Divulgador de Newton
Não só esteve no enterro de Newton, sepultado em 1727, como tornou-se um ardoroso difusor das suas concepções. Deve-se a ele a propagação da física newtoniana, não só na França como no resto do continente. Para tanto, ele preparou uma excelente exposição - o Elementos da Filosofia de Newton, de 1738, escrito sucinto e acessível das idéias gerais daquele grande nome das ciências (a metafísica e a física do que Newton chamou de filosofia da natureza).
Igualmente, no seu retorno à França, orientou a sua amante Madame du Chatelêt - mulher inteligentíssima, sua companheira de laboratório - na tradução para o francês da clássica obra de Newton, a Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, ainda desconhecida no resto da Europa.
 Newton, bandeira dos iluministas |
Aquele esforço de divulgação fazia parte por assim dizer da campanha dos iluministas a favor do conhecimento científico da natureza para dessa forma (na tradição herdada da filosofia clássica, abeberada no epicurista Lucrécio) afastar o pavor supersticioso que os homens tinham dos fenômenos naturais. Pois, como asseverou ele: "é preciso que reconheçam, como todas as pessoas de bom senso, que não se deve procurar na Bíblia verdades de Física, e que nela devemos aprender a nos tornar melhores e não a conhecer a natureza".
Do contrário, ao acreditarem nos "mistérios de Deus", o temor ao sobrenatural facilmente os predispunha à crença nos prodígios, nos caldeirões do inferno, na crença nos milagres e assombrações, perseverando deste modo nas sombras, entregando o seu destino e seus bens nas mãos dos sacerdotes e da Igreja Católica, agência patrocinadora-mor do obscurantismo, segundo os iluministas.
A tolerância
Aquele breve estada inglesa (1726-7) rendeu-lhe a celebridade por toda a Europa por ter escrito as Cartas Filosóficas ou Cartas da Inglaterra, coletânea extraída das suas observações, feitas no Reino Unido. Também serviu-o para convencê-lo de outras coisas: de que era muito salutar existir numa sociedade várias seitas religiosas, rivais entre si. Pois assim, enquanto os sacerdotes, os pastores e demais pregadores brigavam entre si pela conquista do mercado das almas, tentando fazer com que "cada um fosse para o céu pelo caminho que melhor lhe aprouvesse", os pensadores e cientistas eram deixados em paz, podendo livremente levar adiante suas pesquisas e seus inventos. Bem ao contrário, aliás, do que ocorria em França, onde a censura da Igreja Católica dominante, tornada sua inimiga jurada, perseguia sem tréguas os dissidentes, ameaçando-os com prisões e condenando sua obras ao fogo dos infernos. Naturalmente que as "Cartas" dele também foram devoradas nas chamas do carrasco (o livro condenado pela censura era incinerado por um verdugo oficial).
A tolerância religiosa, afirmada anteriormente por John Locke como necessária ao bom convívio social, foi reafirmada por ele, em 1763, num tratado que o imortalizou. Se por um lado notabilizou-se por emprestar sua irônica pena para vergastar todas as superstições e mitos, Voltaire acreditava ser necessário, como afirmou cinicamente num antológico verbete do Dictionnaire philosophique, de 1764, que o povo, "o populacho", como ele preferia dizer, continuasse a ser crente. Acreditar na existência do demônio atuava como uma espécie de freio íntimo - uma polícia das almas - evitando assim que os pobres cedessem à tentação do roubo ou do homicídio.
Um freio no otimismo
Distanciado do pessimismo de Pascal, cujo mundo sombrio e fatalista pessoalmente detestava, também se afastou das tendências exageradas do otimismo de Leibniz, a quem satirizou de forma impagável na sua imortal novela Cândido ou o otimismo (Candide), de 1759. Para expor a sandice dos que viam o mundo cor-de-rosa, ele imaginou a figura do professor Pangloss, um impagável filósofo otimista que acreditava que - apesar dos horrores da existência, dos terremotos, das guerras, dos saques, dos incêndios, dos autos-de-fé, da velhacaria que o cercava - "vivíamos, afinal, no melhor dos mundos possíveis!"
Mas Cândido não é só uma manifestação crítica contra os exageros do otimismo, e sim uma novela de formação (o que os alemães chamam de bildungroman), na qual um jovem inocente percorre as mais diversas etapas do seu destino, descortinando um mundo por inteiro que lhe era inimaginável, conduzindo o leitor a um passeio sensacional e emocionante por tudo o que era representativo no século XVIII, da estupidez das guerras européias às missões jesuíticas no Novo Mundo.
 O jovem Cândido e seu mestre otimista |
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