1914
O Suicídio da Europa
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Os anônimos (tela de Albin Egger-Linz, 1916)
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Até agosto de 1914, o continente europeu era um lugar invejado no mundo inteiro. Países como a Grã-Bretanha, a França, o Império Alemão e o Reino da Itália concentravam o maior número de invenções e de descobertas feitas até hoje, a maioria delas nos laboratórios onde trabalhavam a maior parte dos cientistas existentes no mundo daquele época, ao tempo em que celebravam a excelência das suas artes e o avanço tecnológico e civilizatório que atingiram. Repentinamente, uma crise na região dos Bálcãs, envolvendo a pequena Sérvia e o Império Austríaco, jogou a Europa inteira nos braços da morte. Declarada a guerra, que logo chamou-se a Grande Guerra, milhões de jovens marcharam para o desastre, como se fizessem parte de um mortífero ritual de suicídio coletivo, sem que ninguém pudesse mais detê-los.
Os anônimos (tela de Albin Egger-Linz, 1916)
A contabilidade funesta
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"Será razoável supormos que toda a civilização elevada desenvolve tensões implosivas e movimentos de autodestruição? ....Será a fenomenologia do tédio e do anseio pela dissolução violenta uma constante na história das formas sociais e intelectuais a partir do momento em que ultrapassam um certo limiar de complexidade?""
George Steiner - No castelo do barba azul, 1971
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O ataque com gás (tela de Otto Diz)
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"Armistício! Armistício!" A noticia varou o mundo. Os telégrafos enlouqueceram. O marechal Ludendorff, o supremo comandante da Alemanha Imperial, pedira um armistício aos aliados. A Grande Guerra chegara ao término. Em instantes as ruas e praças de Nova Iorque, Paris e Londres, encheram-se com as multidões exultantes com o fim da matança. Quatros anos antes, em 1914, as mesmas multidões atiçaram com clarins marciais, gritos patrióticos e ramadas de flores, os soldados à partir para o fronte. Naquele momento, em novembro de 1918, quando se anunciou que o mundo voltava à paz - contabilizando 8.5 milhões de mortos e um incalculável número de mutilados e feridos - , celebravam a sobrevivência.
Perplexidade
Para os historiadores do futuro certamente causará assombro a arrogante cegueira demonstrada pelas elites européias, seus estadistas, seus nobres, seus políticos, seus generais e seus empresários, no empenho que tiveram para alcançar a sua autodestruição. Até o malfadado ano de 1914, era inquestionável o domínio europeu sobre o restante do mundo. Na Ásia, na África, na América Latina, na Austrália ou na Polinésia, tudo girava em função das necessidades e lucros dos interesses financeiros e estratégicos sediados no Velho Continente. Nenhuma ponte era erguida, nem um poste era instalado, nem estrada-de-ferro era estendida, nem fábrica inaugurada, que não tivesse nelas interesse de capitais europeus. E, em apenas quatro anos de morticínio, os estadistas europeus conseguiram desbarataram quase tudo. A favor do Império Romano pode-se ainda dizer que a sua dissolução pelo menos deu-se por uma involuntária maré bárbara que, vinda de fora, inexorável, transbordou o Danúbio e o Reno, levou tudo de roldão. Mas qual a justificativa deles?