Ciências e as Artes, de 1750, era apagar a outra. O mal do mundo, dizia Voltaire, não vinha das letras nem das artes, mas exatamente da ausência delas, da ignorância e da superstição. O "bom selvagem" idealizado por Rousseau era um mitificação, pois nada de bom pode surgir em meio ao primitivismo e à barbárie. Logo, dizer que a vida selvagem por estar mais próxima a natureza, era melhor que a civilizada, era um desatino.

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Diderot(1713-1784)
Daquela época até o fim das suas vidas, vinte e oito anos depois, os dois passaram a terçar as penas sempre que houve uma oportunidade. Certa ocasião, bastou Voltaire ter insistido em abrir um teatro em Genebra, capital do calvinismo (e cidade onde Rousseau nascera), na qual se considerava a encenação uma atividade ímpia, para que Rousseau saltasse em defesa dos censores em nome da pureza dos costumes locais.

Esta indisposição entre eles não os impediu porém de, a convite de Diderot, aceitarem participar como colaboradores de alguns verbetes da monumental Enciclopédia (Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et des Métiers) que estava em organização desde 1758, e que com seus 28 volumes tornou-se o grande monumento científico e literário do Iluminismo.

O respeito à opinião alheia

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A família Calas, vítima do fanatismo
Para Julien Benda e tantos outros, a luta de Voltaire a favor da liberdade de expressão e pensamento, pela abolição da tortura, sua solidariedade para com as vítimas das perseguições motivadas por preconceito religioso (como no affair Calas e no caso Sirven), o seu combate à intolerância e à idiotia perniciosa dos ignorantes, gerou o clima para a realização das grandes modificações na legislação que nos conduziu à democracia moderna. Esmerou-se o tempo todo para que a liberdade de expressão fosse conquistada e respeitada, não importando que ele mesmo fosse o alvo de virulentas críticas. Politicamente, porém, Voltaire estava muito longe de ser um republicano, muito menos um democrata.

Visão da História

Apesar dele ser questionado por não apresentar uma filosofia da História, sua concepção dela, da História, exposta na introdução do Le siècle de Louis XIV, de 1751, não deixa dúvidas que atribuía o progresso da cultura e das letras à existência de grandes príncipes e brilhantes chefes de Estado. Para ele devia-se tudo a um Péricles, a um Augusto, aos Médici, a estadistas ilustrados que se cercavam de homens de letras, de artistas e gente sábia (tal como no passado antigo e renascentista, o ateniense fizera com Anaxágoras e Fídias, o romano com Virgílio e os florentino com Maquiavel e Bruneleschi).

A afortunada aliança do espírito com a política, do homem de letras e artes com o poder, era a chave que explicava os momentos de exuberância que os impérios alcançaram outrora. Exemplo que ele só encontrara em seu tempo com o seu amigo e correspondente Frederico II, rei da Prússia, que reuniu uma plêiade de escritores e cientistas em Sans-Souci, o seu palácio em Potsdam, nas proximidades de Berlim. Tudo enfim devia-se a uma elite refinada.

O objetivo ideológico de tal visão não era desprezar as massas ou o homem comum, que afinal, antes de Marx, ninguém atribuía um papel importante ou digno sequer de figurar na história, mas sim minimizar a importância da nobreza guerreira ou da aristocracia de sangue que, ainda no século XVIII, se acreditava a exclusiva agente da História.

Voltaire, de certo modo, pode ser visto como um precursor do positivismo, da idéia de Comte de que o moderno progresso da humanidade dependia muito mais dos cientistas, dos artistas e dos homens de letras e de negócios em geral, e não dos rei conquistadores nem dos padres como a historiografia cortesã gostava de enfatizar.

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Voltaire lendo para Frederico, o Grande

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