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Tolstoi na Chechênia


"Que energia e que força vital!, disse para comigo, pensando naquilo que me custara a arrancar o cardo. Como vendem cara a sua vida! Como lutou para defendê-la!" - Leon Tolstoi - Hadji Murat, 1896


Tolstoi alistado no Cáucaso, em 1856
Retornando para a Iasnaia Poliana, a sua tão famosa propriedade, Leon Tolstoi deparou-se, à beira do atalho que tomara, com um exuberante cardo tártaro. Atraído pela beleza da sua flor, cismou em querer arrancá-lo por inteiro. Puxou, puxou, até que, num gesto mais vigoroso, extraiu-o com raíz e tudo. Ufa! Que obra! A teimosia da planta em desgrudar-se do chão fez com que, aos poucos, ele recordasse da gente do Cáucaso. Quando jovem, ele servira lá como artilheiro, entre 1851 -54, enfrentando a resistência do líder checheno Chamil, que se estendeu até 1859. Como o cardo tártaro que o desafiara, aqueles montanheses - os chechenos, os inguches, os circassianos, os bats, os ossetianos, os azires e mais 50 outros tantos grupos étnicos -, tradicionalmente, batiam-se até o fim contra qualquer tentativa de remoção.

Entrando em casa, Tolstoi sentou-se na sua escrivaninha e, tomando a pena, deu-se a narrar a fascinante história de Hadji Murat (um lendário personagem, um naib, um misto de chefe clãnico e valentão foragido da lei, daquele canto perdido do sul da Rússia).

Áspera, e com altíssimos picos pedregosos, cercados por incríveis despenhadeiros, a cordilheira do Cáucaso (que liga os dois mares da Ásia Menor, o Cáspio e o Negro), é uma das esquinas do mundo. Logo, uma torre de Babel. A confusão das falas que lá impera é tamanha que os historiadores árabes chamaram-na de Jabal al-Alsine, a "Montanha das línguas". Desde 1723 aquela exótica região começou a cair no controle do Império Russo, quando Pedro, o Grande, venceu uma curta guerra contra o xá da Pérsia. Uns anos antes desta vitória, o czar enviara para lá a missão do Príncipe Volynsky, imaginando que dali, do Mar Cáspio (que a envolve pelo leste), partia um rio em direção à Índia, o que lhe abriria as portas do rico comércio com o Oriente.


Tolstoi em trajes de camponês quando decidiu-se a ser escritor e viver na sua propriedade
Morto logo em seguida à conquista, Pedro não viu nada dessa riqueza. Porém, no século 19, os russo sentiram-se compensados. Ao redor de Baku, no atual Azerbaijão, desde 1872, passaram a explorar um dos mais prodigiosos lençóis petrolíferos até então descobertos. Foi a riqueza desse produto estratégico para a vida moderna, que atraiu para lá, durante a invasão da URSS pelos nazistas, o Iº Exército Panzer do General von Kleist, que ocupou a Chechênia em julho de 1942, chegando, com a entusiasmada adesão dos habitantes locais, a erguer a bandeira nazista no Monte Elbrus, o pico mais elevado do Cáucaso. Atitude que, como não poderia deixar de ser, os soviéticos não perdoaram depois que conseguiram expulsar os nazistas da URSS.

A longa duração do domínio que os russos exerceram, e provavelmente ainda exercerão sobre o Cáucaso, encontra sua explicação na própria leitura do "Hadji Murad" de Tolstoi. As intensas rivalidades tribais, a existência de religiões adversárias (cristã e muçulmana, sunita e xiita), e a proximidade de duas poderosas nações islâmicas (a Turquia e o Irã) fez com que o fortim russo, com sentinela de plantão, fosse visto por muitos caucasianos, particularmente os cristãos, como um mal menor, senão como o único capaz de garantir uma certa ordem e uma relativa paz no caos histórico em que quase sempre viveram.


Coluna do exército russo em marcha nas Montanhas do Cáucaso em 1845

Mesmo assim, que se precavessem os russos! O czar Pedro, nas suas instruções ao príncipe Boris Kurkhistanov, o representante imperial no Cáucaso, recomendou que lidassem bem com a tribos locais, não lhes causando "constrangimento nem rudeza". Caso, porém, isso não funcionasse com aqueles povos orgulhosos, que fosse severo com eles, porque, afinal das contas, como ele disse, oni ne takoi narod, kak v Evrope!, eles, os chechenos, "não pertenciam às nações européias".

Com a flor do cardo despedaçada na palma da mão, Tolstoi lamentou-se. Esganara a pobre planta para nada. Contemplando o estrago, vendo-a esmaecida, moribunda, deu-se conta de que seu esforço só a desgraçou. De certa forma, esta é a situação do exército russo que, em fevereiro de 2000, se adonou de Grozny e de quase toda a Chechênia, repetindo com as armas o que o grande escritor, num equívoco, fizera, há bem mais de um século atrás, com as mãos.


A bandeira russa em meio as ruínas de Grozny

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