Voltaire
o rei do espírito
 Voltaire (1694-1778) |
De longe o mais conhecido e celebrado homem de letras do século XVIII, Voltaire foi a própria incarnação do Iluminismo. Vivendo sua longa existência ao largo do Século das Luzes, representou os princípios maiores daquele movimento, engajando-se em grandes causas a favor da tolerância religiosa e a favor da liberdade de expressão, tornando-o um dos mentores indiretos da
Revolução de 1789.
Um deísta
"Nossa divisa é: sem quartel aos supersticiosos, aos fanáticos, aos ignorantes, aos loucos, aos perversos, aos tiranos [...] será que nos chamamos de filósofos para nada?"
Diderot a Voltaire (Carta de 29.09.1762)
Estando em Paris em 1778, Benjamin Franklin soube da recente presença de Voltaire na cidade e resolveu levar-lhe o neto para que o eminente ancião o abençoasse. "Deus e Liberdade!", disse o sábio homem ao pequeno, depois de ter trocado amabilidades com o embaixador itinerante dos americanos. Deus?! Na boca daquele herético? Sim, porque ao contrário da lenda e dos padres seus inimigos, Voltaire jamais fora um ateu. Acreditava sinceramente numa inteligência
 Franklin era admirador de Voltaire |
superior, numa força ordenadora do universo, no grande geômetra de Newton, não no ente afirmado pelas religiões reveladas capaz de operar milagres, de fazer parar o Sol, ou de curar escrofulosos ou leprosos. Era-lhe completamente estranho o Deus dos carolas, dos fanáticos, dos supersticiosos, da burocracia eclesiástica.
Estranhamente, o que o consagrou em sua época, pelo menos até os 50 anos de idade, foram suas peças teatrais e algumas óperas, quase todas esquecidas nos dias de hoje.
O militante das luzes
O Voltaire que projetou-se através dos tempos foi o escritor engajado, o militante do Iluminismo. Neste campo foi o mais preclaro antecessor de Jean-Paul Sartre que, como esse, utilizou-se de todos os meios ao seu alcance (teatro, romances, poemas, ensaios, correspondência ou panfletos) para divulgar suas idéias.
A sua personalidade dominou o mundo das letras de todo o século XVIII (tão fabuloso que Saint-Just queria que fosse imortalizado e colocado no Panteão). Tanto é assim que são incontáveis os historiadores, escritores, críticos literários, ensaístas culturais e outros que chamam-no de O Século de Voltaire. Nascido numa tradicional família burguesa em 21 de novembro de 1694, os Arouet, já bem jovem tornara-se devido ao seu espírito ferino na coqueluche dos salões parisienses e, para desgosto dos pais, um familiar do templo dos libertinos.
Embastilhado
Conhecido como autor de poemas picantes e maldosos, termina conhecendo os cárceres da Bastilha e vários exílios. Aos 32 anos de idade chegou a ser furiosamente espancado por asseclas do cavaleiro de Rohan, com quem havia desejado duelar. Uns tempos antes, em 1716, por ter feito um poema satirizando o cavaleiro La Motte e o regente, foi desterrado para Sully-sur-Loire e, em seguida, encarcerado na Bastilha. Foi lá, preso, que ele escreveu La Henriada, uma poema épico em homenagem à tolerância de Henrique de Navarra, o rei Henrique IV dos franceses que foi assassinado por Ravaillac, um católico fanático que o abateu à facadas, por ter assegurado a liberdade religiosa dos huguenotes, os protestantes franceses, por meio do Édito de Nantes, de 1598. Também foi entre aquelas pedras tristes que o cercavam que resolveu mudar o seu nome de François-Marie Arouet para Voltaire,
 A Bastilha, a curta "residência" de Voltaire |
um anagrama de
arovet le ieune, "Arouet, o jovem".
Antes de partir para um curto e proveitoso exílio na Inglaterra, numa hilariante entrevista que tivera com o regente Felipe (que havia despachado a carta ordenando o seu encarceramento) nas Tulherias, pediu a autoridade que, doravante, não mais se preocupasse com sua moradia. A estada entre os ingleses, ainda que só de dois anos, foi-lhe vivificante.
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